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Queridas Senhoras,

li o meu primeiro Modiano, Um circo que passa. Sensação estranha. O livro é extremamente breve, elíptico. Um rapaz conhece uma rapariga em Paris. Vão a sítios. Conhecem pessoas. Trocam algumas palavras. No final, não sabemos muito mais do que isto.

Por contraste com tudo o que não é dito, há uma quase obsessão em referir os nomes dos lugares. As ruas, as praças, as estações, as pontes, os hotéis, os cafés de Paris são identificados a todo o momento. As personagens movem-se como num mapa. Combinam encontros no café tal, passam por esta e por aquela rua, atravessam os jardins, vêm luzes nas janelas dos prédios número tal e tal da rua tal. As personagens movimentam-se com leveza, como se não estivessem presas a nada. Será a referência constante aos lugares uma forma de permanecer, de criar memórias?

De vez em quando o passado intromete-se nestas deambulações pela cidade. É quase sempre domingo e o rapaz, tão novo ainda, recorda outros domingos. Coisas que aconteceram apenas há três anos parecem pertencer a um passado remoto. Os pais primam pela ausência, o rapaz vive sem coordenadas, não fora o mapa de Paris.

Ao mesmo tempo, às vezes caminha como se “estivesse já numa cidade estrangeira”. Os “farrapos” da sua vida anterior vão-se desprendendo de si. Há um plano de partir para Roma, começar outra vida. A primeira preocupação é arranjar um mapa da cidade. Saber os nomes das ruas e dos bairros.

A brevidade e a leveza da história convivem com uma imensa melancolia. Sopra sempre uma brisa cinzenta mesmo quando o céu está azul. O céu está muitas vezes azul mas a Primavera parece distante, uma impossibilidade. Há o sonho de caminhar na Primavera pelas ruas arborizadas de uma cidade real ou imaginária. Paris, Roma ou onde quer que possamos fazer uma cruz no mapa e encontrar o nosso lugar.

Beijinhos a todas,

Céu