Senhoras da nossa idade

Author: Sónia

conta

sonia

Fotografia: Aneta Ivanova

 

conta
minaste-me
a esperança
conta
minaste-me
as ruas
roubaste-me a voz
– menos a voz do sangue
que insiste em saltar sobre os escolhos,
profundo lençol freático de vida
que me prende a pele ao arame como molas –

tapaste o buraco no meu peito
com alcatrão a ferver
e hoje sinto sobre mim
a chaga aberta
das rodas de todos os carros
cheios de corpos
vazios de gente
todas as trajectórias
num atropelo constante
num atrope
lamento
sinto o corpo carbonizado
pela falta
pelo excesso
tenho de limpar do meu corpo uma cidade inteira
com todos os seus cruzamentos e intersecções
todos os seus lugares de estacionamento

todas as pessoas que se entrechocam
nos solavancos das horas
trazem esse teu olhar de estrada
quente e negro
vazio de céu

tenho de arrancar do meu corpo todos esses passos
até ser uma rua inteira e limpa outra vez
ladeada de jacarandás sem memória
que hão-de perfumar-me de anil os dias novos

 

Sónia Oliveira

oh eu vi tudo (sabes que sim)

ty

oh eu vi tudo (sabes que sim)
fui enchendo os nossos corpos transparentes de 50 microns abertos em cima
com o que apanhava
para que não voássemos
porque se voássemos
quem sabe onde estaríamos
debaixo de uma pedra
no fundo do mar
presos numa árvore
e depois?

então tudo o que pesava servia
o que me dizias sem olhar para mim
o que me repetias com a voz perfeita (as falas do teu guião)
e sobretudo o subtexto
(aquela vez em que te vi reparar na minha pele do avesso)

agora que podíamos ser dois seres inteiros
sem nada em que pudéssemos tropeçar
com o caminho livre de fundos falsos
cada um em seu carril paralelo higienicamente juntos sem passado

agora que podíamos ser dois seres inteiros
ficámos para sempre atados aos equívocos
gavetas vazias empurradas à força para dentro do peito palavras escritas no corpo com a ponta da faca
e aquele cheiro tão característico dos comboios parados
aquele perfume de viagens liquefeitas em metal incandescente que se adivinha
nas faúlhas da travagem

no buraco feito no caderno com a parte azul da borracha
o meu sistema de linhas férreas

Sónia Oliveira

Vous ne rêvez pas

reve

tive um sonho tripartido
três acções em simultâneo atrás da película de sono
que me deixaram nas mãos três imagens em cutelo
numa um homem submergia
num mar branco
de esferovite
o rosto decalcado num pano hirto
sujo
um sudário que não afundava
uma jangada sem fundo
presa pelos olhos ao céu
noutra estava perdida
tinha pressa
transpirava
as ruas bifurcavam-se como línguas
as pessoas voltavam-se à minha voz
mas só tinham costas
as pessoas eram casas
na terceira estavas comigo
e dormias
numa cama maior que o quarto
eu não cabia na cama
dormia dentro de ti
tu eras o meu quarto sem cama
eu era uma cama-jangada

Sónia Oliveira

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