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Queridas Senhoras,

tal como prometido no post anterior, queria falar-vos do No Café da Juventude Perdida, o segundo Modiano da minha vida, lido logo a seguir a Um circo que passa.

Os dois livros são extremamente parecidos. O mesmo cenário (as ruas, os bairros, os hotéis, os cafés de Paris), personagens idênticas (jovens temporariamente à deriva). Gostei mais deste último. É mais “livro”, temos mais informação, mais enredo, personagens mais densas.

O mais fascinante é a descrição da teoria das zonas neutras e dos ausentes que as habitam.

“Lembrei-me do texto que tentava escrever quando conhecera Louki. Intitulara-o As Zonas Neutras. Existiam em Paris zonas intermédias, no man’s land, em que nos encontrávamos na orla de tudo, em trânsito, ou mesmo em suspenso. Zonas que proporcionavam uma certa imunidade. Poderia chamar-lhes zonas francas mas neutras era mais exacto. (…)” (p. 82)

“A rue d’n Argentine, onde eu morava num quarto de hotel era de facto uma zona neutra. Quem poderia ali descobrir-me? (…) Disse-lhe que tinha a certeza que o tipo morava da minha rua, como dezenas de outros, também declarados «ausentes».”(p. 83)

“«As zonas neutras têm pelo menos esta vantagem: são apenas um ponto de partida e, mais tarde ou mais cedo, abandonamo-las.»” (p. 84)

Qual é o fascínio destas zonas neutras? São universos paralelos (essa expressão aparece a dada altura, julgo). Mas muito acessíveis, basta transpor uma rua, uma ponte e atravessa-se uma fronteira invisível. Onde o tempo não conta e podemos caminhar para sempre.

“Caminhávamos sem objectivo preciso, tínhamos toda a noite à nossa frente. (…) Os locais não tinham importância nenhuma, confundiam-se uns com os outros. O único objectivo da nossa viagem consistia em ir AO CORAÇÃO DO VERÃO, onde o tempo pára e onde os ponteiros do relógio marcam sempre a mesma hora: meio-dia.” (p. 93)

As zonas neutras são refúgios, abrigos, exílios. Conferem imunidade, quase invisibilidade a quem as habita. O tempo não passa, dilata-se. Na eternidade é sempre Verão.

Beijinhos a todas,

Céu

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A noite multicultural

por , em 25/1/15

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Queridas Senhoras,

a S. fez anos. Fomos jantar fora para celebrar, o grupinho habitual. Local escolhido: The Soul Kitchen, um restaurante de influência jamaicana aberto há três meses na zona de Arroios. Uma surpresa completa, um sucesso, uma daquelas noites que vamos recordar por muito tempo. (Lembram-se quando fomos ao jamaicano?)

O que faz o sucesso de um sítio numa altura em que abrem meia-dúzia de novos locais por semana? Este tem vários trunfos, na minha opinião. Para além da cozinha diferente, a localização é interessante. Não está em nenhuma das zonas óbvias. Fica numa transversal da Rua Morais Soares, numa rua residencial sossegada e trabalha à porta fechada. (A localização fez-me pensar nas “zonas neutras” do livro No Café da Juventude Perdida, o segundo Modiano que li, empréstimo da Senhora Marta, de que falarei num próximo post).

No interior a configuração é a de uma casa, com recantos acolhedores, mesas quadradas de sala de jantar, aquecedores antigos. Ao fundo a porta das traseiras dá para um pátio com sofás onde no mês de Outubro, quando abriu, ainda se fizeram alguns dos proverbiais sunsets. Agora que os dias começam a ficar maiores querem começar a abrir ao domingo a partir do final da tarde, para petiscos e música no pátio. (Deve ser ainda melhor do que soa.)

Para a mesa vieram pastéis de carne e vegetais, gaucamole, hummus, estufado de rabo de boi, caril de camarão, frango tostado com molho jerk. E azeitonas e quadradinhos de pão alentejano torrado com azeite e orégãos. Um festim. Tudo isto acompanhado por um serviço impecável, atento, célere, sem tempos mortos mas sem imposições. Juntem ainda três sobremesas para dividir (como tudo o resto, aliás) e o preço de 18 euros por pessoa parece-me justíssimo.

Seguimos depois para o Intendente no nosso périplo semestral para ver como param as modas. (Pelo caminho apanhámos uns espanhóis que só queriam saber onde ficavam os bares frequentados por “pessoas de outros países”. Porque, diziam eles, “os portugueses só falam com portugueses”. Não estou por dentro do que se passa na noite mas pensei que agora, com anos de Erasmus, era tudo uma grande família. Pela minha parte, tentei dizer que sim, hablamos com pessoas de outras línguas. Mas que sei eu?).

No agora tão falado Intendente, as ditas modas são mais alternativas, já se sabe (embora já não me entenda nestes conceitos, os sítios que pegam estão sempre a abarrotar, por isso não são grande alternativa, enquanto suponho que os outros vão ficando às moscas). Excepto umas poucas almas na esplanada do largo, estava tudo enfiado na Casa Independente, uma espécie de Pensão Amor mais linha dura, menos cabaret. Sobem-se as escadas, encontram-se portas e salas onde não cabe um alfinete, não se percebe bem o sítio mas depois percebe-se. É mesmo assim. Felizmente conseguimos descobrir o caminho para o terraço, o local mais desafogado do edifício.

Deixámos os hipsters em paz e seguimos em direcção ao Martim Moniz por uma avenida deserta e pouco convidativa, iluminada pelas lojas de mobiliário espelhado. No final encontrámos a praça vazia, desolada, com tudo fechado. A mudança neste eixo da cidade tem ocupado páginas de revistas e é um facto que muito mudou. Mas nesta noite fria de Janeiro, ainda para mais um sábado, não sentimos que fosse seguro ou sequer muito recomendável percorrer estes caminhos a pé. (A minha mãe que não me ouça.)

 

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

a Alice e o João andam a ler um livro sobre animais. Cada página tem uma ficha com as principais características, modo de vida, curiosidades, etc., acerca de cada animal. Quando chegou a vez do papagaio, descobrimos, divertidos, que esta ave rara pode ser “tão esperta como uma criança de três ou quatro anos.”

Risota geral. O papagaio é quase tão esperto como o mano! E é mais esperto do que o Gusta! Entusiasmada, a Alice comentou que, se fosse possível levar o bicho para o 1.º ano, e por aí fora, será que ele aprendia tanto como os meninos? (Por esta lógica, e como parece que a espécie pode viver até aos 100 anos, podia chegar a professor jubilado!).

Dia seguinte: o João conta que na escola não teve ginástica porque houve um concerto. Que giro! Então e que instrumentos tocaram? “Vários. Xilofone, percussão…”. Como disse??? Olhámos estupefactas para ele. Percussão?? O que é isso? “São instrumentos de bater” (e faz o gesto de tocar tambor). O pirralho que ainda não diz as palavras todas como deve ser e até anda na terapia da fala, sabe dizer “per-cu-ssão”.

Conclusão científica: a não ser que conheçam um papagaio baterista, o João já é oficialmente mais esperto do que um papagaio.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

li o meu primeiro Modiano, Um circo que passa. Sensação estranha. O livro é extremamente breve, elíptico. Um rapaz conhece uma rapariga em Paris. Vão a sítios. Conhecem pessoas. Trocam algumas palavras. No final, não sabemos muito mais do que isto.

Por contraste com tudo o que não é dito, há uma quase obsessão em referir os nomes dos lugares. As ruas, as praças, as estações, as pontes, os hotéis, os cafés de Paris são identificados a todo o momento. As personagens movem-se como num mapa. Combinam encontros no café tal, passam por esta e por aquela rua, atravessam os jardins, vêm luzes nas janelas dos prédios número tal e tal da rua tal. As personagens movimentam-se com leveza, como se não estivessem presas a nada. Será a referência constante aos lugares uma forma de permanecer, de criar memórias?

De vez em quando o passado intromete-se nestas deambulações pela cidade. É quase sempre domingo e o rapaz, tão novo ainda, recorda outros domingos. Coisas que aconteceram apenas há três anos parecem pertencer a um passado remoto. Os pais primam pela ausência, o rapaz vive sem coordenadas, não fora o mapa de Paris.

Ao mesmo tempo, às vezes caminha como se “estivesse já numa cidade estrangeira”. Os “farrapos” da sua vida anterior vão-se desprendendo de si. Há um plano de partir para Roma, começar outra vida. A primeira preocupação é arranjar um mapa da cidade. Saber os nomes das ruas e dos bairros.

A brevidade e a leveza da história convivem com uma imensa melancolia. Sopra sempre uma brisa cinzenta mesmo quando o céu está azul. O céu está muitas vezes azul mas a Primavera parece distante, uma impossibilidade. Há o sonho de caminhar na Primavera pelas ruas arborizadas de uma cidade real ou imaginária. Paris, Roma ou onde quer que possamos fazer uma cruz no mapa e encontrar o nosso lugar.

Beijinhos a todas,

Céu

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Borgen

Queridas Senhoras,

não sei se têm acompanhado, ou se já passaram os olhos, pela nova série de origem dinamarquesa que a RTP2 está a transmitir desde o início do ano. Passa diariamente, de segunda a sexta, às 22h15. Chama-se Borgen (designação do parlamento dinamarquês) e acompanha a vida profissional e pessoal da primeira-ministra da Dinamarca, Birgitte Nyborg.

Não vi todos os episódios nem sabia nada sobre a série (aclamada pela crítica e pelo público, vencedora de vários prémios). Mas assim que lá calhei, fiquei. Os olhos azuis da ministra prendem-nos à primeira cena. É irresistível acompanhar aquela mulher ainda jovem, bonita, com um olhar de menina, enquanto se move pelos meandros da política doméstica e internacional e, ao mesmo tempo, lida com os dramas familiares de um marido e dois filhos.

De dia, Birgitte tem de decidir sobre a retirada ou não das tropas dinamarquesas do Afeganistão. À noite, tem de cozinhar um jantar caseiro para a filha adolescente que reclama da falta de mimos da mãe mas depois não se dá ao trabalho de aparecer para jantar. Enquanto isso, o marido, que ala ama e que a ama de volta, quer o divórcio. Não resistiu às pressões do cargo da mulher.

Junto a Birgitte Nyborg está sempre o spin doctor Kasper Juul que lhe ajeita o tom e o conteúdo dos discursos e a cor da camisa para se dirigir aos jornalistas. A imprensa é outra peça fundamental neste jogo de intriga política e familiar. Temos os editores sem escrúpulos, os jornalistas com ideais e os diferentes ângulos de uma história.

Os episódios são curtos (30 minutos) e fechados, tanto quanto pude perceber. Cada um apresenta um caso, um conflito, que não fica em suspenso, é resolvido no próprio dia. Para além de muito aliciante, esta fórmula permite pegar na série em qualquer altura. Para uma análise mais política podem ler esta opinião.

Birgitte Nyborg entra directamente para a minha galeria de personagens femininas do momento, onde figuram Alicia Forrick (The Good Wife) e Annalise Keating (Como defender um assassino). Três mulheres fortes, debatendo-se com os problemas de uma vida profissional exigente que se cruza permanentemente com as emoções de uma vida pessoal muitas vezes posta em causa.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

ontem não houve Birdman para ninguém pelo que ainda não tenho nada para dizer sobre um dos filmes mais falados das nomeações para os Óscares. Em compensação posso apresentar-vos a recensão de Abelha Maia – O Filme.

Os miúdos acharam que era a vez deles irem ao cinema e nós tivemos que amochar, que remédio. (Ideia: arranjar um sistema de babysitter, alguém que veja o filme com eles enquanto os pais aproveitam para ir a outra sessão). Estou a ser mazinha, é claro de vez em quando gosto de ir com eles ao cinema, se for para ver um BOM filme.

A surpresa é que a Abelha Maia não está nada mal. Atenção, é um filme bastante infantil, digamos assim, mais no tipo de animação do que propriamente na história e nos diálogos. Portanto é bastante aconselhável para meninos pequenos, eventualmente para uma primeira experiência cinematográfica em sala.

E como é que um filme adequado para crianças de três anos pode não aborrecer um adulto? A verdade é que não aborrece. Os bonecos são fofinhos e queridos mas de uma forma que não é piegas. O trio constituído pela Maia, pelo seu amigo Willy e pelo vespão bebé é simplesmente amoroso. E ainda temos o gafanhoto Filipe, as formigas trapalhonas, o escaravelho do cocó e muitos outros. E piadas giras, que até arrancam uma risada ou outra.

Pelo meio há mensagens fortes e nada tolas. Obedecer cegamente às regras nem sempre é boa ideia. Mais vale conhecer o outro do que desconfiar e temer. Aquilo que parece um obstáculo intransponível às vezes não é mais do que um espantalho sem vida. É mais o que nos une do que o que nos separa. Todos temos um lugar no mundo que pode não ser exactamente o que os outros esperam ou projectaram para nós.

Só não contem com a música que eternizou esta série no nosso imaginário. Não sei por que mil abelhões mas não há “Lá num país cheio de flores…” para ninguém. Que pena….

Beijinhos a todas e uma boa semana, faça chuva ou faça sol!

Céu

 

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Questionário ‘Ter 40′