contosescolhidos

Queridas Senhoras,

o centenário do nascimento de Carson McCullers assinalado no mês passado fez-me querer voltar a esta escritora. Cá em casa só tenho os Contos Escolhidos, que agora reli para poder transcrever as minhas passagens preferidas (sim, continuo com a mania das fichinhas). E esta releitura reacendeu em mim a vontade de ler mais e mais desta mulher. Também gostava de poder conhecê-la, conversar com ela, fumar um cigarro com ela. Mas isso já é capaz de ser mais difícil.

Em ‘O rapazinho assombrado’, senti o coração acelerar e fui inteiramente contaminada pela tensão crescente, brilhantemente orquestrada linha após linha, daquela tarde em que um adolescente regressa a casa e não encontra a mãe no sítio onde costuma estar todos os dias, a fazer as mesmas coisas. O problema reside na memória dolorosa daquela vez em que…

Hugh não suportava a calma triste e a mãe que amava tanto. Não suportava o seu amor nem a beleza da mãe. Limpou as lágrimas na manga da camisola e levantou-se da cama. – Nunca te vi tão bonita, nem um vestido e uma combinação tão bonitos.

‘Os estranhos’ junta um jovem americano e um judeu alemão quinquagenário num autocarro, pelo Sul dos EUA. Juntos, conversaram um pouco sobre as suas vidas (o judeu, muito pouco), comentaram a paisagem,

Comeram em silêncio com o prazer vagaroso dos que conhecem a importância da comida.

O rapaz está na flor da juventude e é com entusiasmo que fala da irmã grávida e das três raparigas que elegeu para de entre elas escolher a sua futura mulher. O judeu, mais observador que participante, deixou o terror em Munique, há dois anos, e acredita que conseguirá reconstruir a sua vida (e a da sua família, que se lhe juntará mais tarde) em Lafayetteville. Da família que lhe resta, pelo menos.

De tal forma que o judeu podia falar da filha com compostura e pronunciar o seu nome sem um estremecimento. Mas quando no autocarro viu um homem inclinar a cabeça para um lado a fim de ouvir umas palavras, o judeu ficou à mercê da dor. Porque a filha tinha o hábito de ouvir com o rosto um pouco inclinado para o lado e só erguer o olhar rapidamente quando o interlocutor se calava. O gesto casual do homem velho foi o chamamento que libertou nele a dor há tanto contida; e o judeu encolheu-se e baixou a cabeça.

‘Fragmento sem título’ é o nome dado ao último conto do livro, o mais longo e mais intrincado, como se se tratasse de um esboço de romance. Aqui, conhecemos dois irmãos, Sara e Drew, que por sorte não se mataram a tentar voar num planador construído com as suas próprias mãos, e que, apesar de muito unidos, acabaram por se distanciar.

Os seus olhos escuros tinham uma forma especial de fixar intensamente as pessoas, depois as pálpebras descaíam de repente como se compreendesse tudo e continuasse aborrecido.

Sozinho no telhado, sentia sempre que tinha de gritar – mas não sabia o que queria dizer. Parecia-lhe que, se conseguisse transformar aquela coisa em palavras, não seria um rapaz com grandes pés ásperos e nus e mãos desajeitadas a saírem das mangas demasiado curtas do casaco. Seria um grande homem, quase um deus, e o que dissesse tornaria claras e simples as questões que o preocupavam e às outras pessoas. A sua voz teria a força da música… os homens e as mulheres deixariam as casas para o ouvirem e, reconhecendo a verdade das palavras, seriam como uma única pessoa e compreenderiam tudo o que se passava no mundo.

Há um momento em que todos querem fugir de casa, mesmo que se dêem bem com a família.

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Para terminar, tenho que falar sobre a tradução. Ana Teresa Pereira (na foto, à esquerda) foi a responsável pela selecção e tradução destes contos de Carson McCullers (na foto, à direita). Vocês sabem que eu gosto particularmente da escrita de Ana Teresa Pereira, do universo em que ela se move, e é evidente para qualquer leitor da sua obra que as suas referências são anglo-saxónicas, mais até do que portuguesas. Mas isso não faz dela tradutora, e este trabalho é a prova disso.

Eu comecei logo por embirrar com a primeira frase do segundo conto: «Estava a chover, naquela manhã, e ainda fazia muito escuro.» Porquê tanta vírgula? Não me soou a McCullers.
E que raio é isso de ”fazer escuro”? Dizem-no os brasileiros – pelo menos, disse-o Manuel Bandeira no seu Poema só para Jaime Ovalle: «Quando hoje acordei, ainda fazia escuro / (Embora a manhã já estivesse avançada)». Dizem-no os franceses a torto e a direito. Mas em bom português não “faz escuro”.
Fui à procura da frase original de McCullers, que é a seguinte: «It was raining that morning, and still very dark.» E aconselhei-me junto de quem sabe disto muito mais do que eu, a minha amiga Sónia Oliveira, tradutora (e futura co-autora aqui no Senhoras), que me deu uma possível tradução sua, sem vírgulas, sem o verbo fazer, muito mais bonita, muito mais McCullers, muito mais bem escrita. E sem estar mergulhada no assunto.

A frase seguinte, ainda no mesmo conto, dá-nos um streetcar café que ficou por traduzir (sem o cuidado de juntar uma nota a explicar o que é) – e acrescenta duas vírgulas onde não havia nenhuma. Acreditem, eu adoro vírgulas. Mas a frase traduzida não tem nada do fôlego da original. E isso é um péssimo trabalho de tradução. Citando a Sónia Oliveira, «traduzir não é alinhar palavras num carreiro, já dizia a Svetlana Geier.»

Bem, mas deixei a minha principal fonte de irritação para o fim, porque se repete em vários contos e porque me custa a crer que ninguém na Relógio d’Água tenha reparado nela: a harpa.
Deixem-me situar-vos: estamos no Sul dos EUA, nos anos 1930, mais coisa, menos coisa. E Ana Teresa Pereira acha que aquele pessoal andava por lá a tocar harpa a torto e a direito. Sim, o original fala em harp, e sim, um dicionário básico traduz harp para harpa, mas um tradutor a sério não se fia em dicionários básicos e trabalha com fontes mais fidedignas e, sobretudo, com o contexto. Porque a harp sulista é, evidentemente, a harmónica. Em caso de dúvida, podem consultar esta explicação para totós.

Enquanto me lembrar disto não darei mais dinheiro a ganhar à Relógio d’Água. Vou comprar os meus próximos McCullers nas versões originais. E, pelo sim, pelo não, na semana passada comprei um livro da Siri Hustvedt, O Mundo Ardente, também na versão original, The Blazing World. Gato escaldado…

Beijinhos a todas,

Marta

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Dez a zero

por , em 19/3/17

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Queridas Senhoras,

apareceu aí há duas semanas nas revistas o brasileiro Marcos Piangers, papai de duas garotas que se tornou uma espécie de guru da paternidade, mas muito descontraído, sem aquela chatice dos blogues de mamãs, tudo muito cool e top. O inevitável livro que o moço escreveu chama-se mesmo O Pai é top. Fui na conversa e achei que era uma prenda gira para a Alice e o João darem ao papá. Não me interpretem mal, admiro casos de gente que escreve histórias reais, emocionais, ainda que cheias de lugares-comuns e verdades evidentes, e que se torna um sucesso no mundo dos blogues, das redes, e depois passa tudo para um livro que é top. Top de vendas.

Nada contra, Marcão!, adorei ler seus textos. Pena que não levei mais que duas horas mas ainda deu para rir e para chegar a lagriminha ao canto do olho. Acho que o papai Zé também vai achar graça, sim, embora ele, mesmo sem blogue e sem livros com capas muito fixes, dê dez a zero em você nisso de ser um papai top. Ah e ele não obriga ninguém a comer quinoa, tá? Esquece tofu, seitan, lentilhas e troca por muito gelado e chocolate. De leite mesmo, nada de chocolate moderninho com elevada percentagem de cacau puro.

Mas você conseguiu arrancar gargalhada nesse aqui, quando fala da diferença entre os pais de ontem e de hoje:

«Me lembro de brincar na casa do meu amigo Gustavo. O pai do Gustavo era um pai típico da época: barriga grande, dedos grossos na mão e pouca paciência para brincadeiras. Ele entrava em casa, estávamos jogando Atari, dava um beijo no filho e desaparecia. A partir dali precisávamos abaixar o volume da TV e das conversas, ou a mãe do Gustavo vinha gritando: “Silêncio! Teu pai tá em casa! Teu pai tá cansado!”. Ser pai naquela época era como ser um mafioso. As pessoas te respeitavam.»
Máfia no divã, pp. 68

Este é um livro de auto-ajuda também. Com aqueles lugares-comuns tão comuns que devíamos repeti-los todos os dias ao acordar, como um mantra.

«Nunca ouvi falar de um homem que, quase morrendo, ao avaliar seu passado, tenha se arrependido por ter trabalhado pouco. “Deveria ter preenchido mais relatórios”. “Deveria ter participado de mais reuniões”. “Que arrependimento por não ter virado mais noites no escritório”. Soa impossível. Os principais arrependimentos da vida são sobre não ter valorizado as pessoas mais importantes. “Deveria ter passado mais tempo com as pessoas que eu amo”; “deveria ter dado menos valor para o dinheiro”; “deveria ter sido mais presente”; “não deveria ter me preocupado com a opinião dos outros”.

As pessoas dizem que a vida é curta, mas me parece que a vida é longa. Pessoas recomeçam todos os dias. Recomeçam relacionamentos, recomeçam carreiras profissionais. Descobri, pela internet, que até meu pai biológico tem uma família linda. É um pai participativo agora. Nunca lhe disse isso, mas fico feliz. Fico feliz que a vida seja longa o suficiente pra que essas coisas aconteçam. A vida é longa e cheia de oportunidades pra você ser uma pessoa melhor. Todos os dias algo esbarra na sua cadeira de praia e te diz que você pode ser uma pessoa melhor.»
A vida é longa, pp. 52

Valeu, Marcão.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

podemos começar pelo último post da Marta, Copérnico não acreditava na verdade. «A vida fora outrora um sonho luminoso e límpido que o esperava alhures, para lá da desilusão dos dias vulgares (…)»

E se a verdade, a existir, estiver nos dias vulgares? E se a felicidade for a normalidade e não a exaltação? Se não houver mistério nenhum a não ser o de acordar cada manhã e tentar fazer melhor, ser melhor pessoa?

Só há uma coisa melhor do que ler um grande livro, um clássico daqueles que atravessam os tempos e tocam várias gerações. É ainda não o ter lido e ter essa aventura para viver. Vivi 40 anos sem ter lido Anna Karenina e só não me arrependo porque pude lê-lo há muito pouco tempo e por isso tenho-o muito vivo e presente. Antes vi a mini-série (foi o impulso para a leitura) e a semana passada calhou ver o filme de Joe Wright. E ontem assisti a Como ela morre no Teatro D. Maria II.

Tenho o enredo do livro tão presente que sou capaz de desfiar as cenas mais importantes de empreitada. Identifico os diálogos, sei quem diz o quê e quando. Francamente não sei o que teria sentido em relação à peça se não conhecesse tão bem a obra. Mas julgo que não será indispensável conhecê-la para ver e apreciar esta criação de Tiago Rodrigues e da companhia belga Stan.

Há desde logo esta ideia muito forte e muito bonita que é a deste grande clássico da literatura traduzido em várias línguas, lido por muita gente em épocas diferentes. Quase podemos escutá-los em uníssono, recitando em russo, inglês, francês, português, alemão, com os sons e ritmos próprios de cada idioma, «todas as famílias felizes são iguais…». Mulheres, homens, jovens, velhos de muitos países e tempos, entrando pela primeira vez na casa dos Oblonskys.

Como ela morre põe em cena duas épocas (a actualidade e o final dos anos 60) e três idiomas, o português, o francês e o neerlandês. Dois casais recriam o drama do afastamento, do desamor (quando a orelha ao lado da qual acordamos já não é a orelha que queremos mordiscar), por um lado, e da paixão proibida, por outro.

Há um homem traído que lê uma edição sublinhada de Anna Karenina e recusa-se a falar com a mulher adúltera enquanto não chegar ao fim. Há uma mulher que lê a obra em francês para aprender o idioma. Foi um fotógrafo belga que lhe deu o livro e agora encontram-se todos os dias na estação de Melchen, antes de seguirem o seu destino, um para Bruxelas, o outro para Antuérpia. Há encontros semelhantes, entre outro casal, na estação do Rossio, em Lisboa. Há um homem que esteve na guerra e só quer pintar a casa. Uma casa em construção que a mulher quer abandonar metendo a vida numa mala vermelha. A normalidade desmoronada e a tinta inútil a secar nas latas,

No livro, como na peça, a estação de comboios é lugar de vida e morte. (A certa altura alguém diz que não é o amor que importa mas sim a morte e, portanto, a vida.) É na estação que Anna e Vronsky se encontram pela primeira vez. É aí que ele vê o brilho impossível dos olhos que ela não consegue disfarçar. O brilho que ilumina a escuridão. Como o relâmpago que às vezes deixa ver, por um instante apenas, a vida, a verdade ou o que quer que seja.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Queridas Senhoras,

a primeira obra que li de John Banville foi O Livro da Confissão e desde logo a precisão da linguagem do irlandês lhe garantiu entrada na minha galeria pessoal. Depois disso, li Fantasmas e os Infinitos. mas hoje é de Doutor Copérnico que vos quero falar, um trabalho minucioso de recriação da vida e das inquietações do homem que ousou defender o heliocentrismo, mesmo sem acreditar na sua capacidade de prová-lo.

Doutor Copérnico faz parte de uma colecção de três volumes que Banville dedicou àqueles que considera serem o trio revolucionário: Copérnico, claro, Kepler e Newton. Quero ler também estes dois últimos, mas não me parece que estejam traduzidos para português. Também quero ler O Mar, Man Booker Prize 20015, que foi traduzido entre nós mas, inexplicavelmente, não consigo encontrar à venda; e ainda A Guitarra Azul, a que Eduardo Pitta atribuiu 5 estrelas, concluindo a sua crítica com a seguinte frase: «É raro, mas acontece: um romance em que nenhuma palavra é supérflua.»

Bem, mas voltemos ao Doutor Copérnico, nascido Nicolau, em 1493, em Torum, na antiga Prússia (hoje, Polónia). Uma criança brilhante, introspectiva, que foi forçada a aproximar-se do pai quando a mãe morreu, e com ele aprendeu que seria mercador quando fosse grande; e que foi forçada a deixar a sua terra quando o pai morreu, sob responsabilidade do tio Lucas, para ir estudar para Włocławek.

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«Era o Vístula, o mesmo rio que banhava em vão o lodo inesgotável de Torum – ou seja, o nome era o mesmo , mas o nome nada significava. Aqui o rio era jovem, por assim dizer, um regato límpido e veloz, enquanto lá era velho e cansado. E no entanto estava simultaneamente aqui e lá, era novo e velho simultaneamente, e a sua juventude e velhice não eram separadas por anos mas por léguas. Murmurou em voz alta o nome do rio, e de repente estilhaçaram-se nessa palavra os conceitos do espaço e do tempo.»

«Tornara-se uma coisa sem substância, uma teia de ar ondulado ao sabor de rubros ventos. Sentia-se esfolado, privado da pele vital que o protegia. Toda a superfície do corpo lhe doía, carne, unhas, cabelos, os próprios filamentos dos olhos, na ânsia de algo que ele não sabia nomear nem tão-pouco imaginar. Na missa espreitou, da galeria do coro, as mulheres da cidade ajoelhadas lá em baixo, no meio da congregação. Eram criaturas irremediavelmente corpóreas. Mesmo as mais jovens e graciosas de entre elas estavam muito longe de igualar os espíritos bruxuleantes e cantantes que voavam ao seu encontro na escuridão das suas noites agitadas. Tão-pouco podiam reconfortá-lo os rapazinhos choramingas e malcheirosos que percorriam o dormitório arrastando os cobertores pelo chão, oferecendo-se em troca do consolo de uma cama partilhada. O que procurava era algo diferente da mera carne, algo feito de luz e ar e de uma alegria grave e maravilhosa.»

«- Pensa nisto, meu filho, escuta: todas as teorias não passam de nomes, mas o mundo em si é uma coisa.»

Estuda matemática e astronomia em Cracóvia mas acaba por ser empurrado para Teologia, em Roma, quando o tio é nomeado Bispo da Igreja Católica.

«Ele tinha uma consciência nítida da sua condição de estrangeiro, e sentia saudades do frio do norte. Este não era o seu mundo, este calor, estas paixões estridentes, este ar sufocante e raso que tão pesadamente lhe caía nos pulmões, como o hálito de outra pessoa; nada aqui o tocava, e ele não tocava coisa nenhuma.»

Regressa à Prússia já formado em Direito Canónico, onde o espera um lugar de Cónego. E é aí que vive o resto dos seus dias.

«Tinha trinta e três anos; estava a perder os dentes. A vida fora outrora um sonho luminoso e límpido que o esperava alhures, para lá da desilusão dos dias vulgares, mas agora, quando olhava para esse lugar outrora ocupado por um deslumbrante vaso doirado de possibilidades via apenas um ser vago e sombrio, de membros mutilados, a vogar na sua direcção. Não era a morte, mas sim algo bem menos nítido. Era, imaginava ele, o fracasso. Aproximava-se um pouco mais a cada dia que passava, e cada dia ele facilitava um pouco mais a sua vinda, pois não era o seu trabalho – o seu verdadeiro trabalho, ou seja, a astronomia – um processo de fracasso progressivo? (…) Pensava que o explanar da sua teoria seria coisa pouca, mero trabalho rotineiro, de desbaste: mas era mais do que desbaste, afinal, uma autêntica carnificina.
(…) E no entanto, paradoxalmente, era feliz, se é que podemos usar tal palavra. Apesar do sofrimento e das desilusões repetidas, apesar do vazio da sua vida pardacenta, não havia no mundo felicidade que se comparasse àquela dor deliciosa.»

«Julgara ser possível dizer a verdade; agora via que apenas o dizer podia ser dito.»

Em 1543, Copérnico morre em Frauenburg, no mesmo ano e na mesma cidade em que é editada a sua obra Da revolução de esferas celestes.

«-Dizei-me, Osiander – perguntou – dizei-me sinceramente: é demasiado tarde para deter a publicação? É que, se fosse possível, eu detê-la-ia.»

«Copérnico não acreditava na verdade. Creio que já tive ocasião de dizer isto.»

O ambiente dissoluto dos colégios e das universidades que frequenta, mesmo sob os auspícios de Roma; a vida de perdição escolhida pelo seu irmão e punida com a mais denunciadora das doenças; a prima com quem coabita, numa situação dúbia, que incomoda a Igreja; a sua reclusão e o aturado trabalho de investigação em astronomia, por detrás da capa de cónego; pecado e expiação, tormenta e beatitude sempre lado a lado, tão próximos que, muitas vezes, se confundem.

Não há ficção como a realidade.

Beijinhos a todas,

Marta

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Quem fica com quem

por , em 2/3/17

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Queridas Senhoras,

ao contrário do que o título possa fazer supor, O Enredo Conjugal não versa sobre as agruras do casamento, o tédio pesado ou a tensão nervosa que caracteriza muitas das representações literárias dessa mui glosada instituição. A história posiciona-se antes de tudo isso, sendo quase um romance juvenil, pós-adolescente, ou melhor, pós-universitário.

Não se consegue pousar este livro (eu não consegui), muito novelesco, cheio de peripécias, quer acontecimentos de facto, quer, sobretudo, divagações mentais das três personagens nucleares. O clássico triângulo amoroso é aqui protagonizado por Madeleine, Leonard e Mitchell, jovens, belos e cultos. Estamos no olimpo da juventude universitária. Nem todos de boas famílias mas igualizados, como às tantas se diz, pela frequência da mesma universidade, a Brown, Providence, Rhode Island.

Vamos encontrá-los no dia da formatura, vinte e poucos anos, e o enredo desenrolar-se-á num espaço temporal relativamente curto, não avançado para lá do limiar da entrada da vida adulta. Algumas incursões à infância permitem-nos conhecer um pouco melhor o passado dos três mas a acção central decorre no tempo presente da narrativa, situado na década de 80 do século passado.

O enredo conjugal a que o título faz referência alude a um sub-género literário muito em voga no século XIX, cultivado por autoras como Jane Austen e George Eliot, que basicamente trata da velha questão que ainda hoje é a linha narrativa central de muitas novelas: saber quem fica com quem e o que acontece pelo meio.

A literatura acompanha de perto a evolução amorosa e espiritual das personagens. Madeleine, estudante da especialidade, apaixona-se e vigia de perto o seu estado lendo Fragmentos de um  Discurso Amoroso de Roland Barthes. Leonard, dividido entre estudos religiosos e científicos, tem de lidar com uma doença mental grave, a psicose maníaco-depressiva, e o seu consolo é saber que vários grandes génios, das artes e das ciências, padeceram do mesmo. Mitchell, um teólogo em formação, empreende o seu grand tour no final do curso, atravessando a Europa e conseguindo chegar à Índia, onde espera alcançar simultaneamente a revelação e o esquecimento (de Madeleine).

Um romance tão fresco, vivo e vibrante que nos leva a perguntar onde param os nossos vinte anos, sem que tenhamos a certeza se gostaríamos realmente de repetir semelhante aventura. Há uma excepção à leveza que atravessa estas páginas (o mal de amor juvenil é muito relativo): é a descrição dura, paralisante, dos períodos depressivos de Leonard, o único que tem de facto um problema sério. De resto, todos atravessam um Verão complicado mas aventuroso, enquanto decidem onde irão viver, que estudos irão prosseguir, quem irão amar.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

depois de ler A Gorda, fui reparar a falha de não ter ainda lido o Caderno de Memórias Coloniais, também da Isabela Figueiredo. Em registo autobiográfico, somos levados a reviver, à luz das memórias da autora, a experiência do fim do colonialismo em Moçambique. Já noutro dia a Céu (na sequência da polémica em torno do Valter Hugo Mãe) reclamava a inclusão d’A Gorda no Plano Nacional de Leitura. Pois eu acrescento este livro à reclamação. E, sim, para ser lido por adolescentes, nem que seja só no 12º ano, para não chocar susceptibilidades. Porque a linguagem da Isabela é crua e verdadeira e há muito pouca a gente a saber lidar com isso (mas os adolescentes sabem, não se preocupem!)

Escolhi dois trechos para partilhar aqui convosco. Não são representativos, por si só, do tom do livro, mas foram para mim como duas pontes.

A forma como olhámos para as nossas mãos na infância, e a forma como olhamos para elas, agora; estou a olhar para as minhas mãos agora, não muda. As mesmas mãos. Como puderam envelhecer e ser ainda as mesmas? As unhas iguais. Os nós dos dedos. Os mesmos olhos. O mesmo pensamento, quando olhamos, com os mesmos olhos, as mesmas mãos.
A partir de certa idade, muito cedo na infância, já somos nós, o que irá perseguir-nos sempre.

Ao ler estas linhas, regressei ao documentário de Agnès Varda, Os Respigadores e a Respigadora, que vi há uns vinte e tal anos em Lisboa, no cinema, e que me faz companhia desde então. A reflexão de Isabela Figueiredo trouxe-me de volta este momento exacto:

Non, non, ce n’est pas, Ô, râge! Ce n’est pas, Ô, désespoir! Ce n’est pas, Ô vieillesse ennemie! Ce serait peut-être même, Ô vieillesse amie! Et tout de même, il y a mes cheveux et mes mains que me disent que ç’est bientôt la fin.

A segunda ponte de que vos quero falar é uma ponte singular, porque se construiu ao contrário, digamos assim. Foi preciso conhecer o seu ponto de chegada para reconhecer o seu ponto de partida.

Eu explico. Com a leitura de mais esta obra de Figueiredo, confirmei a sensação de semelhança entre a sua voz e a de outra escritora, Agota Kristof, cujos pequenos e acutilantes livros descobri há uns 12 anos, talvez. Prossegui, então, para a leitura de Ontem, um livro de Kristof que ainda esperava pela sua vez na minha estante. E, logo no fim do 1º capítulo, a meras quatro páginas do início, isto:

Afundei o meu rosto na lama fria e não me mexi mais.
Foi assim que morri.
Em pouco tempo, o meu corpo confundiu-se com a terra.

Ora, tinha eu acabado de fechar o Caderno de Memórias Coloniais, que se despedira de mim com um onírico capítulo de apenas duas páginas, em que lera isto:

Não te importa a terra no cabelo nem nas unhas. Esfregas-te. Ris. Ouves o teu riso incomodar a noite. Que silêncio. Que ternura. Tudo é verdade e tu trincas a terra.

É claro que nós conseguimos estabelecer as ligações que quisermos entre palavras, basta colocá-las mais ao jeito que nos convier. Mas, ainda que esteja plenamente ciente disto, não posso deixar de rejubilar com estes encontros. Poderia dizer que são a minha religião. Uma religião de santos com pés de barro, a acreditar em Kristof:

Em geral contento-me em escrever na minha cabeça. É mais fácil. Na cabeça, tudo se desenrola sem dificuldades. Mas, assim que escrevemos, os pensamentos transformam-se, deformam-se, e tudo se torna falso. Por causa das palavras.

E eu que acho que escrevo para pensar melhor…

Beijinhos a todas,
Marta

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Questionário ‘Ter 40′