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«Para onde vai a dor?» Joel Neto, O Arquipélago

Querido Joel (as Senhoras que me desculpem, mas isto é uma carta aberta),

li o teu Arquipélago em fins de Maio, inícios de Junho. De uma ponta à outra, roubando horas à estafa da mudança de casa, ao sono, à dor.

«No primeiro dia do ano de mil novecentos e oitenta, desabara afinal mais do que o véu que cobria a miséria de cada casa. Em vinte segundos apenas, desabara tudo o que aqueles homens e aquelas mulheres haviam construído durante séculos. Desabara a intimidade, mais do que o segredo. (…) E ele sem sentir a terra que tremia.» Joel Neto, O Arquipélago.

Mudar de casa foi duro, física e emocionalmente. Deixa-me fazer aqui uma pausa para uma citação que não tua (desculpa, Joel, eu sou intrinsecamente incapaz de pensar sem citar, se existe alguma coisa que possa impedir-me de escrever ficção é, seguramente, esta imposição constante dos arquivos da memória e da curiosidade):

«Soneto para construir janelas

Erguer, antes de tudo, uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.» Gregorio Duvivier

Dizia que foi duro. Foi. Sobretudo, nesta parte de construir um mundo e emoldurá-lo. Mas fi-lo, dos dois lados da parede, «E a terra que tremia ainda nos olhos das pessoas, sem que José Artur pudesse senti-la.» (esta também é tua, Joel)

Há uma frase habitualmente atribuída ao escritor C.S. Lewis, mas que, na verdade, foi o pai de um aluno dele que disse, que sustenta que nós lemos para sabermos que não estamos sozinhos. Eu soube que não estava sozinha ao ler o teu livro durante uma fase tremendamente solitária da minha vida.

«O que sustenta um interior não é somente a compressão de vigas e argamassa. O ar expirado, as brasas na lareira, a pele ruborizada, ou pela cólera ou pela indecência, humores e gases, tudo aquece e dá conforto às coisas construídas. Por isso é que, no extremo da ruína, ainda o tecto alberga a sua gente, curvado e carcomido, como as mãos de um velho a defender a descendência, conforme pode, até cair também.» Hélia Correia, Lillias Fraser.

Hoje tenho uma nova vida emoldurada nas janelas da minha nova casa e, embora continue sem conseguir ouvir o som da destruição, isso já não é demasiado importante, uma vez que creio ter aprendido tudo o que havia para aprender com este terramoto. As leituras, os risos, os copos de vinho, as manhãs estremunhadas e as tarefas domésticas aquecem e dão conforto a esta coisa nova que construí, não inteiramente sozinha, mas com a ajuda, sobretudo, do Francisco, que aos cinco anos de idade já é uma das minhas principais fontes de inspiração e consolo; também dos amigos, os que estão perto, os que estão longe mas, oh, tão perto; e dos livros, que me ajudam a lembrar-me de quem eu sou.

Eu sou um arquipélago em constante mutação, mesmo que nem sempre consiga ouvir os terramotos e as erupções que me transformam. Não o seremos todos?

Obrigada, Joel.

Um beijo,
Marta

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