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Queridas Senhoras,

desculpem o título pomposo mas estou a poucas páginas de terminar o Anna Karénina de Lev Tolstoi (que prometi ler depois de ter visto a mini-série, em Julho passado) e uma reflexão impõe-se. Como sou garganeira não espero pelo fim, vou já sistematizar (faltam-me 15 páginas).

São 700 páginas e há belos trechos sobre caça, agricultura ou política. Mas a relação amorosa, e em especial o casamento, é o grande tema do livro. O casamento, esse difícil regime, o pior de todos, com excepção de todos os outros. Vejamos:

Ana mantém um casamento estável mas frio com Alexis Karenine com quem tem um filho (Sérgio). Apaixona-se pelo conde Vronksy, soldado e garanhão, iniciando uma tumultuosa relação. O sedutor Oblonsky, irmão de Ana, é marido de Dolly, que trai regularmente com perceptoras e criadas. Têm seis filhos. Kitty, irmã de Dolly, espera no início do romance um pedido de casamento de Vronsky mas acabará por casar com Levine, que não gostava de mais ninguém. Refira-se ainda a condessa Lydia que irá estabelecer uma relação devotada com Alexis, o marido abandonado.

Cada um destes casais representa um tipo de união, com os seus tédios e dramas.
Ana e Alexis têm um casamento de conveniência, condenado ao marasmo eterno não fosse a erupção da paixão.
Ana e Vronsky desenvolvem uma relação apaixonada, uma união corajosa, mas progressivamente obsessiva e doentia.
Oblonksy e Dolly representam a família tradicional: a mulher cuida dos filhos e da casa, o marido diverte-se.
Alexis e Lydia iniciam uma ligação beatífica, de salvação.
Kitty e Levine parecem representar no romance o casamento feliz, a união perfeita. Mas nem eles estão imunes aos espinhos e muito menos aos pequenos dramas domésticos. Levine, que idealizava o casamento como a resolução perfeita para as questões existenciais e morais, debate-se com crises de ciúme, desconfianças e mágoas passadas. Kitty desaba em crises de choro. É assim o início da vida do casal mais feliz deste romance.

Não há dúvida que são Levine e Kitty que personificam o amor ou o casamento ideal, nascido de uma profunda e sólida afeição mútua, cimentada com admiração, respeito, entreajuda, comunhão. Têm nos outros casais “imorais” o seu contraponto.

No início do livro, Dolly quer o divórcio de Oblonsky por causa das traições constantes. Ana intervém para salvar o casamento, Dolly perdoa o marido e continua a assumir todas as suas obrigações de esposa e mãe de seis filhos. Por vezes, inveja secretamente Ana e lastima ter perdido os seus melhores anos em sucessivas gravidezes, amamentações e cuidados infantis (o desabafo de Dolly, sobre a gravidez e a maternidade, é de antologia). Deseja ser desejada e ter um lampejo que seja do mundo de Ana. Mas quando a visita na sua vida de “pecado” sente-se inexplicavelmente mal e quer voltar depressa para junto dos filhos. A pacata domesticidade surge-lhe como um refúgio seguro, a contrastar com uma vida talvez excitante mas também artificial e perigosa.

E Ana e Vronsky? Porque não dá certo? Se eles sacrificaram tudo para ficar um com o outro porque é que o romance os castiga desta maneira? Sobretudo a ela, claro. (Para quem não sabe ou não se recorda, Ana enlouquece e atira-se para debaixo de um comboio. Vronsky envelhece prematuramente, torna-se um fantasma mas é “salvo” pela guerra: alista-se e espera morrer em combate). A pressão da sociedade, a culpa, o ciúme, a desconfiança, o medo do abandono, o peso excessivo das perdas tornam a relação insustentável, criando uma espiral de loucura. Não é bonito o destino dos amantes. Os outros casais acabam por se “safar” de uma maneira ou de outra. Dolly e Oblonsky prosseguem a educação dos filhos (ela) e a boa vida (ele). Alexis e Lydia ficam com as duas crianças (Sérgio, filho de Alexis, e a menina que Ana teve com Vronsky). Kitty e Levine constituem família, cultivam o campo, cuidam dos seus, amam-se.

Quando a Alice era mais pequena, líamos umas fábulas com moral no fim, que ela queria reduzir ao essencial. Por isso perguntava:

Quem é que fez mal?

Eis a questão.

Beijinhos a todas,

Céu