Calita

  • O melhor e o pior

O melhor de ter 40 anos foi ter percebido que não era assim tão diferente de ter 20. Aos 40 anos podia ser mãe de um bebé e estar perdidamente apaixonada pelo pai dele.

O pior de ter 40 anos foi ter percebido que não era assim tão diferente de ter 20: Sei bem aquilo que não quero, mas não faço a mais pequena ideia daquilo que quero ao certo.

  • As surpresas e as desilusões

A grande surpresa é continuar a sentir-me a mesma miúda de 18/20 anos (ainda por cima estive a passar uns dias em casa da minha mãe e não podia sair à noite, porque “parece mal”).

A grande desilusão é não ter contribuído, ainda, com nada de importante para a humanidade.

  • As conquistas e as perdas

Cheguei aos 40 anos com bastantes perdas pelo caminho. O meu pai, que morreu quando eu tinha 13 anos, as muitas viagens por concretizar, os amigos que ficaram pelo caminho, o jornalismo arrumado numa gaveta, a auto-estima que foi sendo apedrejada.

Quanto às conquistas, acho que a principal foi ter feito, até aqui, o caminho que escolhi para mim. Deparei-me, muitas vezes, com obstáculos que pareceram intransponíveis, mas fiz o que tinha a fazer.

  • O que mudaria, se pudesse, mas não posso; e o que mudaria, se pudesse, e posso

Gostava de mudar de cidade e ir viver para o Porto, mas não é viável. Não gosto de dizer que não posso, porque acredito mesmo que querer é poder.

Aquilo que posso mudar e não mudo passa por criar novas rotinas mais interessantes, mas assim de repente não me apetece.

  • O meu grau de satisfação com a minha rotina diária, de 0 a 10

Eu diria que deve andar pelos 3. Tenho uma rotina diária bastante deprimente, na minha perspectiva.

  • Recados para mim aos 20

Miúda, tens um corpo fantástico. A sério, um corpo fantástico. Dá-lhe uso.

  • Votos para mim aos 50

Amor, uma cabana e uma garrafeira espectacular.

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Obrigada, Calita.

Para participar no nosso questionário ‘Ter 40′, basta enviar as respostas por email. Saibam mais aqui. Até já.

Marta

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15 km

por , em 28/9/14

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Queridas Senhoras,

 

Fiz a minha primeira corrida de 15 km.

Uau! Fogo! Não foi fácil. Estava bastante nervosa. Segue-se o relato fiel.

O dia anterior

No sábado de manhã fui correr. Fiz um treino mais curto do que o habitual ao fim-de-semana mas decidi correr na mesma, apesar da prova no dia seguinte. Não tinha corrido na sexta e fazia-me impressão estar dois dias parada e depois atacar os 15 km assim a frio. Corri cerca de 6 km.

Por volta da hora de almoço comecei a ficar ansiosa com a chuva e a trovoada que vieram em força. Comecei a fazer cenários sobre correr naquelas condições e a achar que seria de loucos (apesar de normalmente correr à chuva embora não com trovões!).

Passei a tarde calmamente por casa. Jantei frango com massa por causa dos hidratos de carbono. Não prescindi de acompanhar a refeição com um copo de vinho (há limites para as restrições).

Deitei-me cedo e dormi bem, cerca de 8 horas. Durante a noite acordei e, com os nervos, bebi um copo de leite e comi uma bolacha. Não havia de ser por falta de forças que a coisa ia correr mal.

O dia da prova

Antes da prova

Acordo antes das 8 horas. Preparo o meu pequeno-almoço de papas de aveia com mel e canela e meia banana às rodelas. Preparo um delicioso chá preto com maracujá (oferta de umas queridas amigas) que bebo a seguir às papas. Tomo banho para ir bem fresca. Equipo-me e saio de casa com bastante tempo, para uma manhã clara e luminosa. Está um belo dia para correr 15 km, isso não há dúvida.

Chego ao local com cerca de 20 minutos de antecedência. Começo a aquecer. Encontro um senhor que, por coincidência, acompanhou as minhas primeiras corridas, há dois anos e meio, e me deu na altura alguns conselhos úteis que nunca esqueci e continuo a aplicar. Correr com os braços descontraídos, sem tensão, elevar bem os joelhos, manter a respiração regular. Aproveito para lhe agradecer essa orientação inicial que me ajudou a chegar aqui. De resto, o senhor não vai correr hoje. Não encontro mais ninguém conhecido. Estou por minha conta.

A prova

A prova é constituída por uma primeira volta de 5,5 km. Ao fim dessa distância regressamos ao ponto de partida para percorrer a segunda volta, de 9,5 km. Arranco dentro do meu ritmo habitual, não muito acelerado, e procuro desfrutar da manhã clara, da brisa fresca, do ambiente festivo e da possibilidade de correr no meio da estrada.

Essa primeira volta não corre mal mas é bastante dura. Há pelo menos duas subidas, uma das quais bastante íngreme. Quando estou nessa fase, alguém se dirige a mim e pergunta se estou inscrita nos 5,5 km ou nos 15 km. Digo que estou nos 15 km e ele: “ui, está lixada, sabe que tem de passar aqui outra vez?” Obrigadinha opá.

Quando completo a primeira volta estou bastante desmoralizada. Aquele esforço todo e só corri 5,5 km. Não acho que não seja capaz de chegar ao fim mas sinto que não vou aguentar as subidas todas, que terei de andar nalgumas partes, e que irei demorar para aí duas horas. Paciência.

Havia um objectivo meio irreal que era tentar manter a média de 5 km em cada meia hora e acabar a prova em hora e meia. Depois da exigência daquela primeira volta ponho de lado essa miragem

As coisas começam a mudar aos 10 km. De repente, vejo que estou na marca dos 10 km, olho para o relógio e verifico que estou com um pouco menos de uma hora de corrida. Olá! Tu queres ver que é possível? É possível não só acabar isto sem ficar de rastos como conseguir um tempo jeitoso?

As subidas matam-me, é verdade, mas aproveito as descidas para descontrair, ganhar fôlego e imaginar-me orgulhosamente a chegar à meta às 11h30. Nunca paro de correr.

Vejo a marca dos 11 km e lá vou eu, sem abrandar o ritmo. Aí penso “falam 4 km, isso não é nada, é um treino fraquinho para mim, bora lá”. Vejo os 12 km, continuo. Aos 13 km começo a sentir uma espécie de agonia. “Acalma-te, isso é psicológico”. Apesar do mau-estar, o relógio diz-me que vou conseguir fazer a tal hora e meia. Isto se não tiver que parar para vomitar ou coisa do género.

Ao longo do percurso são distribuídas garrafas de água. Posso ter bebido água a mais, daí a má disposição. Lembro-me vagamente do tal senhor me dizer, antes do início da corrida, por entre a música alta, que devia aproveitar a água para retemperar forças mas não beber muita para não ficar pesada ou inchada. Paciência, agora já está.

Passo a marca dos 14 km, faltam apenas 1000 metros, nada de nada, mas vou um bocado aflita. Nem sequer tento um sprint final para ganhar uns segundos mas suporto o ritmo. Corto a meta e basicamente atiro-me para o chão. Mas depois fico logo bem, acho que o mau-estar se deveu sobretudo à tensão da corrida.

Conclusão

A prova foi violenta! A sério, acho que consegui porque estava num dia bom. As pernas lá foram obedecendo, não sei como naquelas subidas diabólicas. Não desgostei de participar mas não me estou a ver a ficar fã deste tipo de eventos. Para mim correr é um momento individual, de libertação de energia e tensões. Por outro lado, esta foi apenas a segunda prova em que participei (a primeira foram os 9 km do Corre Jamor em 2012) e a dureza deixou-me de pé atrás. Tenho de experimentar uma daquelas corridas para meninos, à beira-mar, com a brisa marítima a refrescar o corpo e a mente.

 

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Eu vi a Mariana

por , em 19/9/14

Queridas senhoras,

vou contar-vos um segredo. Eu vi a Mariana ao vivo, este ano. Em nossa defesa, foi um encontro de trabalho, um breve momento em que a nossa campeã das milhas acumuladas pousou os pés em Lisboa, entre ter chegado de São Paulo, ter passado pelo Alentejo, ter ido para um sítio algures na Europa só com o maridinho, para depois regressar a Lisboa e voltarem todos (os seis) para São Paulo.

Há uns meses, estivemos umas boas horas sentadas numa esplanada à beira-rio, eu, a Mariana e uma terceira pessoa, a Susana P., a esmiuçar assuntos de natureza profissional, e trocámos algumas novidades pelo meio, mas soube a pouco. Vamos já começar a pensar num encontro a sério, com tempo, lá para o Natal, ok, Senhoras?

Soube a pouco e soube a tanto. Vocês conhecem-na, a Susana menos bem, mas tu, Céu, perceberás bem o quero dizer quando descrevo a Mariana como sendo um ícone de elegância. A Mariana é a pessoa mais elegante que eu conheço, e ela faz hoje 41 anos, 41 anos!, tem quatro filhos, vive em São Paulo e já viveu em Madrid (e isto só depois de casada, porque começou a acumular milhas logo desde miúda), e há-de viver ainda em mais uns quantos lugares distantes e excitantes. Trazia umas calças pretas de um modelo de que eu gosto muito, que são muito fluidas e leves mas com um toque masculino muito giro, um pouco Diane Keaton versão 2014; umas sandálias de cor viva; e uma camisa. Eu, que não percebo nada de moda nem sei descrever com exactidão as peças que ela usava, ainda hoje retenho na memória a fluidez de tudo aquilo, a forma como as roupas repousam sobre ela com leveza, com elegância, com naturalidade. Como ela está sempre bem, seja para uma esplanada na beira-rio, para uma vernissage ou para um whiskey com mr. Sinatra. Isto é elegância.

Mas não é, claro, só o que ela veste, ou melhor, como ela o veste. É também o sorriso que nos abraça, são os gestos delicados, é a voz doce. É a mente atenta, o conhecimento inesgotável, a curiosidade insaciável, a serenidade, a reflexão, a ponderação. O coração. Os bons conselhos, a opinião sempre valiosa. A humildade, a humildade. A sabedoria (claro, só tem direito a ela quem sabe manter-se humilde). A amizade.

«Ah! Se ela soubesse que quando ela passa 
o mundo inteirinho se enche de graça»

Sabes, Mariana? O meu mundo tem muito mais graça por tu passares nele. Até breve, amiga, e muitos, mas muitos parabéns.

Um grande beijinho,

Marta

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Queridas Senhoras,

a fotografia acima foi tirada no final do melhor banho de mar do ano. Era sábado, este último sábado, e já passava das sete da tarde. Este é o sol das sete da tarde de que falava o meu amigo João Menezes.

Já não estávamos de férias, mas ao fim da primeira semana de regresso a Coimbra fugimos de novo para São Pedro de Moel, com a desculpa de que a bicicleta do Francisco ficara esquecida em casa da avó. As previsões meteorológicas não eram animadoras. Ainda assim, voltei a empacotar as toalhas e os fatos de banho. E em boa hora o fiz.

Quem conhece São Pedro, sabe que ali as previsões meteorológicas têm pouca credibilidade. Há qualquer coisa naquele pinhal, naquele mar, naquelas rochas, que tem vontade própria e se sobrepõe à matemática das frentes frias e dos anticiclones. São Pedro de Moel é imprevisível e volta a sê-lo três horas mais tarde e outra vez passadas mais três horas. Num só dia, podemos ali testemunhar uma mão cheia de paisagens distintas.

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Um nevoeiro assim, por exemplo, é capaz de demover os estreantes nestas andanças. O sinal de trânsito da fotografia poderia muito bem dizer ‘excepto conhecedores’, pois quem sabe, sabe que debaixo daquele manto se escondem promessas.

Digamos que se encarregava alguém de divulgar todas as manhãs o estado do sítio. Se as fotos fossem dissuasoras mas, ainda assim, houvesse quem arriscasse ir ver com os próprios olhos e lá encontrasse um dia convidativo, bastaria ao divulgador de serviço retorquir à boa maneira de Turner: «My job is to paint what I see, not what I know is there.»

Turner teria adorado São Pedro de Moel.

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Este ano aconteceu-me qualquer coisa que ainda não sei bem definir e que tenho até algum pudor em admitir. São Pedro de Moel foi, para mim, durante os últimos dez anos, um simpático substituto da ‘minha’ praia, o Guincho. Mas aconteceu-me qualquer coisa este ano. Não sei se foi do nevoeiro, da subida ao farol, do recital de poesia – com Inês Fonseca Santos e Filipa Leal-, do perfume morno e adocicado do pinhal, da bolacha americana, das noites (inacreditavelmente) amenas, da maneira como o Francisco ali pertence de coração, não sei se veio de fora ou se nasceu cá dentro. Aceitámo-nos um ao outro. E agora somos irremediavelmente um do outro.

Talvez seja da tardia idade.

«Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.»
(Regressos, in Como se desenha uma casa, de Manuel António Pina)

Manuel António Pina teria (terá?) adorado São Pedro de Moel.

Beijinhos grandes,

Marta

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Livros às camadas

por , em 7/9/14

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Queridas Senhoras,

queria partilhar e receber mais sugestões de livros para crianças que os adultos também gostem de ler. Os dois exemplos que tenho à mão, mas muitos mais haverá, são As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, e Os Livros que Devoraram o Meu Pai de Afonso Cruz.

O primeiro é um prodígio de vocabulário, uma maneira de dizer que já não estamos a habituados a ler ou a ouvir. Lograr em vez de conseguir. Palavras difíceis aos montes, termos caídos em desuso, metáforas de encanto (chovia como se a nuvens estivessem forradas de olhos), ironia ao pontapé, gozo descarado com os lugares-comuns.

O segundo é um ritual de iniciação. Uma viagem inaugural pela literatura mundial que mergulha, em jeito de aventura, nalguns dos maiores clássicos de todos os tempos.

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É daqui que retiro a passagem que explica exactamente aquilo que pretendo quando peço sugestões de livros para todas as idades:

“Sim, porque a leitura das coisas pode ter muitos andares. Soube pela minha avó que um tal Origínes, por exemplo, dizia haver uma primeira leitura, superficial, e outras mais profundas, alegóricas. Não me vou alongar por este tema, basta saber que um bom livro deve ter mais do que uma pele, deve ser um prédio de vários andares. O rés-do-chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civil, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima.”
(Os Livros que Devoraram o Meu Pai, p. 14-15)

Que outras sugestões têm?

Beijinhos a todas,

Céu

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Dirty talk

por , em 6/9/14

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Queridas Senhoras,

em poucos dias fiquei a saber que tenho pedras nos rins, um angioma no fígado, varizes no útero e a bexiga descaída. Como? Pois. Isto nem sequer é conversa para aqui, é para a sala de espera do Centro de Saúde. É que já me estou a imaginar ao pé das senhoras da minha idade a discutir varizes. Caramba, ao que a gente chega. Bexiga descaída? Mas quem é que me manda a mim ir ao médico?

Nesta altura do ano, de dois em dois anos, tenho por hábito marcar consultas para pedir análises, ver se está tudo bem, etc. Mas nunca tinha sido tão insultada na minha vida. Varizes no útero?! A tua mãe!

Fora de brincadeiras: tenho aquelas coisas todas, de facto, mas nada que inspire cuidados para já. Mas tenho de vigiar. Já viram que deprimente? Já tenho maleitas que requerem vigilância, que devo manter debaixo de olho. E ainda me faltam as análises, a prova de esforço, a mamografia e mais alguma coisinha que por aí venha.

Que vulnerável fico quando ando pelos médicos e a fazer exames! Se são brutos ou menos atenciosos, sinto-me ofendida. Se são afáveis e doces perante as minhas fraquezas, fico mariquinhas, sinto que estão a ser paternalistas.

Quando me falaram em bexiga descaída só me ocorreram as descrições de decadência física nos livros do P. Roth onde os homens têm sempre problemas na próstata. Pelo menos isso não me apanha.

Agora a sério: vão ao médico, façam os vossos exames de rotina e todos os que o médico mandar.

Ah! E façam os vossos exercícios do períneo. É válido para todas: grávidas, não-grávidas, recém-mamãs e daí em diante. O assunto não é lá muito falado (não tem grande glamour, é como falar de incontinência, que é o que nos espera se o períneo não estiver operacional – e pronto, a incontinência já foi oficialmente mencionada neste blogue) a não ser nas aulas de pré e pós-parto, mas é muito importante para todas as mulheres, principalmente as que já foram mães. É só mais uma rotina a acrescentar às 1001 que já temos de incorporar, certo?

 

Bom fim de semana, beijinhos a todas!

Céu

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Questionário ‘Ter 40′