Ano_Diluvio

Queridas Senhoras:

1. Ultimamente tem-se falado muito sobre a literatura distópica (e algo profética) de Margaret Atwood. Eu ainda só conhecia a poesia desta escritora canadiana e quando vi que o livro O Ano do Dilúvio se encontrava à venda, em diversas livrarias online, a cinco euros, estranhei, mas aceitei a benesse e fiz a encomenda.

Mal me chegou às mãos percebi que, quando vos escrevesse sobre ele, teria que começar por abordar a frase promocional no topo da capa:

Nada voltará a ser como antes depois de ler este livro

Semântica à parte, a sintaxe é desastrosa. Que vontade de pagar naquilo, parti-lo em bocadinhos, deitar fora o que não presta e deixar uma frase decente no seu lugar! Perguntei-me, como me pergunto sempre diante deste género de argoladas: mas será que não houve uma alminha em toda a Bertrand que reparasse nisto? Hoje percebi que houve, sim.

A frase que eu cito é a que está na capa do meu exemplar, como poderão verificar na imagem que se segue.

atwood

Mas se regressarem ao início deste post e atentarem na primeira imagem, verão que a frase já sofreu actualizações: ‘dantes’ em vez de ‘antes’ e um ponto final no fim. Melhorou assim tanto? Eu acho que não, e os editores da Bertrand online concordam comigo:

bertrand

Está instalado o caos.

2. O livro conta-nos uma história-de-fim-de-mundo pela voz de duas sobreviventes a uma peste negra do séc. XXI. Não há grande consolo no final, como é costume neste género literário. E se a descrição da sociedade pré-catástrofe nos parece coisa de BD ao início, vamos depois percebendo que, afinal, aquela coisa desconfortável e triste não é mais do que uma colagem de retratos do mundo ocidental de hoje só que com as cores mais saturadas. Não está, portanto, assim tão longe.

Um dos muitos movimentos religiosos que surge por oposição à desumanização da vida quotidiana é o dos Jardineiros de Deus, onde se procura redesenhar a matriz católica tendo como novas preocupações o respeito pela natureza e a igualdade entre homens e animais. Os Jardineiros antevêem a chegada do ‘dilúvio seco’ e batalham, clandestinamente, pela construção de uma espécie de ‘arca de Noé’ de boas práticas. É aí que vão parar crentes mas também náufragos da ‘vida lá fora’, que acabam por se adaptar aos rituais e aos ensinamentos do culto à falta de outro sítio a que chamar casa. Como Ren e Toby, as nossas duas protagonistas. O passado de quem ali chega não tem qualquer peso na pessoa que os Jardineiros sabem que ali pode (re)nascer.

Mas nem os Jardineiros de Deus sobrevivem ao fim de tudo: apenas algumas pessoas que, por sorte, estavam isoladas do resto do mundo no momento em que a epidemia explode. Servirão de ‘arca de Noé’? Não sabemos, e a probabilidade de sucesso do pequeno grupo que se reúne por entre os escombros é baixa. Eles são os primeiros a reconhecê-lo.

- Vou considerar esse problema mais tarde – responde a Toby. – Hoje é noite de Festa. – Deita a sopa nas chávenas, depois olha em volta para o círculo à luz do fogo. – E que festa – diz, naquela sua voz de bruxa seca. Ri-se um bocadinho. – Mas ainda não terminámos! Pois não?

3. Agora, sim, a semântica da tão conturbada frase. Pela parte que me toca, está tudo como dantes. As preocupações com os excessos da biotecnologia, com o desrespeito pelo equilíbrio ambiental, com o tenebroso poder do dinheiro sobre todas as outras coisas, já as tinha. E senti que a necessidade de ter piada pode prejudicar algumas das chamadas de atenção que Atwood pretende, com estes seus livros, fazer ao mundo. Mas, como sempre, há uma coisa que nunca se perde nas leituras que faço: a abertura de ligações a outras coisas sobre as quais gostava de vos falar.

3.1. Tenho duas: a primeira é uma embirração muito minha com a publicidade do Alma Shopping (o antigo Dolce Vita de Coimbra). Nem me vou alongar sobre a náusea a que chegam os excessivos trocadilhos com ‘alma’ e ‘coração’, tudo à mistura. Há um cartaz em particular que sou obrigada a ver quase todos os dias. Até agora, não percebia o que queriam os senhores criativos dizer com ele (e fiquei muito menos elucidada quando li que havia ali uma referência qualquer ao D. Dinis):

alma-1

Mas graças a Margaret Atwood, vi a luz: é um cartaz distópico, a anunciar que o futuro profissional das fornadas anuais de estudantes da Universidade de Coimbra está assegurado naquele centro comercial. Bem esgalhado! Para quando o filme?

3.2. E a segunda, muito mais importante, é a recente descoberta do belíssimo e desolado livro de Kristen Radtke, Imagine Wanting Only This.

Sem Título

Tal como Atwood, também Radtke não tem a menor intenção de nos dar respostas. Descubram-na aqui e mergulhem com ela nas suas reflexões. ‘Tudo deixará de ser nosso’ parece-me um excelente ponto de partida para rever rumos. Às vezes basta uma frase. Se for bem escrita, melhor ainda.

Beijinhos,

Marta