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Queridas Senhoras,

de Meg Wolitzer tinha lido A Mulher sobre o qual escrevi aqui. Os Interessantes, um longo romance sobre um grupo de amigos que se conhece na adolescência durante um campo de férias num Verão em meados dos anos 70, revelou-se a escolha certa para uma semana de pausa, ainda que as perto de 600 páginas tenham chegado ao fim antes do tempo. Isto diz tanto do meu ritmo de leitura em férias (intensivo) como do enredo (vivo e voraz).

Partilhar a vida destes seis amigos ao longo de quatro décadas, sensivelmente entre os 15 e os 50 e poucos anos, é fazer uma viagem pela história recente da América mas também pela nossa própria vida. A pessoa que somos a cada momento incorpora tudo o que já fomos e o que possivelmente viremos a ser. A beleza de crescer e depois envelhecer é contermos em nós todos esses eus praticamente intactos. Gostei muito deste livro hoje, aos 42 anos, mas se calhar teria gostado ainda mais se já tivesse dobrado os 50. Com 20 talvez não pudesse apreciá-lo da mesma maneira.

Quem nos guia nesta história é Julie, uma outsider dos subúrbios que um dia, ao entrar para um campo de férias dirigido a jovens com talento artístico, se descobre Jules em vez de Julie, alguém “esquisito e cáustico” que graças a isso consegue lugar num grupo restrito de miúdos nova-iorquinos dotados, auto-denominados “Os Interessantes”.

A inveja não é um tema lá muito nobre mas é bastante humano. Ou não? Como lidar com o sucesso dos outros quando vamos ficando para trás? Como aprender a reconhecer que não somos suficientemente talentosos, que nos cumpre apenas batalhar dia a dia em vidas mais ou menos anónimas, mais ou menos banais, deixando as grandes conquistas para quem em tempos esteve mesmo ao nosso lado, partilhando um mundo aparentemente igualitário com oportunidades idênticas para todos?

Da exacerbação adolescente à entrada lenta na idade adulta, com a obrigatoriedade de escolher um modo de vida, um meio de sustentação monetário mas também emocional, a definição do que somos ou o afunilamento das opções (já não vai ser atleta, nem astronauta, nem físico nuclear) como se a vida fosse sobretudo o que deixamos de fazer em vez do que fazemos. Aos 30 tudo se afunila ainda mais com a chegada dos filhos (é seguro que por essa altura ninguém se vai tornar um ás no salto à vara) e as posições endurecem para voltarem depois a adquirir flexibilidade com a adaptação às novas circunstâncias.

«Assim que se tinha filhos, cerravam-se fileiras. Não era algo que se planeasse mas acontecia. As famílias eram como nações insulares, individuais, discretas, rodeadas por um fosso. O pequeno grupo de cidadãos no pedaço de rocha reunia-se instintivamente, quase à defesa, e toda a gente que estivesse do lado de fora desses muros – mesmo que outrora tivessem sido melhores amigos – passava a ser apenas isso, forasteiros. As famílias tinham os seus hábitos. Tomava-se nota de como os outros educavam os filhos e, mesmo tratando-se de pessoas que se adorava, tudo parecia errado. A cultura e as práticas da família de cada um eram a única via, para o bem e para o mal. Quem poderia dizer porque uma família decidia adoptar um certo estilo, cantar as suas cantigas, ter as suas piadas, pôr aqueles ímanes específicos na porta do frigorífico?» (pp. 405)

A bela Ash, o portentoso Goodman, o criativo Ethan, o tímido Jonah, a sensual Cathy – e Julie no meio deles, incapaz por enquanto de mexer um músculo, com medo do gesto ou da palavra errada, mas prestes a tornar-se Jules e a descobrir um talento.

Inveja e talento parecem não prometer grande coisa como tema de romance, sobretudo daquele género que se reclama “o romance de uma geração”. E, no entanto, está lá tudo.

Beijinhos a todas,

Céu