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Queridas Senhoras,

não posso estar mais grata ao Teatro dos Aloés pelo magnífico e constante trabalho desenvolvido, por insistirem em estrear peças de qualidade nos Recreios da Amadora, uma sala cheia de história que é um ex libris da cidade. Antigo e mítico Cine Plaza, aqui assisti aos meus primeiros filmes há mais de 30 e antes disso já a minha mãe frequentava a sala com as amigas, então meninas da escola. Hoje já levamos as gerações mais novas (Alice, João, Gustavo) a assistir a diferente espectáculos.

Numa cidade que há muito deixou de ter cinema (o mais perto que temos são os famigerados multiplexes dos centros comerciais, onde, por vezes, os bons filmes não chegam a estrear, veja-se o caso de Aquarius que não tem lugar na programação Cinema City de Alfragide), é uma sorte e um privilégio ter teatro de qualidade à porta de casa, como não me canso de dizer aqui e a quem me quiser ouvir.

Jorge Silva, Elsa Valentim, Sofia de Portugal, entre outros, são os rostos bondosos, sorridentes e enérgicos, as vozes carismáticas que conhecemos tão bem, desta companhia que já nos trouxe peças de muitos autores, clássicos e contemporâneos, nacionais e estrangeiros, sempre com a preocupação de apresentar textos de qualidade. Destaco, ao longo dos últimos anos, Chove em Barcelona (Pau Miró), Escrever, Falar (Jacinto Lucas Pires), Danças a um Deus Pagão (Brian Friel), Variações à beira de um lago (David Mamet), América, Suiamérica (Rui Mendes a partir de Antony West e Israel Horovitz), Casos do beco das sardinheiras (Mário de Carvalho).

Hoje, Dia Mundial do Teatro, pelo preço simbólico de 1 euro, todos podem assistir à última criação dos Aloés, Amor de D. Perlimplim com Belisa em Seu Jardim, de Frederico Garcia Lorca. Tive oportunidade de assistir ontem e trata-se de um pequeno conto sobre o amor e o engano, com uma encenação onírica e encantatória, que oscila entre a comédia de enganos e a tragédia à maneira de Shakespeare.

Não me ocorre melhor forma de celebrar o Dia do Teatro.

Beijinhos a todas,

Céu

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Clara em castelo

por , em 26/3/17

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Queridas Senhoras,

com uma tarde de chuva destas, apetece fazer como a Clara de Aquarius e ficar ouvindo Maria Bethania. («Lhe dê Maria Bethania, mostre que você é intenso».). Com diz o Joel na crónica de hoje, apetece entrar «numa bolha de lentidão» e fazer coisas meio anacrónicas como escutar um hit de Roberto Carlos.

Há muito tempo que um filme não me enchia tanto as medidas. Aquarius tem a familariedade das novelas brasileiras, aquela coisa absurda da divisão de classes (apropriadamente, o que separa a zona rica da zona pobre, é um cano de esgoto na praia) e o tom de um grande clássico, capaz de agarrar e fixar um tempo, que é o nosso, em que o vinil é vintage mas outras coisas são só velhas e ultrapassadas, não adquiriram estatuto retro.

Clara é uma rainha no seu castelo, um edifício baixo e antigo chamado Aquarius que a construtora quer demolir para levantar uma torre dessas que ensombram a praia. Há um betinho que fez «business» nos Estados Unidos, um «cara de merda» que é só um dos tubarões que vêm acossar Clara em seu castelo. Ah, ideia brilhante a dele, chamar Aquarius ao novo edifício para preservar a memória. É meio vintage.

Haverá presa mais fácil para os tubarões do que uma mulher viúva, aposentada, sozinha? O que se espera de uma sexagenária se não que obedeça aos conselhos dos filhos, dos amigos, do salva-vidas da praia e pense na sua segurança? Não entre no mar que tem tubarão. Saia logo desse prédio que não tem vigilância.

Clara pode até já ser avó mas é um mulherão. Ela pode até já ter tirado um peito mas é uma deusa no fato de banho preto com que entra no mar todos os dias, nas túnicas soltas com que descansa na sua cama de rede, na saia elegante que escolhe para ir dançar com as amigas e atrai o olhar do tipo mais charmoso do baile.

«Você gosta de Mp3?», pergunta a jornalistazeca, sobrinha do editor, que vai fazer uma matéria sobre Clara, antiga crítica de música do jornal. Quem quer saber de Mp3 quando pode chegar em casa, depois de um flirt não tão bem sucedido como isso, colocar Roberto Carlos no gira-discos, um LP bem velhinho (quase dá para sentir o suor dos corpos que amaram ao som daqueles vinis) e ficar dançando no escuro, soltando aquele cabelo negro, imenso?

 

Beijinhos a todas,

Céu

 

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sem nome

Quotidiano

Se fosse fácil escrever
um poema do quotidiano,
desses avulsos que se leem
no dia mundial da poesia,
eu cá aproveitava a hora de almoço
e o canto da folha de jornal
e escrevia qualquer coisa banal.
Afinal, sou especialista em quotidiano.
(experiência: vivo todos os dias).
Gostava que o meu poema tivesse
um relógio, uma escrivaninha, uma estação.
Mas também podia ter só ruas e janelas.
Quando passam crianças, nesse poema,
penso sempre nos meus filhos.
Se estarão a rir-se naquele momento
ou tristes.
Porque caíram ou foram mordidos.

Beijinhos a todas!

Céu

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Dez a zero

por , em 19/3/17

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Queridas Senhoras,

apareceu aí há duas semanas nas revistas o brasileiro Marcos Piangers, papai de duas garotas que se tornou uma espécie de guru da paternidade, mas muito descontraído, sem aquela chatice dos blogues de mamãs, tudo muito cool e top. O inevitável livro que o moço escreveu chama-se mesmo O Pai é top. Fui na conversa e achei que era uma prenda gira para a Alice e o João darem ao papá. Não me interpretem mal, admiro casos de gente que escreve histórias reais, emocionais, ainda que cheias de lugares-comuns e verdades evidentes, e que se torna um sucesso no mundo dos blogues, das redes, e depois passa tudo para um livro que é top. Top de vendas.

Nada contra, Marcão!, adorei ler seus textos. Pena que não levei mais que duas horas mas ainda deu para rir e para chegar a lagriminha ao canto do olho. Acho que o papai Zé também vai achar graça, sim, embora ele, mesmo sem blogue e sem livros com capas muito fixes, dê dez a zero em você nisso de ser um papai top. Ah e ele não obriga ninguém a comer quinoa, tá? Esquece tofu, seitan, lentilhas e troca por muito gelado e chocolate. De leite mesmo, nada de chocolate moderninho com elevada percentagem de cacau puro.

Mas você conseguiu arrancar gargalhada nesse aqui, quando fala da diferença entre os pais de ontem e de hoje:

«Me lembro de brincar na casa do meu amigo Gustavo. O pai do Gustavo era um pai típico da época: barriga grande, dedos grossos na mão e pouca paciência para brincadeiras. Ele entrava em casa, estávamos jogando Atari, dava um beijo no filho e desaparecia. A partir dali precisávamos abaixar o volume da TV e das conversas, ou a mãe do Gustavo vinha gritando: “Silêncio! Teu pai tá em casa! Teu pai tá cansado!”. Ser pai naquela época era como ser um mafioso. As pessoas te respeitavam.»
Máfia no divã, pp. 68

Este é um livro de auto-ajuda também. Com aqueles lugares-comuns tão comuns que devíamos repeti-los todos os dias ao acordar, como um mantra.

«Nunca ouvi falar de um homem que, quase morrendo, ao avaliar seu passado, tenha se arrependido por ter trabalhado pouco. “Deveria ter preenchido mais relatórios”. “Deveria ter participado de mais reuniões”. “Que arrependimento por não ter virado mais noites no escritório”. Soa impossível. Os principais arrependimentos da vida são sobre não ter valorizado as pessoas mais importantes. “Deveria ter passado mais tempo com as pessoas que eu amo”; “deveria ter dado menos valor para o dinheiro”; “deveria ter sido mais presente”; “não deveria ter me preocupado com a opinião dos outros”.

As pessoas dizem que a vida é curta, mas me parece que a vida é longa. Pessoas recomeçam todos os dias. Recomeçam relacionamentos, recomeçam carreiras profissionais. Descobri, pela internet, que até meu pai biológico tem uma família linda. É um pai participativo agora. Nunca lhe disse isso, mas fico feliz. Fico feliz que a vida seja longa o suficiente pra que essas coisas aconteçam. A vida é longa e cheia de oportunidades pra você ser uma pessoa melhor. Todos os dias algo esbarra na sua cadeira de praia e te diz que você pode ser uma pessoa melhor.»
A vida é longa, pp. 52

Valeu, Marcão.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

podemos começar pelo último post da Marta, Copérnico não acreditava na verdade. «A vida fora outrora um sonho luminoso e límpido que o esperava alhures, para lá da desilusão dos dias vulgares (…)»

E se a verdade, a existir, estiver nos dias vulgares? E se a felicidade for a normalidade e não a exaltação? Se não houver mistério nenhum a não ser o de acordar cada manhã e tentar fazer melhor, ser melhor pessoa?

Só há uma coisa melhor do que ler um grande livro, um clássico daqueles que atravessam os tempos e tocam várias gerações. É ainda não o ter lido e ter essa aventura para viver. Vivi 40 anos sem ter lido Anna Karenina e só não me arrependo porque pude lê-lo há muito pouco tempo e por isso tenho-o muito vivo e presente. Antes vi a mini-série (foi o impulso para a leitura) e a semana passada calhou ver o filme de Joe Wright. E ontem assisti a Como ela morre no Teatro D. Maria II.

Tenho o enredo do livro tão presente que sou capaz de desfiar as cenas mais importantes de empreitada. Identifico os diálogos, sei quem diz o quê e quando. Francamente não sei o que teria sentido em relação à peça se não conhecesse tão bem a obra. Mas julgo que não será indispensável conhecê-la para ver e apreciar esta criação de Tiago Rodrigues e da companhia belga Stan.

Há desde logo esta ideia muito forte e muito bonita que é a deste grande clássico da literatura traduzido em várias línguas, lido por muita gente em épocas diferentes. Quase podemos escutá-los em uníssono, recitando em russo, inglês, francês, português, alemão, com os sons e ritmos próprios de cada idioma, «todas as famílias felizes são iguais…». Mulheres, homens, jovens, velhos de muitos países e tempos, entrando pela primeira vez na casa dos Oblonskys.

Como ela morre põe em cena duas épocas (a actualidade e o final dos anos 60) e três idiomas, o português, o francês e o neerlandês. Dois casais recriam o drama do afastamento, do desamor (quando a orelha ao lado da qual acordamos já não é a orelha que queremos mordiscar), por um lado, e da paixão proibida, por outro.

Há um homem traído que lê uma edição sublinhada de Anna Karenina e recusa-se a falar com a mulher adúltera enquanto não chegar ao fim. Há uma mulher que lê a obra em francês para aprender o idioma. Foi um fotógrafo belga que lhe deu o livro e agora encontram-se todos os dias na estação de Melchen, antes de seguirem o seu destino, um para Bruxelas, o outro para Antuérpia. Há encontros semelhantes, entre outro casal, na estação do Rossio, em Lisboa. Há um homem que esteve na guerra e só quer pintar a casa. Uma casa em construção que a mulher quer abandonar metendo a vida numa mala vermelha. A normalidade desmoronada e a tinta inútil a secar nas latas,

No livro, como na peça, a estação de comboios é lugar de vida e morte. (A certa altura alguém diz que não é o amor que importa mas sim a morte e, portanto, a vida.) É na estação que Anna e Vronsky se encontram pela primeira vez. É aí que ele vê o brilho impossível dos olhos que ela não consegue disfarçar. O brilho que ilumina a escuridão. Como o relâmpago que às vezes deixa ver, por um instante apenas, a vida, a verdade ou o que quer que seja.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Pedro, o justo

por , em 5/3/17

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Queridas Senhoras,

sai a 17 de Março novo volume dos textos do blogue de Pedro Mexia, Malparado Diários 2012-2015. Segue-se a Lei Seca (2009-2012), Estado Civil (diário de uma crise, 2006-2008) e Prova de vida (2004-2006).

Entramos nestes diários como quem pisa território sagrado. É com reverência que acedemos a revelações que “teríamos pudor de contar seja a quem for” e como leitores sentimos também algum pudor em entrar na intimidade desta persona, do alter ego que assina estes diários, registando laboriosamente ao longo dos dias, dos anos, reflexões mínimas, episódios quotidianos, lembranças, gostos, desabafos, arrependimentos, obsessões, vagas esperanças, por vezes, mas sobretudo melancolia, passado, memória.

Não há uma palavra a mais. A escrita é sempre justa, concisa, precisa, tanto no sentido de exacta como de necessária. Concisa mas não elíptica. Codificada mas não em demasia. O território é sagrado e tem os seus rituais, estabelecidos e ratificados ao longo dos anos. Mas não é indispensável dominar os códigos para usufruir da leitura. Conhecê-los é ter acesso a uma espécie de chave interpretativa. Há temas recorrentes e através dessa chave podemos extrapolar, conseguimos quase adivinhar o que o autor pensaria disto ou daquilo.

Há músicas, bandas, filmes, autores, textos, poemas, citações, referências que reaparecem em diferentes contextos porque são elementos essenciais deste universo que vamos aprendendo a identificar e a interpretar. Há pouco tempo li (julgo que foi no livro do Ricardo Araújo Pereira) sobre uma técnica de escrita de comédia que consiste em tornar o banal notável e o contrário, tornar trivial o que é raro. PM faz isso sem efeitos de comicidade. Uma banalíssima frase escutada no café reveste-se de significado quase divino. Um evento importante, pelos padrões gerais, é registado de passagem, apenas inventariado.

Nunca os blogues de onde estes diários provêm tiveram caixas de comentários, o que seria absurdo, quase uma profanação. O templo deve ser preservado. A escrita é íntima e a leitura ainda mais. Os textos são justos, limpos, definitivos. Dispensam comentários.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′