Senhoras da nossa idade

Author: Paula (page 1 of 6)

Tragédia a Vermelho

 

Foto-Ivan-Abujamra.1

                                                                                                                                                                                               ”Vermelho” – Foto de Ivan Abujamra

 

Queridas senhoras,

cheguei ao Brasil no exacto dia da queda do avião que transportava a equipa de futebol do Chapecoense. Soube da triste notícia assim que as portas se abriram para a sala de espera do aeroporto e uma mulher correu para o marido, assim suponho eu, de braços abertos a dizer “ainda bem que o avião que caiu não era o teu.” Tremi.

Houve uma altura que as “cartas” com o selo do Brasil traziam notícias mais alegres e tinham o dedo da Mariana. Não quero fazer aqui o papel de desmancha-prazeres. Mudemos já de assunto, então, não sem antes perguntar-te, a ti Mariana, como te está a correr tudo no México.

Aqui por São Paulo vive-se o Natal de t-shirt e chinelo no pé. Mas isso tu já sabes, né? Fui ver a árvore de Natal ao Parque Ibirapuera e não deixa de ser estranho, para quem estava o ano passado a olhar para um sapin de noel na Suíça, olhar para uma outra no Brasil, com os mesmíssimos símbolos (flocos de neve, ursos brancos) quando os termómetros indicam 30 graus.

O Mercadão foi onde me fui abastecer da fruta mais exótica que já provei e também a mais cara: 50 euros por pouco mais de um quilo. Eu sei, eu sei, há quem gaste tudo em droga, não é Céu, mas eu prefiro uma boa peça de fruta: mangostão, dragon fruit, jabuticaba, açaí, caju (fresco não é o seco), goiaba, coco, acerola, carambola, eu sei lá. Tudo simplesmente maravilhoso.

As conversas com os paulistas é que não deixam de ser estranhas. Já passei por espanhola (eles percebem melhor o castelhano da América do Sul do que o português) e houve até quem me respondesse em inglês para eu perceber melhor… É nestas alturas que dou graças a horas e horas de novelas da Globo.

Paulista: Você entende tudo o que eu falo?
Eu: Tudinho, ué.

Aproveitei a oportunidade para ir ao cinema, ver o que não passa em Portugal. Elis, o filme, foi a minha escolha. Gosto de E. Regina mas pouco sabia da sua biografia. De certeza que tu, Marta, com a tua cultura musical sabias mais deste tema que eu. Vou agora dedicar-me a ler as letras das suas músicas à luz do que foi a sua vida. Seguramente terão outro significado.

No teatro a opção foi a peça Vermelho de John Logan que também já esteve em cena em Lisboa. Na altura deixei passar. Agora não. António Fagundes (sim o das novelas) é Mark Rothko (1903) e o seu assistente é interpretado pelo filho.

- O que é que você vê ali?
- Vermelho.
- Você quer dizer escarlate? Você quer dizer carmesim? Você quer dizer ameixa-amora-magenta-borgonha-carmin-coral? Qualquer coisa menos “vermelho”. O que é “vermelho?”

Esta é a história de um pintor russo que teve uma das encomendas mais caras da história da Arte contemporânea (cerca de 2 milhões de euros nos dias de hoje) mas que desistiu dela, devolvendo todo o dinheiro, após ter ido visitar o local onde ficariam as suas obras.

O homem, que passava dias e dias a olhar para as telas, definindo distância de leitura da tela e intensidade da luz do espaço, desistiu bruscamente da ideia de ter as suas pinturas num dos restaurantes mais caros do mundo, o Four Seasons, de Nova Iorque, após lá ter ido jantar.

O que mais o desiludiu não foi não conseguir decifrar os pratos do menu com nomes pomposos, não foi o facto de as pessoas estarem mais preocupadas em ouvir as conversas das mesas ao lado, não foi o ver e ser visto, foi só e tão simplesmente a falta de contemplação. O mesmo desgosto que lhe dava quem comprava as suas obras cheias de cor para condizer com o sofá ou o tapete da sala.

Suicidou-se em 1970. Se, hipoteticamente, tivesse nascido décadas depois e ainda fosse vivo não lhe agradaria nada saber que, segundo os últimos dados do Louvre, em média um visitante daquele museu passa apenas 7 segundos diante de uma obra. O tempo de tirar uma selfie, vá.

Ter-se-ia suicidado na mesma.

Beijos a todas,

Paula

Carnaval é quando um suíço quiser

13059884_1109235889116086_369215024_n

Queridas Senhoras,

em primeiro lugar, as minhas desculpas pela ausência mas a minha vida deu outra vez uma volta. A aventura suíça chegou ao fim, regressei a Lisboa em Março e comecei a trabalhar a tempo inteiro, antes mesmo da chegada das minhas 30 caixas.

A casa parece que encolheu e por muito que me livre de coisas que percebi já não terem utilidade, o espaço é cada vez menor. Quanto ao tempo, também ele acaba por ser pouco para se regressar a um quotidiano que se tinha deixado meses atrás. O trânsito, os transportes públicos, os horários, entrar no ritmo tem o que se lhe diga.

Se estivesse na Suíça, no próximo fim-de-semana a cidade onde vivia iria festejar o Carnaval. Na Suíça, Carnaval é quando um Homem quiser. Se é verdade que as cidades católicas seguem o calendário litúrgico para bater certo com a quarta-feira de cinzas, que encerra o regabofe, e a Quaresma, período de suposta penitência até à Páscoa, não menos verdade é que nos cantões protestantes os festejos acontecem mais tarde.

Na católica Lucerna, por exemplo, o Carnaval já lá vai e começa sempre às cinco da manhã (leram bem!). Nessa madrugada o barulho é tanto que não há quem durma. A Guggenmusik – banda que quanto mais desafinada tocar, melhor – não pode faltar e, no final, há batalha de… laranjas. Depois deste momento de farra é hora de trabalhar. A festa continua à tarde, num cortejo pelas ruas da cidade e continua noite dentro já com o apoio das típicas salsichas e das tortas de queijo. Estamos na parte alemã, não convém esquecer.

Já a protestante Basileia, onde também se fala alemão, começa o seu Carnaval uma semana depois e também de madrugada, às quatro da manhã, altura em que se apagam as luzes da cidade. Diferentes grupos desfilam então pela cidade num barulho ensurdecedor. Trazem máscaras iluminadas, extravagantes e até assustadoras e tocam pífaros e tambores. O espectáculo termina já a manhã vai alta e os restaurantes começarem a abrir portas para servir uma sopa de farinha. Sim, não faltam os carros alegóricos, sátira política e confetis pelo ar.

Em Lausanne, na parte francesa mas igualmente protestante, o Carnaval tem pouco de Carnaval, tal como nós o conhecemos. Gente mascarada vê-se pouco, há bandas de música que tocam pelas ruas, cortejos de ranchos folclóricos e outras associações da Ilha de Páscoa, por exemplo, mas geralmente tudo ligado a associações de emigrantes. Aqui não desfilam suíços. Essa espécie de rara aparição pode ser encontrada, qui ça, na “Feira Popular” com divertimentos e barraquinhas de comes e bebes de cozinhas do mundo, a par do fondue e da raclette, claro. Para dar ao dente há noodles, arroz frito, pizzas e vá, a barraquinha da típica bifana com a bandeira de Portugal para o caso de haver dúvidas.  Aqui fica o programa, caso queiram lá ir…

Beijos a todas,

Paula

Amigos suíços? Como se eles só falam francês?

Boneco cómico de um americano a trabalhar na Suíça para o programa 26 minutes plus tôt

Boneco cómico de um americano a trabalhar na Suíça para o programa 26 minutes plus tôt

Queridas Senhoras,

a propósito de um vídeo de uns humoristas suíços que está a circular nas redes sociais dos expatriados na Suíça, um americano que trabalha há três anos numa multinacional neste país é entrevistado para contar como é ser estrangeiro por estes lados. Ele queixa-se que os suíços são muito difíceis. E entre, algumas palavras em francês e muitas mais em inglês acaba por perguntar como fazer amigos entre os suíços se eles só falam francês e não vêm ter com ele…

Para lá da caricatura fica a realidade que é sempre diferente de pessoa para pessoa. No meu caso posso dizer que num ano tive apenas duas situações desagradáveis e ambas relativas a discussões por lugar de estacionamento.

Na primeira vez, uma mulher esperava à minha frente por um lugar. Quando resolvo passá-la para inverter a marcha aparece uma família que ia sair e me oferece o resto do valor do parque. Aceitei, claro. Olha a simpatia, pensei!

Para azar da outra rapariga, o carro que ela esperava não estava a sair mas sim a chegar. E não é que ela veio reclamar o meu? Que aqui na Suíça eram assim as regras. Em sítio nenhum do mundo, nem em Bangui, nem em Kinshasa, nem no Burkina Faso se aplicam tais regras.

O P. que estava comigo lá me convenceu a deixá-la passar utilizando o argumento de sermos uma espécie de embaixadores do nosso país no estrangeiro. Era preciso usar diplomacia, portanto. Certo…

Da segunda vez, já eu tinha subido e descido seis vezes um parque no aeroporto de Genebra, quando vejo uma luz verde ao fundo de um corredor a indicar um lugar vazio. Quando lá chego estavam duas senhoras em pé a “marcá-lo”. Perguntei o que estavam a fazer. Uma respondeu-me que estava a guardar o lugar para o marido que estava difícil arranjar. Desta vez (estava sozinha) perdi mesmo a paciência e fui eu que utilizei o tantas vezes ouvido “désolée”.

Mas nem tudo são queixumes.

A semana passada, estava eu pronta para lavar o meu carro, chego à conclusão que a mecânica da coisa era mais estranha do que à primeira vista poderia parecer. Mete moeda numa máquina para trocar por fichas, mete ficha na máquina de lavar mas quando acaba podes pôr moeda para não teres de ir à outra máquina trocar pela ficha. Qual é a lógica disto? Estava eu a tentar perceber. Um senhor suíço (?) que estava atrás de mim, não sei se com receio de eu demorar muito, lá me explicou o procedimento das moedas, mas depois foi para dentro do carro que estava frio.

Atraído pela matrícula lusa, apareceu-me então um português vindo sei lá eu de onde e que se ofereceu para me lavar o carro. Disse que não precisava obrigada, mas ele queria mesmo ajudar e não contente com o não, tira-me a mangueira da mão. Ah, e como bónus ainda levei umas dicas de mecânica.

- Não se deve lavar o carro depois de uma grande viagem, sabe? Pode empanar os discos dos travões.

- Ah, mas eu moro já aqui em cima. A viagem foi curta.

No entanto, a que recordo com um agradecimento sentido foi a primeira vez que deixei o carro num mecânico nos arrabaldes e tive que regressar a casa de autocarro. Chovia, estava a tentar comprar o bilhete na paragem mas não tinha moedas. Notas e cartão de débito não são aceites.

O motorista esperou que eu tirasse o bilhete, depois abriu a porta e perguntou-me se eu queria ir naquele autocarro. Ouvido o sim saiu para me ajudar. Perguntou a todos os passageiros se tinham troco e como ninguém tinha, abordou na rua um casal de idosos que por acaso ia a passar e me conseguiram trocar a nota.

Fiquei com a sensação que se só passasse alguém por ali lá para o fim do dia, o homem não arrancaria com o autocarro, para desagrado dos outros passageiros. Conseguem imaginar a minha boca aberta de espanto? A Carris anda sempre atrasada em Lisboa e garanto-vos que não é por causa destes gestos de solidariedade.

Beijos a todas,

Paula

Quando as sirenes tocam

Capela Sistina ONU, uma obra do artista plástico espanhol Miquel Barcelò

Capela Sistina da ONU, uma obra do artista plástico espanhol Miquel Barcelò.

Queridas Senhoras,

conhecem a paranóia dos suíços relativamente a guerras e outras catástrofes? Sabiam que todas as casas e prédios de apartamentos têm bunkers, certo? Já ouviram dizer que há bunkers espalhados pelas florestas, não já?

Pois então. Ao que parece uma vez por ano testam-se as sirenes para ver se está tudo bem. Hoje foi o dia. Só não acabei de ter o susto da minha vida porque a minha amiga T. me avisou dois preciosos minutos antes.

Habituados a isto, os habitantes mostram-se incrivelmente calmos mas não deixa de ser curioso que este país europeu que escapou às Duas Grandes Guerras e que não entra em qualquer conflito desde 1815 seja tão zeloso com a sua protecção.

Nem por acaso ontem visitei o Palácio das Nações Unidas em Genebra. Herdeira da pioneira Sociedade das Nações – que foi criada após a Primeira Guerra Mundial para evitar uma segunda que acabou por acontecer -, a ONU sabe melhor que ninguém que não é na guerra que se começam a cultivar as sementes da paz.

Nas imediações do palácio, uma cadeira em madeira de 12 metros chama a atenção. Não é só pelo tamanho desmesurado, é pelo facto de ter uma perna partida. A escultura, que já se tornou um símbolo da organização em Genebra, é um grito de alerta para as vítimas das minas antipessoais.

Broken Chair, obra do artista suíço Daniel Berset concretizada pelo carpinteiro Louis Genève.

Broken Chair, obra do artista suíço Daniel Berset concretizada pelo carpinteiro Louis Genève.

A visita dura cerca de uma hora e passa pela ala antiga do palácio e pela mais moderna. Ao longo do percurso ouvimos histórias envolvendo imensas nações. A Líbia, único país que foi suspenso pela constante violação dos Direitos Humanos, Espanha que “ofereceu” a obra de arte na cúpula da Sala dos Direitos Humanos, também conhecida pela Capela Sistina da ONU, a Bélgica que ofertou mármore para o hall da entrada principal e de Portugal nada.

A única referência ao país veio da boca de um membro do nosso grupo quando a guia nos perguntou quem acharíamos que ia ser o próximo secretário-geral das Nações Unidas: “Gueterres”, disse prontamente.

Portugal foi membro fundador da Sociedade das Nações (1920) mas não nos esqueçamos dos anos seguintes de ditadura e de guerra colonial. Um passado que tanto enaltece a uns, como envergonha a outros.

Que ao menos nos valha a História para não repetirmos os mesmos erros no futuro.

Beijos a todas,

Paula

Lyon, a cidade miragem

Lyon

Queridas Senhoras,

esta semana quero falar-vos de Lyon, a segunda cidade mais importante de França, de acordo com o Turismo de Lyon, terceira conforme o Turismo de Marselha.

A minha história com Lyon tem quase um ano. Lembram-se da aventura que aqui contei que foi a viagem de carro de Portugal até à Suíça, em Abril passado? Pois então. A partir de Bordéus, onde jantámos, começámos a ver as placas a anunciar Lyon. Como ficava no caminho pensámos fazer um desvio.

Desde então começámos a tomar atenção às distâncias que indicavam as placas. Os 700 km, iam passado para 600 km, depois para 500 km e Lyon continuava uma miragem. Inexplicavelmente, a determinada altura a coisa complicou-se e os quilómetros começaram a aumentar. Quando passámos por Lyon, já a madrugada ia alta, nem demos por ela. E foi assim que ganhou forma o mito que Lyon era uma miragem.

Há pouco tempo resolvi ir a Lyon e aí pude aperceber-me que de miragem Lyon tem pouco. Lyon é uma cidade com fortíssimas raízes. Para começar fica numa península natural na confluência de dois rios, o Ródano e o Saône. Se um rio faz muito por uma paisagem, imaginem dois.

Enquanto romana, Lyon chegou a ser a capital da Gália. Este é precisamente um bom ângulo para descobrir Lyon. Comecei pelas ruínas romanas situadas na colina de Fourvière, de onde se abarca a mais bela vista da cidade. Uma vez aí é impossível não visitar a Basílica de Notre Dame e a sua cripta.

Já na parte velha da cidade, o passeio a pé impõe-se e sejamos religiosos ou não, não dá como fazer vista grossa à catedral de Saint-Jean. Poderia falar-vos dos vitrais, das estátuas ou do órgão, mas prefiro falar-vos de uma outra relíquia mais a puxar ao científico: o relógio astronómico originário do século XIV. Este relógio indica as posições do sol e da lua, as constelações do Zodíaco, a duração do dia e da noite, a data dos eclipses, a Páscoa e outras festividades religiosas, a hora das marés, ufa! Acho que só não dá a chave do Euromilhões.

Quando visito uma cidade pela primeira vez, tenho a tendência a fugir aos grandes museus (excepto se forem importantes instituições como um MoMA ou um Guggenheim) e prefiro ver aquele museu que só há ali, que conta uma história que não vou ver em mais lado nenhum.

Em Lyon visitei dois: o Museu Lumière e o do Guignol. Nunca fui grande fã de marionetas mas elas lá me vão aparecendo de uma forma ou de outra nas viagens que vou fazendo e acabo sempre por não lhe virar as costas. Desta vez fiquei a conhecer a história da marioneta mais famosa de França, criada em 1808, que juntamente com os seus amigos Gnafron e Madelon, fazem um trio cómico. O personagem principal usa sempre um bastão na mão que não tem problemas nenhuns em usar constantemente. É uma resposta sub-reptícia à censura francesa da Segunda República.

E por fim, o cinema. Sabiam que a família Lumière era de Lyon? O palacete do patriarca foi transformado em espaço museológico e conta como os irmãos Lumière chegaram ao cinema e a outras descobertas importantes, como a gaze (para tratar feridas), por exemplo. A dupla chegou a registar a patente de perto de 200 invenções, algumas mais conhecidas do que outras.

Voltando ao cinema, é sempre interessante perceber o que despoletou a descoberta. E neste caso, nem vão imaginar, mas entre outras coisas (como o caleidoscópio) foi… uma máquina de costura. Fechem os olhos e imaginem o som de uma máquina de costura antiga. Agora tentem imaginar o som de um aparelho antigo, tipo retroprojector. Não são idênticos? Os grandes génios vêem o extraordinário onde nós, os comuns mortais, vemos o banal.

Beijos a todas,

Paula

Balada da neve

neve
Queridas Senhoras,

quando aqui cheguei há quase um ano nevou nesse dia. Da janela do meu quarto via a neve cair sobre o lago e a derreter como o algodão doce se desfaz em segundos na boca de uma criança. Eu estava feliz. Até os suíços me pareciam felizes.

Os inventores do turismo de Inverno no século XIX, os helvéticos, sabem que há qualquer coisa de redentor na neve que não se explica. Só que este ano os suíços não têm motivos para sorrir. Dezembro foi o mês mais quente em 150 anos e a neve não pega. De minha casa espreito os Alpes e apenas os picos se mantêm brancos. Os esquis continuam no quente à espera que a chuva passe.

Neste segundo Inverno que aqui passo os hábitos dos vizinhos mantêm-se. Garrafas de bebidas, legumes e sei lá o que mais do lado de fora da janela. Para quê ocupar espaço no frigorífico quando o frio de Janeiro também conserva? Ah e há ainda os calcanhares das moças ao léu. A moda ainda não passou.

Nestes dias assim as melhores companhias são uma caneca de chá fumegante, uma fatia de bolo e uma série para a tarde inteira. Só que também para mim o Inverno começou amargo. Desafiada pela minha amiga S. a passar um mês sem tocar em açúcar refinado, tenho resistido com mais ou menos dificuldade à tentação. Já lá vão duas semanas e nem no jantar que fui fora ou no almoço que dei cá em casa houve espaço para deslizes. Mas depois há a neve e a imagem do algodão doce…

Tudo isto me fez lembrar a Balada da Neve, um poema de Augusto Gil, que toda a gente sabe como começa mas ninguém sabe como acaba. Fiquem com ele.

Beijos a todas,

Paula

 

Balada da Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

 

Older posts

Copyright © 2017 Senhoras da nossa idade

Theme by Anders NorenUp ↑