marai

Estava parado diante da montra da livraria e contemplava os livros desconsolado. Havia um qualquer segredo por detrás dos livros, não era tanto o que diziam, antes a razão de alguém ter escrito aquelas linhas. Sobre isso, não tinha com quem falar.

- Sándor Márai, Rebeldes -

Queridas Senhoras,

regressar a Sándor Márai é um descanso. Acabo de ler A conversa de Bolzano e vou aproveitar para falar também sobre outro livro seu, Rebeldes, que devo ter lido há cerca de um ano e sobre o qual não cheguei a escrever-vos.

E perguntam vocês: porquê um descanso? Não é propriamente uma leitura ligeira – a linguagem é ardilosamente trabalhada; as personagens são complexas e algo obscuras; o enredo, ainda que não seja necessariamente tortuoso, nunca vai dar a um lugar previsível. Não, o descanso não advém da facilidade, mas sim da lealdade. Márai é leal como um cão aos seus leitores e nunca os desilude. Algumas obras são melhores do que outras, evidentemente (nada nunca superará As Velas Ardem Até ao Fim), mas há um nível abaixo do qual a fasquia nunca desce. E isso, queridas Senhoras, é um descanso.

Tanto Rebeldes como A conversa de Bolzano se debruçam sobre os bastidores da vida. O que é que está para lá daquilo que é dado a ver?

Saber que tinham um esconderijo próprio e, na medida do possível, isolado, um lugar onde podiam fazer o que bem entendessem, um quarto que podiam fechar à chave, tudo isso, a pouco e pouco, embriagou até os mais lúcidos. Passavam tardes no buraco malcheiroso, junto da salamandra que transpirava, no meio da fumarada infernal de tabaco, a discutir, a construir e a lapidar os jogos mais inacreditáveis. Esse foi o tempo das brincadeiras a sério. Essa foi a segunda infância, mais consciente da culpa, mas sem limites, mais excitante e mais doce.

- Sándor Márai, Rebeldes -

Nos finais da I Guerra Mundial, um grupo de adolescentes arrasta-se pela pequena cidade húngara onde vive. Os pais estão ausentes a combater, as mães fazem milagres para manter de pé as paredes do lar e os miúdos odeiam os pais que foram, as mães que ficaram e todos os adultos em geral. O mundo tal como lhes é dado a ver não lhes serve.

São rebeldes preguiçosos, no entanto; ou, no mínimo, egocêntricos. Porque odeiam o mundo que os espera uns anos lá à frente mas não sentem o mínimo ímpeto de procurar mudá-lo. Procuram apenas algum sentido para os seus dias. É então que o peculiar bando cai nas boas graças de um velho actor, um bon vivant sem grandes filtros morais, que lhes ilumina o caminho até aos bastidores da vida, precisamente. E que lhes faz acreditar que eles podem tudo, desde que não sejam apanhados.

É assim que o bando sobrevive ao tédio e à revolta: através da criminalidade. É bom de ver que isto não tem um final feliz; mas aquela segunda infância há-de ter valido bem a pena.

Meditando, encaminharam-se para a cidade, onde devia haver muitos bandos como o deles, e muitos depósitos como o do Furcsa. E, por toda a parte, por esse mundo fora, viviam nas cidades dos adultos, entre casernas, entre igrejas, esses pequenos bandos de ladrões, milhões e milhões de ladrões. Com depósitos e leis próprias, e todos sob a égide de um qualquer e estranho imperativo, o imperativo da rebeldia. E sentiam que não seriam membros desse mundo à parte por muito mais tempo, e talvez, um dia, também eles fossem inimigos aos olhos de uma criança. Havia nisso algo de doloroso e inevitável. Baixaram a cabeça.

- Sándor Márai, Rebeldes -

Em A conversa de Bolzano, Sándor Márai pega no histórico e rocambolesco episódio da fuga de Casanova da prisão, em 1756, para nos abrir, em tom operático, as portas dos bastidores da vida deste aventureiro inveterado. Tudo na vida de Giacomo Casanova era uma aposta, uma questão de probabilidades – e não raro num dia perdia tudo, para ganhar tudo em dobro no dia seguinte. Chegado a Bolzano, imediatamente impregna a atmosfera da sua presença (ainda que raramente seja avistado). Reconstrói-se (sempre nos bastidores), pede dinheiro aqui para jogá-lo ali, compra fiado e, de repente, o evadido esfarrapado é de novo um cidadão da mais inquestionável elegância, pronto para colher corações e patrocínios.

Porque para ele a coisa mais bela da vida, fosse em que parte fosse do mundo, eram os preparativos da festa, o prelúdio, esse vaivém de movimentos carregado do pressentimento solene do inesperado e do imprevisível.

- Sándor Márai, A conversa de Bolzano -

Bolzano não é o destino final deste D. Quixote sofisticado, a quem não falta um Sancho Pança a condizer, o abade Balbi. É apenas uma paragem estratégica, por razões de logística, certamente… mas não será coincidência ser essa a morada de Francesca, provavelmente a única mulher que Casanova amou verdadeiramente, por quem há anos se bateu num duelo com o conde de Parma – e perdeu.

Deveria matar-te? Seria um erro enorme. Uma vez morto, o homem amado torna-se um rival temível.

- Sándor Márai, A conversa de Bolzano -

O homem que venceu o duelo e casou com a pretendida intercepta uma carta desta para Giacomo e decide pôr um ponto final no assunto. Oferece dinheiro e regalias a Casanova para que este ponha de pé uma farsa de uma noite que garanta a ‘cura’ de Francesca e o descanso do seu sobressaltado marido.

Passamos da página 200 a acreditar que, assim conluiados, os dois homens se preparam para escrever o futuro daquela mulher, tendo apenas em conta os seus próprios interesses.

E, no entanto, as últimas quarenta páginas são, afinal, escritas no feminino.

Estás a ouvir-me, Giacomo? Amo-te. Não são palavras que eu possa murmurar. Interpelo-te, como um juiz, estás a ouvir-me? Amo-te, logo julgo-te. Amo-te, logo exijo que sejas corajoso. Amo-te, logo recrio-te, arrasto-te comigo, e ainda que fosses tão forte como uma estrela presa ao raio de diamante de uma órbita celeste, levar-te-ia comigo, arrancar-te-ia ao universo, à tua lei e ao teu género, como tu dizes, porque te amo. Não é uma prece, Giacomo, isto, é uma acusação, sim, uma acusação capital.

- Sándor Márai, A conversa de Bolzano -

Viva a liberdade!

Beijinhos,

Marta