Sábado, 11 Março 2017

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Queridas Senhoras,

podemos começar pelo último post da Marta, Copérnico não acreditava na verdade. «A vida fora outrora um sonho luminoso e límpido que o esperava alhures, para lá da desilusão dos dias vulgares (…)»

E se a verdade, a existir, estiver nos dias vulgares? E se a felicidade for a normalidade e não a exaltação? Se não houver mistério nenhum a não ser o de acordar cada manhã e tentar fazer melhor, ser melhor pessoa?

Só há uma coisa melhor do que ler um grande livro, um clássico daqueles que atravessam os tempos e tocam várias gerações. É ainda não o ter lido e ter essa aventura para viver. Vivi 40 anos sem ter lido Anna Karenina e só não me arrependo porque pude lê-lo há muito pouco tempo e por isso tenho-o muito vivo e presente. Antes vi a mini-série (foi o impulso para a leitura) e a semana passada calhou ver o filme de Joe Wright. E ontem assisti a Como ela morre no Teatro D. Maria II.

Tenho o enredo do livro tão presente que sou capaz de desfiar as cenas mais importantes de empreitada. Identifico os diálogos, sei quem diz o quê e quando. Francamente não sei o que teria sentido em relação à peça se não conhecesse tão bem a obra. Mas julgo que não será indispensável conhecê-la para ver e apreciar esta criação de Tiago Rodrigues e da companhia belga Stan.

Há desde logo esta ideia muito forte e muito bonita que é a deste grande clássico da literatura traduzido em várias línguas, lido por muita gente em épocas diferentes. Quase podemos escutá-los em uníssono, recitando em russo, inglês, francês, português, alemão, com os sons e ritmos próprios de cada idioma, «todas as famílias felizes são iguais…». Mulheres, homens, jovens, velhos de muitos países e tempos, entrando pela primeira vez na casa dos Oblonskys.

Como ela morre põe em cena duas épocas (a actualidade e o final dos anos 60) e três idiomas, o português, o francês e o neerlandês. Dois casais recriam o drama do afastamento, do desamor (quando a orelha ao lado da qual acordamos já não é a orelha que queremos mordiscar), por um lado, e da paixão proibida, por outro.

Há um homem traído que lê uma edição sublinhada de Anna Karenina e recusa-se a falar com a mulher adúltera enquanto não chegar ao fim. Há uma mulher que lê a obra em francês para aprender o idioma. Foi um fotógrafo belga que lhe deu o livro e agora encontram-se todos os dias na estação de Melchen, antes de seguirem o seu destino, um para Bruxelas, o outro para Antuérpia. Há encontros semelhantes, entre outro casal, na estação do Rossio, em Lisboa. Há um homem que esteve na guerra e só quer pintar a casa. Uma casa em construção que a mulher quer abandonar metendo a vida numa mala vermelha. A normalidade desmoronada e a tinta inútil a secar nas latas,

No livro, como na peça, a estação de comboios é lugar de vida e morte. (A certa altura alguém diz que não é o amor que importa mas sim a morte e, portanto, a vida.) É na estação que Anna e Vronsky se encontram pela primeira vez. É aí que ele vê o brilho impossível dos olhos que ela não consegue disfarçar. O brilho que ilumina a escuridão. Como o relâmpago que às vezes deixa ver, por um instante apenas, a vida, a verdade ou o que quer que seja.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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