Senhoras da nossa idade

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oh eu vi tudo (sabes que sim)

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oh eu vi tudo (sabes que sim)
fui enchendo os nossos corpos transparentes de 50 microns abertos em cima
com o que apanhava
para que não voássemos
porque se voássemos
quem sabe onde estaríamos
debaixo de uma pedra
no fundo do mar
presos numa árvore
e depois?

então tudo o que pesava servia
o que me dizias sem olhar para mim
o que me repetias com a voz perfeita (as falas do teu guião)
e sobretudo o subtexto
(aquela vez em que te vi reparar na minha pele do avesso)

agora que podíamos ser dois seres inteiros
sem nada em que pudéssemos tropeçar
com o caminho livre de fundos falsos
cada um em seu carril paralelo higienicamente juntos sem passado

agora que podíamos ser dois seres inteiros
ficámos para sempre atados aos equívocos
gavetas vazias empurradas à força para dentro do peito palavras escritas no corpo com a ponta da faca
e aquele cheiro tão característico dos comboios parados
aquele perfume de viagens liquefeitas em metal incandescente que se adivinha
nas faúlhas da travagem

no buraco feito no caderno com a parte azul da borracha
o meu sistema de linhas férreas

Sónia Oliveira

Vous ne rêvez pas

reve

tive um sonho tripartido
três acções em simultâneo atrás da película de sono
que me deixaram nas mãos três imagens em cutelo
numa um homem submergia
num mar branco
de esferovite
o rosto decalcado num pano hirto
sujo
um sudário que não afundava
uma jangada sem fundo
presa pelos olhos ao céu
noutra estava perdida
tinha pressa
transpirava
as ruas bifurcavam-se como línguas
as pessoas voltavam-se à minha voz
mas só tinham costas
as pessoas eram casas
na terceira estavas comigo
e dormias
numa cama maior que o quarto
eu não cabia na cama
dormia dentro de ti
tu eras o meu quarto sem cama
eu era uma cama-jangada

Sónia Oliveira

Feliz Dia Mundial da Poesia!

sem nome

Quotidiano

Se fosse fácil escrever
um poema do quotidiano,
desses avulsos que se leem
no dia mundial da poesia,
eu cá aproveitava a hora de almoço
e o canto da folha de jornal
e escrevia qualquer coisa banal.
Afinal, sou especialista em quotidiano.
(experiência: vivo todos os dias).
Gostava que o meu poema tivesse
um relógio, uma escrivaninha, uma estação.
Mas também podia ter só ruas e janelas.
Quando passam crianças, nesse poema,
penso sempre nos meus filhos.
Se estarão a rir-se naquele momento
ou tristes.
Porque caíram ou foram mordidos.

Beijinhos a todas!

Céu

Beber uma coca-cola contigo

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O Cavaleiro Polaco, Rembrandt, 1655, The Frick Collection

Queridas Senhoras,

é certo que se nos alimentássemos apenas de poesia escrita em português, não morreríamos à fome. Mas este ano apetece-me celebrar o Dia Internacional da Língua Materna a pensar noutros paladares. Como o de uma coca-cola que me foi dada a saborear por Vasco Gato (as suas traduções são nutrientes essenciais).

Não que não pudéssemos desfrutar de Frank O’Hara na sua língua materna, mas o meu coração fala português e hoje é o meu coração que vos fala. Em português. Por causa da saudade.

BEBER UMA COCA-COLA CONTIGO

é ainda mais divertido do que ir a San Sebastián, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou ficar mal da barriga na Travessera de Gràcia em Barcelona
em parte por essa camisa laranja que te faz parecer um S. Sebastião melhor e mais feliz
em parte pela adoração que tenho por ti, em parte pela adoração que tens por iogurtes
em parte pelas fluorescentes tulipas cor-de-laranja em torno das bétulas
em parte pelo secretismo de que se revestem os nossos sorrisos junto de pessoas e estátuas
custa a crer estando contigo que haja algo tão quieto
tão solene tão desagradavelmente definitivo como estátuas quando diante delas
na morna claridade nova-iorquina das 4 da tarde vamos flutuando de cá para lá
entre um e outro como uma árvore a respirar através dos seus óculos

e a exposição de retratos não parece incluir rosto nenhum, apenas tinta
interrogas-te subitamente por que raio haveria alguém de os fazer

olho
para ti e preferiria olhar para ti do que para todos os retratos do mundo
à excepção porventura do Cavaleiro Polaco uma ou outra vez, que de todo o modo está no Frick
ao qual graças a deus ainda não foste, pelo que podemos ir juntos pela primeira vez
e a maravilha dos teus movimentos como que arruma a questão do Futurismo
tal como em casa nunca penso no Nu a Descer uma Escada nem
num ensaio num único desenho do Leonardo ou do Michelangelo que em tempos me tivesse deslumbrado
e de que vale aos Impressionistas toda a pesquisa a seu respeito
se nunca encontraram a pessoa certa para se pôr junto da árvore ao pôr-do-sol
ou já agora ao Marino Marini se não se esmerou tanto a escolher o cavaleiro
como a escolher o cavalo

parece que todos foram fintados por uma experiência maravilhosa
a qual no meu caso não cairá em saco roto, motivo pelo qual venho falar-te dela

Frank O’Hara
(tradução de Vasco Gato)

Beijinhos a todas,
Marta

A primeira pessoa que amamos

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Queridas Senhoras,

saiu novo volume da lindíssima Colecção de Poesia da Tinta da China, coordenada por Pedro Mexia. Alguma coisa negro, de Jacques Roubau, escritor e matemático francês. [O erro de concordância no título é propositado. Alguma coisa negro e não Alguma coisa negra. ]

O nome do autor nada me diz, desconheço a temática do livro. PM é o editor, José Mário Silva o tradutor, Gonçalo M. Tavares assina o prefácio. Este trio junta-se na Nouvelle Librairie Française para o lançamento. Eu, que sou cusca, trabalho perto e não resisto a uma sessão deste gabarito e com estas sumidades, vou lá espreitar.

Alguma coisa negro é o diário de um viúvo. Começou a ser escrito trinta meses após a morte da mulher [a fotógrafa Alix Cléo Roubaud, falecida com apenas 31 anos]. Porque durante trinta meses emudeceu.

Diante da tua morte eu fiquei completamente silencioso. // Não consegui falar
durante quase trinta meses

Do muito que foi dito durante a sessão, guardei sobretudo esta ideia de GMT: a verdadeira memória só nasce quando morre a primeira pessoa que amamos. Ele chamou-lhe memória humana. É como se antes existisse apenas uma memória técnica, prática, útil. Só após a morte da primeira pessoa que amamos desenvolvemos a memória humana, necessária para a recordar e construir dentro de nós.

A história não tem recordações.

Cada imagem de ti – falo daquelas que estão nas minhas mãos, diante dos meus olhos, nos papéis – cada imagem toca o rasto de um reconhecimento, ilumina-o,
Mas no entanto ela acabou, elas acabaram, cada uma e todas, não constituem nas suas configurações nenhuma vida, nenhum sentido, nenhuma lição, nenhum objectivo.
A tua voz deslocando-se ao murmurar no gravador, oiço os esforços do teu fôlego, na noite, diante do gravador na tua cama.
Escuto-a, igual, depois de centenas de noites, e no entanto não há nada nela de um presente, nada que a magia mecânica tenha conseguido, através da mimese em limalhas, transmitir de nenhum dos teus momentos, plenos, separados, de fôlego difícil, terminados, para estarem aqui em teu nome, como um recurso.
E é por isso, talvez, que estás nelas, vista, e voz, o mais irremediavelmente possível, morta.
E é por isso, também, que a vida que te resta, se ela te resta, ficou impressa em mim, como um sudário, confundida comigo, recusando desfazer-se.
E ceder, como a tua carne, à consentida decomposição não imaginável, imobilizar-se como a imagem e a palavra nos parêntesis documentais. Esta vida que é isto:
O teu cheiro, o teu gosto, o toque de ti.

Jacques Roubaud
(in “Alguma coisa negro”, Tinta da China, trad. de JMS)

 

Beijinhos a todas,

Céu

Vamos falar de árvores

The-Park

O Parque, de Gustav Klimt, 1909

Queridas Senhoras,

hoje descobri este quadro de Klimt. Cá em casa, um dos passatempos é descobrir obras cujas reproduções queremos pendurar nas nossas paredes e depois passar horas (ou dias) a tentar perceber onde enfiar mais um quadro. Este fica de fora, porque há muitos outros à sua frente na lista de espera. Mas é encantador, não acham?

A imagem surgiu no meu feed do Facebook e, por causa dela, fui descobrir que cerca de um quarto das obras do pintor são paisagens. Paisagens densas, monotemáticas, sem horizonte. Como O Parque, na imagem acima, e esta Floresta de Faias I, de 1902, reproduzida abaixo:

Forest

Klimt interessou-se por várias paisagens de árvores e pintou-as quase obsessivamente, para registar todas as oscilações das suas tonalidades, nos idos anos do começo do século XX.
Isto foi hoje; e remeteu-me para uma descoberta de há umas semanas, que acaba por ser uma lufada de ar fresco, já que se trata de uma boa notícia dos EUA. A entidade que gere os parques públicos de Nova Iorque procurou registar minuciosamente todas as árvores das ruas da cidade. O resultado é um mapa digital completo da floresta urbana da Big Apple, complementado com informações referentes aos benefícios que cada exemplar traz para o ambiente e para a economia. Aconselho vivamente uma visita ao site tree-map.nycgovparks.org, antes que desapareça do mapa…

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E esta conversa toda sobre árvores remeteu-me para um poema (tão pertinente por estes dias) da poeta, ensaísta e activista feminista Adrienne Rich, que insiste que ‘em tempos como este, para conseguir ser ouvido é preciso falar de árvores’.

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Acontece que o título do poema de Rich é inspirado num trecho de outro poema, escrito em 1939 pelo poeta alemão (exilado) Bertolt Brecht sob os negros céus que então o cobriam:

What times are these, in which
A conversation about trees is almost a crime
For in doing so we maintain our silence about so much wrongdoing!

Podem ler neste artigo da Harper’s Magazine a versão integral do poema de Brecht, tanto no alemão original como numa tradução para inglês. E depois decidam, de acordo com as vossas consciências, se estes são ou não tempos de falar de árvores – e, se forem, qual o tom do discurso a adoptar. Eu, por hoje, escolhi este.

Beijos a todas,

Marta

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