Dez a zero

por , em 19/3/17

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Queridas Senhoras,

apareceu aí há duas semanas nas revistas o brasileiro Marcos Piangers, papai de duas garotas que se tornou uma espécie de guru da paternidade, mas muito descontraído, sem aquela chatice dos blogues de mamãs, tudo muito cool e top. O inevitável livro que o moço escreveu chama-se mesmo O Pai é top. Fui na conversa e achei que era uma prenda gira para a Alice e o João darem ao papá. Não me interpretem mal, admiro casos de gente que escreve histórias reais, emocionais, ainda que cheias de lugares-comuns e verdades evidentes, e que se torna um sucesso no mundo dos blogues, das redes, e depois passa tudo para um livro que é top. Top de vendas.

Nada contra, Marcão!, adorei ler seus textos. Pena que não levei mais que duas horas mas ainda deu para rir e para chegar a lagriminha ao canto do olho. Acho que o papai Zé também vai achar graça, sim, embora ele, mesmo sem blogue e sem livros com capas muito fixes, dê dez a zero em você nisso de ser um papai top. Ah e ele não obriga ninguém a comer quinoa, tá? Esquece tofu, seitan, lentilhas e troca por muito gelado e chocolate. De leite mesmo, nada de chocolate moderninho com elevada percentagem de cacau puro.

Mas você conseguiu arrancar gargalhada nesse aqui, quando fala da diferença entre os pais de ontem e de hoje:

«Me lembro de brincar na casa do meu amigo Gustavo. O pai do Gustavo era um pai típico da época: barriga grande, dedos grossos na mão e pouca paciência para brincadeiras. Ele entrava em casa, estávamos jogando Atari, dava um beijo no filho e desaparecia. A partir dali precisávamos abaixar o volume da TV e das conversas, ou a mãe do Gustavo vinha gritando: “Silêncio! Teu pai tá em casa! Teu pai tá cansado!”. Ser pai naquela época era como ser um mafioso. As pessoas te respeitavam.»
Máfia no divã, pp. 68

Este é um livro de auto-ajuda também. Com aqueles lugares-comuns tão comuns que devíamos repeti-los todos os dias ao acordar, como um mantra.

«Nunca ouvi falar de um homem que, quase morrendo, ao avaliar seu passado, tenha se arrependido por ter trabalhado pouco. “Deveria ter preenchido mais relatórios”. “Deveria ter participado de mais reuniões”. “Que arrependimento por não ter virado mais noites no escritório”. Soa impossível. Os principais arrependimentos da vida são sobre não ter valorizado as pessoas mais importantes. “Deveria ter passado mais tempo com as pessoas que eu amo”; “deveria ter dado menos valor para o dinheiro”; “deveria ter sido mais presente”; “não deveria ter me preocupado com a opinião dos outros”.

As pessoas dizem que a vida é curta, mas me parece que a vida é longa. Pessoas recomeçam todos os dias. Recomeçam relacionamentos, recomeçam carreiras profissionais. Descobri, pela internet, que até meu pai biológico tem uma família linda. É um pai participativo agora. Nunca lhe disse isso, mas fico feliz. Fico feliz que a vida seja longa o suficiente pra que essas coisas aconteçam. A vida é longa e cheia de oportunidades pra você ser uma pessoa melhor. Todos os dias algo esbarra na sua cadeira de praia e te diz que você pode ser uma pessoa melhor.»
A vida é longa, pp. 52

Valeu, Marcão.

Beijinhos a todas,

Céu

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Rissóis e trigonometria

por , em 19/2/17

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A cantilena do Teorema de Pitágoras – a mais persistente memória que restou das matemáticas escolares

 

Só então se deu conta de como eram escassas as competências que tinha adquirido na Universidade. Não havia vagas para bacharéis em estudos religiosos.
O Enredo Conjugal, Jeffrey Eugenides (pp.185) 

Queridas Senhoras,

de vez em quando, o MEC saca uma daquelas crónicas em que se resolve a partilhar com os leitores um segredo gastronómico bombástico, revelando onde se come o melhor pão, frango assado, rissol ou chamuça. Faz o elogio babado da cozinheira ou do cozinheiro, rende-lhe a devida e sentida homenagem e fica a rezar, pedindo que rezemos com ele, para que aquele bem sempre dure.

Sou muito sensível a estes textos, tenho um respeito imenso e reverencial por quem amassa e coze um pão magnífico ou faz uma fornada de rissóis de ir às lágrimas. É aquela admiração de quem é incapaz de fazer seja o que for com as mãos, o espanto perante o poder da criação, seja de comida, objectos ou arte. E também o poder de resolver problemas concretos, reparar máquinas, encontrar soluções.

Não sei fazer rissóis nem chamuças, não sei arranjar a máquina de lavar ou o esquentador, torradeiras são um mistério, montar móveis não contem comigo, carros desconheço em absoluto todo o seu funcionamento. Felizmente, o meu filho ensinou-me a usar o comando da TV. Não tenho receio de trabalho braçal, chamem-me para mudanças, subo e desço escadas, carrego caixas sem queixume. Tenho bom corpinho. Mas as mãozinhas são manápulas. Tudo o que exija técnica ou perícia é uma desgraça.

O mesmo se passa em relação a problemas matemáticos. A minha filha está no 6º ano e já não consigo acompanhar o que ela anda a estudar. Basicamente, tenho 42 anos e o que sei fazer é ler e escrever. A Alice veio mostrar-me o teste de Português e eu deliciada. Era sobre um excerto do Ulisses, obra que lemos há uns tempos cá em casa, e a sequência de perguntas e respostas causou-me verdadeiro prazer. Pensa, analisa, compara, sugere, caracteriza, reflecte, imagina, supõe. Que maravilha. De repente, tive inveja das belas aulas e matérias de Português e Filosofia que ela tem pela frente. Elabora, considera, esboça, denota, resume, explicita, define, explana, contrapõe, argumenta, discute.

Depois, a Alice perguntou se eu queria ver o teste de Matemática. E aí tive pena que o meu olhar já não consiga abarcar a beleza de uma equação, da decomposição de um número num produto de factores primos ou do apótema do pentágono.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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A curgete já era

por , em 5/2/17

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Queridas Senhoras,

costumam fazer sopa ao domingo? E vão pôr curgete? Cuidado com isso. MEC, o mestre, em mais uma das suas preciosas lições de alimentação (qual quê? lições de vida!) alerta para a falácia das curgetes que tornam as sopas supostamente dietéticas.

Ah! as nossas manias, as curgetes, as lentilhas, o tomate-cereja, o manjericão. O orgânico, o vegan, o biológico, o slow-food, os super-alimentos e 3000 artigos sobre o que comer. Só os do último mês. Orgânica é a minha tia! Sim, a minha tia Odete, em cuja cozinha comi as melhores sopas da minha vida e só de pensar nesse sabor dá-me vontade de chorar.

Confio no MEC e na tia Odete e não devia, aliás, confiar em mais ninguém nem ler absolutamente mais nada sobre alimentação. Pena que o MEC não possa provar uma das sopas da tia Odete ou então uma daquelas massas com frango temperadas com ervas do campo, a coisa mais simples, bela e verdadeira do mundo. Comer um prato desses depois de um banho no rio Mondego, pelos idos de Agosto, desfaz quaisquer dúvidas existenciais sobre quem somos e o que andamos cá a fazer.

Não tem explicação o sabor da comida feita pela tia Odete, com ingredientes da sua horta, a sabedoria de décadas, o amor pela terra, por Deus, pela vida. Se porventura o MEC pudesse provar um dos seus cozinhados, havia de escrever uma crónica tão bela e tão boa, que só de ler conseguiríamos sentir todos os cheiros da aldeia, fumegando numa panela velha e gasta através dos tempos.

Beijinhos a todas,

Céu

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Sete anos

por , em 17/1/17

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Um poema do recém descoberto Yehuda Amichai que diz tudo o que eu não seria capaz de dizer sobre o facto de o meu filho fazer hoje 7 anos.
Um maravilhoso míssil lançado às gerações futuras. O meu legado.

Beijinhos,

Marta

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Os filhos dos outros

por , em 31/12/16

 

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Queridas Senhoras,

o final do ano é tempo de balanços e expressão de desejos. Muitos estarão neste momento a ponderar casar ou não casar, ter ou não o primeiro filho, o segundo ou até, loucura!, “ir ao terceiro”. Outros estarão a fazer outros tipos de planos. Grandes viagens, mudanças de emprego, de vida, de paradigma.

São decisões complexas e pessoais. E os exemplos dos outros não servem. Não se pode reduzir tudo ao argumento de que as pessoas agora não têm filhos, ou têm menos, porque são egoístas. A vida é melhor com ou sem filhos? É uma questão que não faz sentido. Para quem os têm é melhor, pois claro, não concebemos a vida sem eles. Mas não vamos andar por aí a doutrinar os outros para os terem. Ou para ter o segundo. Ou para “ir ao terceiro.” É verdade que fico embevecida com as moças da minha idade que “vão ao terceiro”. Mas fico ainda mais embevecida com a liberdade recém-conquistada, agora que já tenho os meus dois crescidinhos. E não é a liberdade “para ir a Nova Iorque visitar amigos”. É a liberdade para tirar duas horas e ir ao cinema ver um filme de adultos. “Ah, mas isso podes sempre fazer”. Posso. Podemos sempre tudo. Mas não fazemos tudo. É impossível. Fazemos escolhas. E com filhos é sobretudo isso que fazemos. Escolhas permanentes sobre como gastamos recursos finitos como tempo, atenção, dinheiro. Quem nos quer vender que é possível ter o casamento perfeito, filhos, carreira, amigos, vida social, viagens, está a mangar connosco.

A decisão de ter ou não filhos é uma questão que se coloca ali entre os vinte e muitos e os quarenta e poucos. Ou na realidade, entre os 30 e os 40. É pouco tempo! É preciso ter uma relação estável, um trabalho idem, vontade de embarcar nessa aventura, alguma disponibilidade financeira. Antes era tudo mais simples, a maioria das pessoas limitava-se a seguir o modelo predominante. Hoje já não é assim, há vias alternativas embora as mulheres continuem a ser olhadas com mais estranheza. O quê, mas tu não queres ter filhos? Nelas, a pressão é maior e a limitação temporal mais preemente.

A pressão social e cultural ainda se faz sentir mas há cada vez maior liberdade de escolha, autonomia e confiança para procurar o que realmente se deseja, que tipo de vida queremos construir independentemente do que os outros acham que é o caminho correcto a seguir. Para as mulheres é mais difícil, repito. Ser independente. Não viver em função de marido e filhos. Ou eventualmente ter filhos sem um homem. Ou procurar outras fontes de satisfação emocional. As viagens, sim, qual é o problema? E todas as outras relações que se estabelecem, com sobrinhos, com filhos de amigos, com outras crianças.

Todos devem poder decidir em inteira liberdade o modo como conduzem as suas vidas. Diz-se que é preciso coragem para ter filhos. Mas é uma fórmula testada, por assim dizer. Casar, ter filhos, é o modelo vigente. Não será preciso ainda mais coragem para procurar modelos alternativos, numa sociedade que ainda olha com estranheza quem foge à norma?

Feliz Ano Novo!

Beijinhos a todas,

Céu

 

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A poltrona vermelha

por , em 23/12/16

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Queridas Senhoras,

aqui há uns anos, a Alice escreveu uma composição na escola em que dizia qualquer coisa como: “Passo o Natal em casa dos meus avós. Lá, sento-me numa poltrona vermelha e na hora de distribuir as prendas, vou dizendo os nomes das pessoas e entrego a cada uma o seu presente. Normalmente, o meu irmão chateia-me e mete-se no que estou a fazer.”

Desde então, a poltrona vermelha representa, entre nós, a ânsia e a alegria do Natal. A Alice não fica esfuziante com muita coisa mas com o Natal, sim. E desconfio que não é só por causa das prendas. É por causa da poltrona vermelha. Se daqui a muitos anos restar apenas essa memória dos natais passados, será uma belíssima recordação.

Uma casa com uma poltrona vermelha (ou um sótão, uma arca de madeira, um armário secreto, um quintal, uma despensa recheada com muitas prateleiras…) dura a vida inteira. Há-de vir um Natal (e será o primeiro) em que a poltrona vermelha será evocada por alguém, a única pessoa que a recorda, e outros pedirão para ouvir a história. Que poltrona era essa?

No outro dia fomos à procura da poltrona vermelha. Mas não encontrámos nada que correspondesse à descrição da Alice. Há um banco, daqueles baixos e largos, que é realmente em tons de vermelho. Há um cadeirão de braços mas não é dessa cor. Suponho que a poltrona vermelha seja uma criação da Alice. Ou minha, quando li a composição dela. A poltrona representa uma tradição que ela instituiu. É um ritual e não há nada que nos ligue tanto como os rituais que praticamos juntos, como uma oração. Como ler uma história todas as noites ou comer torradas de manhã. Os rituais são a cola que nos une uns aos outros, que se pega mesmo quando estamos tristes ou zangados.

Há os rituais simples, quotidianos, como as histórias e as torradas. E depois há rituais tão solenes e sumptuosos como uma poltrona vermelha debruada a ouro.

Boas Festas!

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′