Senhoras da nossa idade

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O que faz o teu género?

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Queridas Senhoras,

para quem se interessa pelas questões de género e identidade, Middlesex é um verdadeiro pitéu. Para nós, Senhoras, picuinhas como somos, sempre a chatear com a história do feminismo, é um romance essencial. Andamos sempre à roda do mesmo e estamos ainda piores desde que nos infiltrámos na Capazes, mas que querem? Já se sabe que as mulheres são chatas e insistentes.

Ainda este fim de semana, porque não temos mais que fazer (e tanta roupa para lavar, tanto chão para aspirar!), resolvemos implicar com a Control que fez um post pobrezinho, com uns bonecos numa posição sexual conotada com a submissão da mulher e com um copy confrangedor a fazer referência ao “poder total do homem sobre a mulher.” Ora isto não choca em ofende. Só entristece. Porque é pobre, fraco e mau. Ponto final.

Só para dar mais um exemplo antes de voltar ao livro: a Fernanda Câncio assina uma reportagem no DN de ontem intitulada O último tabu. De que se trata? Mulheres que namoram com homens novos! Mas isto ainda é assunto? É sim, senhora. Entre vários testemunhos interessantes, destaco o de uma mulher que afirma que os homens da idade dela não lhe servem porque são precocemente envelhecidos, não se cuidam, são desinteressantes. Será que chegámos ao ponto em que os homens também descobrem como é difícil trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, de si próprios, dar atenção às relações afectivas, sentir as marcas do envelhecimento e o declínio do poder sexual? Já chegámos ao inverso do cliché do marido que troca a mulher por uma mais nova? Consta que sim, há casos documentados. O tema deixará de ser assunto quando olharmos para um caso e outro exactamente da mesma forma.

«O sexo é biológico, o género é cultural». Calliope nasce como rapariga na Detroit dos anos 60. Mas há muito para ler antes de chegar a esse ponto e Middlesex é também o relato de uma grande saga familiar de imigrantes gregos que vêm para a América, fugidos da guerra, onde tentarão construir a sua vida, tornar-se americanos sem nunca perder a ligação às origens. Do ponto de vista da saga familiar é um grande livro

A partir do nascimento de Calliope, é também uma história de crescimento, adolescência e formação. E continua a ser um grande livro. É no limiar da adolescência que Calliope começa a perceber que há qualquer coisa que não está bem. Tendo sido criada como rapariga, ela tem comportamentos e reacções de rapariga. Mas outras sensações começam a despontar. À sua volta as colegas vão-se transformando em mulheres. Regressam das férias com mamas que não estavam lá antes. As ancas arredondam-se, o corpo prepara-se para o que aí vem.

E o corpo de Calliope? É um mistério que ela terá de aprender a conhecer, a reconhecer nas suas especificidades, na sua quase absoluta raridade. Uma busca dolorosa, intensa, transformadora, que a levará a assumir uma nova identidade. Não mulher, não homem mas um género intermédio, um terceiro sexo. Uma evolução da espécie ou um regresso à origem, quando o género ainda não existe, ainda não sofreu condicionamentos culturais de qualquer tipo.

Beijinhos a todas,

Céu

Ser homem

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Queridas Senhoras,

no momento em que escrevo, este texto da Rita Marrafa de Carvalho vai em 1815 partilhas. O meu querido marido diz que ando muito feminista, que é um exagero, que ninguém me atura. Respondo-lhe que é preciso ser feminista todos os dias, falar continuamente destas questões. É um facto que comecei a dar mais atenção ao tema desde que me liguei às Capazes, o que me fez ter mais acesso e procurar outras fontes de informação que abordam temas feministas.

Até bastante tarde, não me recordo de pensar muito sobre estas questões. Certamente achava que era um assunto distante, que não tinha muito a ver com a minha vida. Pegando no texto da RMF, até aos 20 e tal anos as exigências não são muitas. Imaginemos um casal, em que ambos são sensatos e razoáveis, sem extremismos de espécie nenhuma. É relativamente fácil organizar uma vida em comum, dividir tarefas, gerir crises. É depois de chegarem os filhos que tudo se complica. As crianças exigem jantar na mesa, roupa lavada, horários certos, atenção, regras e uma vida organizada. Se antes dos filhos a divisão de tarefas pode ser motivo de piada e brincadeira, depois passa a ser “a” questão.

Enquanto corria esta manhã, comecei a pensar no texto da RMC e o que me ocorreu foi, tentando ver o outro lado, será que os homens não estão cada vez mais sujeitos ao mesmo tipo de exigências? Não se espera deles que sejam tudo e mais um par de botas?

Vejamos. Hoje espera-se que os homens sejam pais em pleno, desde o primeiro momento. Não só para mimos e brincadeiras mas para a dureza das noites em claro, das cólicas, das primeiras papas, dos vomitados, das doenças e todo esse mundo pouco encantado dos primeiros anos de vida. Isto é esperado, desejado e aceite. Mas quantos homens jovens, na casa dos 30, receiam usufruir de todas as licenças a que têm direito sob pena de serem olhados de lado pelo chefe e pelos colegas ou serem preteridos na sua evolução profissional? É como se fosse esperado que eles sejam bons pais, envolvidos, mas não demasiado.

Espera-se, naturalmente, que os homens saibam fazer tudo em casa, especialmente cozinhar, sobretudo cozinhar, até porque isso é tremendamente sexy e é claro que se espera que os homens sejam sexy. Bonitos, atléticos, cuidados. Mas não demasiado, não como aqueles maluquinhos do ginásio. Devem ser óptimos em tudo mas como se não se preocupassem muito com isso, como se fosse tudo um dom natural.

Se trabalham demais, são workaholics. Se não investem na carreira são pouco ambiciosos. Se estão com a mesma mulher há 20 anos são uns monogâmicos chatos. Se são solteiros e namoradeiros, são uns doidivanas que nunca mais assentam. Se não se cuidam, são desleixados. Mas em excesso são vaidosos. Se se dedicam muito à família são caseiros e paus-mandados. Se só querem borga com os amigos, são uns estroinas. Ser o Phil Dunphy ou o Hank Moody? Desde que sejam divertidos e românticos, mas não demasiado se não enjoa.

Isto não está fácil. Tanto as mulheres como os homens estão sujeitos a múltiplas exigências e julgamentos. Antes os homens só tinham que trabalhar e providenciar o sustento da família. As mulheres organizavam a vida familiar e doméstica. Hoje todos fazem tudo, o que é excelente. Mas como não se pode ser bom em tudo, andamos aflitos e às turras uns com os outros.

Desde que entrei para o Senhoras e, mais tarde, para as Capazes estou mais atenta a todas estas questões que afinal não são exclusivamente feministas. Dizem respeito à maneira como vivemos, como organizamos as nossas vidas familiares, como educamos as nossas crianças e como podemos ser mais felizes.

Beijinhos a todas,

Céu

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