A aventura de Camilo

por , em 17/8/16

Camilo CB Títulos a sair

Queridas Senhoras,

para encerrar a enfiada de posts sobre as leituras de férias, queria recomendar a colecção de Verão do Expresso Obra Essencial de Camilo Castelo Branco, uma selecção de oito livros coordenada por João Bigotte Chorão (entrevista a propósito aqui).

Livrinhos providenciais estes, que me acudiram quando esgotei a provisão que havia levado (a Lucia Berlin, o Cachapa e o quarto volume da saga Millennium).

Os mimosos volumes foram-se amontoando na mesinha de cabeceira (excepto Amor de Perdição, o primeiro, lançado a 16 de Julho) e eu digo assim, olha, vou ler o Camilo. Foi um ver-se-te-avias. O linguajar é de lamber os beiços (com a vossa licença),

Comecei pelo Eusébio Macário, uma sátira desabrida sobre um boticário minhoto, mais a mocetona da filha Custódia, o filho fadista, o padre da freguesia, amantizado com a fresca Felícia, cujo irmão Bento vem do Brasil para se fazer barão. Uma «esplêndida, imensa e perene gargalhada» nas palavras de A.M. Pires Cabral, autor do prefácio a esta edição.

Coisa diferente é A Brasileira de Prazins («o mais complexo dos seus romances» segundo Francisco José Viegas), a trágica história da pálida Marta de Prazins, enlouquecida de amor e forçada a casar com o tio sovina regressado do Brasil. (Mais detalhes no prefácio de Henrique Raposo).

Prossegui para as Novelas do Minho, volume com apenas duas histórias  (as novelas são oito ao todo), O Degredado e Maria Moisés, curiosas “noveletas” em que uma tragédia inicial se transforma em felicidade redentora.

Terminei (para já) em êxtase com o inesquecível Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, herói de A Queda de um Anjo. Um fidalgo das terras de Miranda, um “anjo” de irrepreensíveis costumes e leituras, casado com a feia mas fidelíssima prima Teodora, aceita fazer-se deputado nas cortes de Lisboa para defender os mais altos valores da pátria e repudiar os luxos e gozos da capital. Vem prevenido de presuntos e salpicões mas traz o coração impreparado para as belezas alfacinhas. Impagável Calisto! E grande, grande Teodora!

Volumes por publicar: O que fazem as mulheres, Retrato de Ricardina, Vinte horas de liteira.

 

Beijinhos a todas,

Céu

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A terra é tramada

por , em 16/8/16

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Queridas Senhoras,

não é bom fazermos alarde da ignorância mas vamos aos factos: nunca tinha lido nada de Possidónio Cachapa e o nome pouco significado tinha para mim. Sei agora que Materna Doçura, publicado em 1998, foi um celebrado primeiro romance, que houve outros, que há sete anos não publicava e que o muito aguardado Eu Sou a Árvore foi acolhido com pelo menos uma crítica bastante demolidora (e esta outra bem mais amena).

Disto tudo tive conhecimento depois de ler o livro. Antes de iniciar a leitura, não sei se pelo nome do escritor, pelo título do livro, pela aura que rodeou o seu lançamento, esperava uma obra muito introspectiva, filosófica, “difícil”.

Pois bem, Eu Sou a Árvore é um livro límpido, que se lê de uma penada, avidamente, com grande desejo de saber o que aconteceu e o que vai acontecer. Narrativa pura. Dizer que trata de “relações familiares” não é grande spoiler. A família é um grande tema literário, para mim dos melhores, e nunca cansa. Quando leio que determinado livro aborda as “relações familiares” sinto logo aquele frémito de curiosidade um pouco perversa. Porque a família, quer a nuclear – pai, mãe, filhos – quer a mais alargada, é tramada. Logo dá grandes tramas.

Vejamos. No centro do enredo temos Samuel e Jude (de Judite), o casal que se encontra numa noite de Santo António logo após o 25 de Abril e que vem a gerar três filhos: Laura, Esperanto e Vitória. Vamos andar de roda destas cinco personagens, para trás e para diante, juntas e separadas. Sobretudo separadas, cada uma na sua absoluta e perfeita solidão.

As longas e densas reflexões que tinha imaginado, não as encontrei. As grandes abstracções e a ausência de referências concretas que iriam pesar a leitura, ainda menos. Logo ao segundo capítulo estamos bem enraizados, num apartamento nas falésias de Sesimbra. Sesimbra? Também não estava à espera de um local assim tão próximo, tão definido.

Assim é. O território é elemento central no livro. Samuel é um rapaz de Lisboa que um dia vai ao Alentejo e decide que a sua vida há-de ser ali. Com ele leva a loura e esbelta Jude, de saia e cabelos compridos, cuja juventude e alegria ficam em Lisboa, numa noite de Santo António. À medida que lavra, aprofunda e conquista a terra, Samuel perde a capacidade de sequer tocar a família. Há-de ser cada um por si.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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- O que é aborrecido para ti?
- Nada, na verdade. Nunca me senti aborrecida.
Manual para mulheres de limpeza, Lucia Berlin
(pp. 318)

Queridas Senhoras,

como abordar o livro Manual para mulheres de limpeza de Lucia Berlin? Abro ao acaso e sai-me o conto Luto que começa assim:

Gosto muito de casas, de todas as coisas que elas me dizem, esse é um dos motivos por que não me importo de trabalhar como mulher de limpeza. É como ler um livro.

Ora aí está, esta pode ser uma abordagem. Os contos de Lucia falam das muitas profissões que ela teve na vida real, desde mulher de limpeza a auxiliar em hospitais, enfermeira, telefonista, professora. Para além de ter sido mãe de quatro filhos e alcoólica. Antes disso frequentou escolas de freiras e viveu uma infância em cidades mineiras dos EUA e do México. Uma vida nada aborrecida, é certo, mas também não me parece que Lucia fosse menina para se aborrecer facilmente.

Gosto de trabalhar nas urgências – lá conhecem-se homens, pelos menos. Homens a sério, heróis. Bombeiros e jóqueis. Passsam a vida a vir às urgências. Os jóqueis têm radiografias óptimas.

Não há desolação nestas histórias apesar da dureza de muitas das situações descritas (doenças, violações, maus-tratos, humilhações, alcoolismo em último grau) mas o conjunto de contos dedicados à profissão que dá título ao livro, é especialmente feliz.

Depois, à laia de apêndice, mandou-me descongelar o frigorífico com amoníaco e baunilha.
Amoníaco e baunilha. Isso fez-me parar de a odiar. Uma coisa tão simples.

As casas das patroas e as paragens de autocarro são os cenários destes contos em particular. Outros passam-se em hospitais, escolas, clínicas de desintoxicação, lojas de bebidas. Há várias lavandarias, locais extraordinariamente literários.

A lavandaria self-service do Angel fica Albuquerque, no Novo México. 4th Street. Lojas maltrapilhas e ferros-velhos, lojas de roupa em segunda-mão com catres militares, caixas de -meias desirmanadas, edições da Good Hygiene de 1940. Lojas de cereais a granel, motéis para amantes e bêbados, e velhas com cabelo pintado com hena que tratam da sua roupa na lavandaria do Angel.

As lavandarias são uma obsessão, o envelhecimento nem tanto.

Durante a maior parte do tempo, não me importo de estar a envelhecer. Algumas coisas dão-me uma pontada, como ver outros a andar de skate (…). Outras coisas dão-me pânico como as portas dos comboios. Uma longa espera antes de as portas abrirem depois de o comboio parar. Não é muito mas é tempo de mais. Não há tempo.
E lavandarias self-service. Mas elas já eram um problema quando eu era nova.

Os contos não têm uma organização cronológica ou temática evidente. Alternam entre várias idades, territórios, ambientes, sendo a narradora uma Lucia (com esse ou outro nome), em diversas fases da vida. Nalguns (poucos) o narrador é alterado, o ponto de vista muda, como em Quero ver-te sorrir:

Ela sorriu. Entrei no mundo tecnicolor deles, que cheirava a pão de milho e a malaguetas, a lima, a coentros e ao perfume dela.

Até sobre a doença e a morte (Lucia acompanhou o cancro da irmã Sally), há passagens cheias de vida e pressa:

Quando alguém tem uma doença terminal, o ritmo tranquilizador do tempo é estilhaçado. Depressa de mais, não há tempo, adoro-te, tenho de acabar isto, diz-lhe isso. Espera um minuto!

A última história chama-se Voltar a casa e fala de corvos.

Estava por acaso no alpendre da frente da minha casa quando os vi pela primeira vez. (…) o que me incomoda é só ter reparado neles por acidente. Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado, por assim dizer, sentada no alpendre das traseiras, não no da frente?

Depois de lermos este livro, percebemos esta ansiedade. Imaginem se Lucia pudesse ter estado ao mesmo tempo no alpendre da frente e no das traseiras.

 
Beijinhos a todas,

Céu

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De coração

por , em 21/7/16

By Heart by Tiago Rodrigues image credit Magda Bizarro

Crédito da foto: Magda Bizarro

Queridas Senhoras,

não sei se sabem algum poema de cor. Inteiro é difícil mas de certeza que vos vêm à cabeça versos de diferentes poemas. A mim, ocorre-me logo, não sei porquê, Aquela triste e leda madrugada. A Alice, quando tinha três anos, sabia recitar de cor, completo, Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura. E julgo que também o Pescador da barca bela / onde vais pescar com ela.

Em jeito de prenda de aniversário antecipada, ganhei um bilhete para ver ontem a peça By Heart, estreada em 2013, agora em reposição no Glorioso Verão – Festival Shakespeare, no Teatro Nacional D. Maria II. A peça é do Tiago Rodrigues, ex-aluno do Liceu da Amadora, director artístico do Nacional desde 2014 (A-ma-do-ra! A-ma-do-ra! A-ma-do-ra!).

Saber by heart, ou seja de cor, é interiorizar. Decorar matéria para o teste não tem grande interesse mas porque é, então, tão bonito e reconfortante saber poemas, ou versos, de cor?

Há aquele livro, o Fahrenheit 451, do Ray Bardbury, que Truffaut adaptou ao cinema, que é um dos textos de apoio a esta peça. Não li o livro nem vi o filme mas o enredo é conhecido. Numa futurista sociedade distópica, os livros são proibidos e queimados. A resistência ao regime consiste num exército de soldados-livro, que memorizam as obras para que estas não se percam.

Em By Heart Tiago Rodrigues chama dez pessoas do público ao palco. Ao longo do espectáculo essas pessoas irão aprender um soneto de Shakespeare. Tão simples quanto isso. Ou talvez não. É difícil aprender um poema. Para saber um poema de cor, temos de o interiorizar ou mesmo ingerir e digerir ao longo dos anos. Aquela triste e leda madrugada.

By Heart é uma peça sobre teatro, livros, poesia, memória e uma avó transmontana que gostava de ler. No final da vida, já depois dos 90 e com pouca vista, pediu ao neto que lhe indicasse um único livro. Iria decorá-lo para quando já não fosse capaz de ler.

Decorar. Não é tão bonita a palavra, afinal?

Repitam comigo, agora:

Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim.

William Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura

(Nota: a peça está em cena até sábado, 23 de Julho. Julgo que para o último dia ainda há bilhetes).

Beijinhos a todas,

Céu

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Albertina

por , em 14/7/16

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Queridas Senhoras,

de Lisboa para o Furadouro (Ovar), mergulhei na segunda-longa metragem de Paulo Rocha. Mudar de Vida (1966) passou na última sexta-feira, 8 de Julho, integrado no ciclo que a RTP2 está a dedicar ao realizador.

Depois de Os Verdes Anos, fiquei apaixonada pela Isabel Ruth e estava desejosa de vê-la neste filme. Mas a personagem dela, bela e intensa, só entra lá para o meio. De início é Júlia (Maria Barroso), o seu exacto oposto, quem preenche o ecrã juntamente com Adelino (Geraldo Del Rey), o improvável galã do Furadouro (notável a parecença com Alain Delon).

Numa penada: Adelino voltou do Ultramar para encontrar a antiga namorada casada com o irmão e com dois filhos postos no mundo. Desgraça. Tragédia. Amargura. Arrependimento. Inevitabilidade. Júlia arca com todo este peso sobre as costas, habituadas a vergarem-se ao trabalho impiedoso no areal do Furadouro.

Adelino regressou para nada, para o nada. Já não pertence aqui. A namorada é de outro, os filhos são de outro e nem para o trabalho no mar serve, já que veio da guerra com um problema de espinha que o deixa inapto para cargas pesadas. E tudo o que aqui há são cargas pesadas, asfixiantes, uma comunidade piscatória claustrofóbica e sem horizontes. Já nesse tempo o mar não dava, já não havia peixe. É então que surge a bela Albertina, assaltando a caixa de esmolas da capela, fugindo, correndo, libertando-se.

Como Ilda, esta Albertina é uma força da natureza. Menos inocente, mais marcada pela vida, mas aqueles olhos… estou presa aos olhos de Isabel Ruth.

 

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

Deusas em Fúria é um filme de raparigas e a sinopse tem semelhanças com a de uma dessas comédias dramáticas ligeiras, de catarse feminina (ou masculina): um grupo de amigas junta-se para uma espécie de despedida de solteira em casa da noiva, em Goa (a casa do pai, já agora, que faz questão de manter o ambiente português, é referido às tantas). Para além desta premissa, outra coisa que torna o filme ligeiro é o facto haver muitas cenas tipo videoclip: amigas a dançar, amigas a chapinhar à beira-mar em contraluz, amigas a passear de jipe, de braços no ar, amigas no SPA, amigas a comer, a beber e a brindar. Raparigas como nós.

A diferença está na história de cada uma delas, oriundas de várias cidades da Índia, e representantes da mulher moderna numa sociedade que tem sérias dificuldades em lidar com a emancipação feminina, onde a subjugação da mulher está tão enraizada que a violação, mais do que tolerada, parece ser legitimada (a estatística citada é a de uma violação a cada vinte minutos).

Frieda, a noiva, é fotógrafa de moda. Há a empresária de sucesso, a actriz que luta contra os estereótipos de Bollywood, a cantora de bar à procura do próximo sucesso, a esposa perfeita que quer o divórcio, a actvista revolucionária, a empregada doméstica que não se submete. Para completar o ramalhete, ainda temos uma avó centenária que entra em cavalarias com as raparigas e, na outra ponta, uma menina de seis anos que anda por ali a documentar tudo com o iPhone da mãe.

Todas e cada uma destas mulheres se revoltam contra uma sociedade patriarcal, machista e misógina, que idolatra as deusas mas espezinha as mulheres. Curioso é que os pequenos detalhes com que o filme abre, mostrando as situações de misoginia que cada uma vive, podiam acontecer aqui mesmo. É o piropo porco no ginásio, é o realizador no set de filmagens que pede mais abanar de ancas e de rabo, é o ataque verbal no meio na rua, é a humilhação em contexto profissional. Mais tarde, todas serão apontadas pela polícia por beberem na praia em trajes impróprios, ou seja, calções e t-shirt.

Deusas em Fúria é um filme com o qual facilmente nos identificamos, não tanto pelo girl-bonding como pelo ataque à condição feminina.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′