ty

oh eu vi tudo (sabes que sim)
fui enchendo os nossos corpos transparentes de 50 microns abertos em cima
com o que apanhava
para que não voássemos
porque se voássemos
quem sabe onde estaríamos
debaixo de uma pedra
no fundo do mar
presos numa árvore
e depois?

então tudo o que pesava servia
o que me dizias sem olhar para mim
o que me repetias com a voz perfeita (as falas do teu guião)
e sobretudo o subtexto
(aquela vez em que te vi reparar na minha pele do avesso)

agora que podíamos ser dois seres inteiros
sem nada em que pudéssemos tropeçar
com o caminho livre de fundos falsos
cada um em seu carril paralelo higienicamente juntos sem passado

agora que podíamos ser dois seres inteiros
ficámos para sempre atados aos equívocos
gavetas vazias empurradas à força para dentro do peito palavras escritas no corpo com a ponta da faca
e aquele cheiro tão característico dos comboios parados
aquele perfume de viagens liquefeitas em metal incandescente que se adivinha
nas faúlhas da travagem

no buraco feito no caderno com a parte azul da borracha
o meu sistema de linhas férreas

Sónia Oliveira