Sábado, 15 Novembro 2014

por

fichas

Queridas Senhoras,

estou a preparar uma remessa de livros para a Céu, sobretudo devoluções de empréstimos e duas sugestões minhas (um Patrick Modiano e um Michael Cunningham).

Mas o que vem a ser isso de preparar uma remessa? Não é só pôr os livros num envelope? De facto, não. Com este entra-e-sai de livros (às trocas das Senhoras acrescem as idas, cada vez mais frequentes, à biblioteca municipal), vi-me obrigada a encontrar um método para guardar comigo alguns bocadinhos dos livros de que acabo por ter que me despedir, aquelas frases que costumava sublinhar a lápis e que agora marco, com um post-it ou algo do género, nos livros cá de casa.

A minha escolha recaiu sobre as fichas de leitura, ou uma versão delas, em que registo, sobretudo, frases ou parágrafos que contêm ideias valiosas, que estão particularmente bem conseguidos ou que me ensinaram algo de novo acerca da língua. Devo dizer-vos que são uns minutos de absoluto deleite, estes em que regresso aos livros que já li para copiar, caneta no papel, palavras escolhidas a dedo. Faz-me pensar em tudo o que já li sobre a qualidade da leitura, a qualidade do acto de ler. Assim sendo, arranjei um novo passatempo, digamos assim, e estou a construir um pequeno espólio de pérolas literárias e/ou linguísticas a que regresso como a uma arca de tesouros.

Para além do prazer da releitura e da agradável sensação de coleccionismo, percebo, a cada palavra copiada, que o efeito também é notável no que diz respeito à reflexão sobre a língua. Ah, as boas velhas cópias!

Um dos livros que agora devolvo à Céu é A Catcher in The Rye. Também eu «andei 40 anos sem saber quem era o Holden Caufield», Céu, e agradeço-te muito que nos tenhas apresentado. É um dos que vou juntar, um dia, à biblioteca da família. Não me vou alongar sobre o conteúdo da obra, a Céu já escreveu e muito bem sobre esse assunto. Vou, sim, partilhar convosco as três citações que acabo de copiar para uma ficha de leitura.

Primeiro, uma frase muito simples e muito sábia: “Mothers are all slightly insane.”

Depois, uma reflexão brilhante sobre a inteligência dos outros, ou sobre a aparente inteligência dos outros: “I used to think she was quite intelligent, in my stupidity. The reason I did was because she knew quite a lot about the theater and plays and literature and all that stuff. If somebody knows quite a lot about those things, it takes you quite a while to find out whether they’re really stupid or not. It took me years to find it out, in old Sally’s case.”

E, para terminar, uma queixa (muito se queixa o miúdo, e com razão!) à qual eu não poderia ficar indiferente: “That’s something else that gives me a royal pain. I mean if you’re good at writing compositions and somebody starts talking about commas. Stradlater was always doing that. He wanted you to think that the only reason he was lousy at writing compositions was because he stuck all the commas in the wrong place.”

Bom fim-de-semana! Beijinhos,

Marta

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