Lenha para a fogueira

por , em 15/9/16

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Queridas Senhoras,

hoje passámos a manhã na ‘Escola Primária’ (é engraçado como a expressão se recusa a desaparecer). Foi o primeiro dia de aulas do Francisco, que continua a ver o seu Jardim de Infância através das grades, mas que agora sente outro tipo de responsabilidade. Não sei onde é que ele foi buscar as preocupações que tem manifestado nos últimos tempos.

- E se tiver má nota?

- E se eu não tiver espaço na cabeça para tudo?

- E se os outros miúdos gozarem comigo por eu ser pequenino?

- Se eu tiver má nota no primeiro dia a culpa não é minha, pois não, ainda não tive tempo para aprender…

Aos poucos, tenho tentado desconstruir estes monstros assustadores, relativizando e simplificando, mas sempre desejosa de que comece o raio da escola de uma vez por todas, porque tenho a certeza de que mal ele perceba o que é que ali se vai passar vai relaxar. Não sei de onde vêm estas assombrações – sei que não nasceram nem em minha casa nem em casa do pai, isso é certo. São coisas que ele ouve por aí. Felizmente, fala delas connosco. Espero que seja sempre assim.

Mas cá entre nós, enquanto eu o tento tranquilizar, confesso que lido com os meus próprios monstros. A minha ‘primária’ correspondeu a um período muito conturbado da minha infância e, provavelmente por isso, tenho muito poucas memórias claras desse tempo, meia-dúzia de pormenores, apenas. Por isso, cá entre nós, confesso que deposito alguma esperança redentora no que aí vem. Que eu possa restaurar um pouco a minha infância através do Francisco. Será pedir demais? Provavelmente.

Para ele, desejo muita amizade e muita curiosidade. E a coisa dá-se.

Abraço a todas,

Marta

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- Imagem de Raquel Devillé

Queridas Senhoras,

não sei se conhecem o trabalho da Raquel Devillé, Dessine-moi un doudou. A Raquel faz (e ensina a fazer) doudous, a palavra francesa para os miminhos sem os quais os miúdos se recusam a adormecer (no caso do Francisco, é uma fralda de pano e chamamos-lhe ó ó), a partir dos desenhos deles. De repente, os riscos e rabiscos ganham tridimensionalidade (o mesmo é dizer que, aos olhos dos miúdos, ganham vida).

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- Imagem de Raquel Devillé

A Raquel faz muitas outras coisas, como, por exemplo, transformar e ajudar a transformar blogues pessoais em sites profissionais. Sobre isso, lê-se aqui, no The Idle Housewife (um nome genial).

Mas hoje quero falar-vos dos doudous e de uma iniciativa muito gira, para a qual eu fui convidada a participar. No final da linha está a publicação de um livro que ensina a operar esta magia em casa. Por agora, está aberto um concurso de desenho para seleccionar três vencedores (que ganharão o respectivo doudou e um dos ditos livros).

Podem concorrer até dia 28 de Fevereiro. E, se não tiverem a sorte de ganhar, poderão sempre comprar um livro, na altura da sua publicação, e, quem sabe, encontrar por lá o desenho com que os vossos miúdos concorreram.

O regulamento está aqui. Vamos a isto? Que ganhem os melhores…

Beijinhos,

Marta

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São rosas

por , em 19/5/13

Queridas Senhoras,

hoje publicámos um guest post no SBaby que eu não posso deixar de recomendar-vos. São todos uma delícia (e já lá recebemos a nossa Céu) mas este aplica-se que nem uma luva aos, digamos, interesses actualmente manifestados pelo Francisco.

Ora vão lá ler e depois voltem para aqui para continuarmos a nossa conversa.

Foto: www.raqueldeville.com

 

São uma perdição, estes Doudous, não são?

O Francisco adora desenhar e pintar e recortar e colar e, enfim, manutrabalhar. Eu adoro tudo o que ele faz, claro, os monstros desenhados a giz com braços a sair das orelhas e pernas a sair do queixo (mas também o pai e a mãe são desenhados com essas características), as colagens de bocadinhos coloridos de papel meticulosamente recortados, os desenhos de personagens de desenhos animados impressos e coloridos com cuidado-alternado-com-euforia.

Mas esta última onda, a do finger painting, deixa-me completamente derretida.

São rosas, Senhoras!

Bom domingo a todas. Beijinhos.

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Reading allowed

por , em 26/2/13

Queridas Senhoras-que-lêem,

mesmo quando estou muito tempo sem aqui vir, não há dia que não junte qualquer coisinha à pasta de ‘publicáveis’. Depois, quando vou rever as escolhas, é comum encontrar ideias que se complementam – e, ah, co’a breca, como eu gosto disso!

O poeta norte-americano Strickland Gillian escreveu um poema que me vem à memória sempre penso naquelas coisas em que só os pais pensam, como ‘será que vou conseguir ajudá-lo a querer saber, a querer conhecer, será que vou conseguir transmitir-lhe a curiosidade e a capacidade de espanto que, para mim, estão na base da felicidade?’

Vem-me à memória o primeiro verso, claro, não sei o poema de cor. Mas gostava que o Francisco me recordasse (daqui a 100 anos) assim:

I had a Mother who read to me
Sagas of pirates who scoured the sea,
Cutlasses clenched in their yellow teeth,
“Blackbirds” stowed in the hold beneath
I had a Mother who read me lays
Of ancient and gallant and golden days;
Stories of Marmion and Ivanhoe,
Which every boy has a right to know.
I had a Mother who read me tales
Of Gelert the hound of the hills of Wales,
True to his trust till his tragic death,
Faithfulness blent with his final breath.
I had a Mother who read me the things
That wholesome life to the boy heart brings-
Stories that stir with an upward touch,
Oh, that each mother of boys were such!
You may have tangible wealth untold;
Caskets of jewels and coffers of gold.
Richer than I you can never be-
I had a Mother who read to me.
Strickland Gillian

A condizer, quatro quadros. Os primeiros três escolhi-os de entre um especial de pintura publicado no Berfrois sobre Ladies who Read; o quarto tomei a liberdade de acrescentá-lo (não posso crer que tenham deixado ‘o Hopper’ de fora. Céu, tens que ensinar estes senhores a fazer ‘especiais’).

A Reader of Novels, Vincent van Gogh, 1888
Girl Reading, Harold Knight, 1932
Girl With a Book, Aleksandr Deyneka, 1934
Hotel Room, Edward Hopper, 1931

Identifico-me com o último – porque é um Hopper e porque passei alguns anos da minha vida constantemente em viagem, sozinha (ou nem tanto, sempre na companhia de livros.) E vejo a Susana no primeiro, a Mariana no segundo e a Céu no terceiro. O que me dizem, Senhoras-que-lêem?

O que diz este senhor é outro assunto que desperta sempre, sempre, o meu interesse. Apresento-vos o meu slam poet preferido, um homem adorável: o sr. Taylor Mali, aqui a declamar, só para nós, Reading Allowed:

Boas leituras!

Beijinhos,

Marta

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Ilustrações de Giselle Potter para texto de Gertrude Stein
“Alphabets and names make games and everybody has a name 
and all the same they have in a way to have a birthday”
Queridas Senhoras,
acabei de descobrir que a sra. Gertrude Stein também escreveu para miúdos (sabias, Céu?)
Foi através das ilustrações que cheguei lá. O trabalho de Giselle Potter chamou-me a atenção (Susana, as colagens das letras são tão o teu estilo!) e, durante as pesquisas, surge-me o lançamento, em 2011, de uma verdadeira pérola: To Do: A Book of Alphabets and Birthdays (go to Amazon.com, Mariana!)

O manuscrito data de 1940 e foi sucessivamente rejeitado pelas editoras por ser considerado demasiado complexo para crianças. Só dez anos após a morte da escritora a obra viu a luz do dia, pela mão da Yale University Press, numa edição de texto.
Agora, dizem os entendidos que Stein está, finalmente, vingada: as ilustrações de Potter colocam este livro nas mãos de quem melhor o entenderá e apreciará: as (tão frequente e insensatamente) subestimadas crianças.
Como é que andamos de leiturinhas por essas casas?
Beijinhos a todas,
Marta
 

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Foto: Winnie the Pooh – Ilustração original de E. H. Shepard

Queridas Senhoras,

começou! Eu já suspeitava que isto fosse acontecer…

O Francisco agora está na fase ‘Puini’, como ele diz – nada contra, adoro os livrinhos do Pooh, os personagens, os diálogos.

Mas não é, sempre que digo ‘coelho’ (e digo muitas vezes, porque leio-lhe quatro ou cinco histórias do ‘Puini’ por dia), o catraio retorque: Mãe, o ‘coâlho’ chama-se ‘coêlho’!

Miss Speak Porto, também foi assim contigo?

Beijinhos a todas,

Marta

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Questionário ‘Ter 40′