Parabéns, Susana!

por , em 17/4/14

Parece mentira. Apanhas-me todos os anos e parece-me sempre mentira, mas este ano é mais grave. Custa-me a crer que já tenhas 40, a miúda rebelde e refilona, com uns caracóis indomáveis como o feitio e uma sede, uma curiosidade, uma vontade de desbravar territórios desconhecidos… E olha onde estás hoje, aos 40, depois de tantas voltas que a vida deu. Estás de volta.

Deixo-te um bocadinho da nossa Duras, uma espécie de oração de graças, e uma canção que há-de sempre pôr-nos a dançar.

«Estou satisfeita por ter vivido esse instante, esse incomparável instante.» MD, in Hiroshima Meu Amor

Feliz aniversário, Senhora da minha idade. E dança, dança, dança todos os incomparáveis instantes que puderes.

Beijinhos grandes,

Marta

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Queridas Senhoras,

incumbe-me a senhora Marta de escrever sobre um post de apoio/incentivo às senhoras da nossa idade que querem começar a correr mas ainda têm algumas reticências. Vamos a isso! Se tiverem mais questões, coloquem por favor as vossas dúvidas e eu tentarei encontrar respostas.

ANTES

Comprar 1 ou 2 pares de ténis adequados
- Como não vamos (por enquanto) correr maratonas, não precisam de ser ténis extremamente avançados (i.e. caros). Quaisquer ténis indicados para corrida servem. Que isso não seja desculpa para não começar (o meu combate é contra as desculpas, faço tudo para não arranjar desculpas). Digo dois pares em vez um pela mesma razão: se um ficar sujo/molhado/estragado têm logo outro à mão. E se correrem todos os dias, convém alternar o calçado.

Comprar um ou dois soutiens de desporto
- Os ténis e o soutien são o único equipamento “técnico” realmente indispensável. Não costumam ser baratos. O que eu descobri desde que comecei a correr é que o Lidl (supermercados) faz frequentemente promoções de roupa e calçado desportivo. Os meus soutiens são de lá, assim como os ténis, excepto o primeiro par que tive que é de “marca”.

Prever um impermeável para os dias de chuva
- Não é necessário comprar um daqueles desportivos todos artilhados. Qualquer impermeável largo e confortável serve. Convém tê-lo por causa das desculpas. Uma chuvinha molha-tolos (ou totós) não pode ser motivo para ficar em casa.

O resto da roupa
- É como se sentirem melhor. O importante é estarem muito confortáveis, a roupa não deve incomodar nem ser empecilho de forma nenhuma. Por que senão, em vez de correr, estamos a ajeitar as calças, a compor a t-shirt, a puxar as meias. Hoje em dia tenho meias desportivas, uma série de leggings, casacos de fato de treino, etc. que fui adquirindo ao longo do tempo. Mas de início não tinha nada excepto um par de ténis. Vai-se improvisando. Ah! uma das coisas que arranjei logo de início foi uma pequena bolsa para levar as chaves e algumas moedas (se porventura quiser comprar pão no regresso a casa).

O que comer antes de correr
- Corro de manhã muito cedo, pouco tempo depois de acordar. O que me habituei a comer antes da corrida: uma banana com mel e canela. Não convém ingerir lacticínios nem nada muito pesado. Fruta é uma boa alternativa, acompanhada por exemplo de tosta, bolacha ou bolo seco. Há pouco tempo descobrir que se beber chá preto antes de correr tenho mais força nas pernas. Não sei se é prejudicial ou não. Sei que resulta! Também sei que beber café meia hora antes do exercício faz acelerar o metabolismo e gastar mais calorias.

Aquecimento
- Não é preciso gastar muito tempo, cinco minutos bastam, mas é essencial aquecer os músculos, espevitar as articulações, principalmente se vamos correr de manhã e o corpo ainda está perro. Costumo ter especial atenção com os joelhos e tornozelos.

Consultar o médico
- Manda o bom senso, se não estamos habituadas a fazer desporto, consultar o médico antes de iniciar qualquer actividade desportiva, sobretudo se for intensa. Mesmo que estejamos habituadas é aconselhável fazer análises de dois em dois anos para saber se está tudo ok.

DURANTE

Andar e correr
- Se não quiserem começar logo a correr, optem por andar. No local onde costumo correr há um grupo jeitoso que já anda por ali há muito tempo. A maioria são pessoas de 50, 60 e 70 anos. Muitas delas faziam/fazem apenas caminhada e não corrida. Depois algumas começaram a intercalar a caminhada com a corrida. Por exemplo, correm uma volta (700 metros), andam duas. Pelo que sei, é aconselhável começar assim, um bocado a andar, um bocado a correr. Julgo até que isso tem mais benefícios do que correr tudo seguido.

O percurso
- Escolham o percurso o mais agradável possível mas, lá está, que isso não sirva de desculpa. Eu não gosto muito de correr às voltas, em circuito, mas durante a semana é isso que faço. E arranjei estratégias para que o percurso seja mais agradável. Por exemplo, agora que chegou a Primavera é delicioso sentir o cheiro das flores frescas pela manhã. Uma coisa que também noto é que os primeiros dois quilómetros custam mais do que os dois seguintes. Por isso não tomem os primeiros sinais de fadiga ou recusa do corpo como definitivos. Depois do esforço inicial, o corpo adapta-se. E é aqui que o chá preto também tem ajudado (mas não se fiem nisto, não sei se faz bem!).

Duração
- Costumo correr 6 km durante os dias de semana e 8 km ao fim-de-semana quando tenho mais tempo. O tempo que gasto, desde que saio até que regresso a casa, é em média uma hora (menos durante a semana, mais ao fim de semana). É o tempo que tenho disponível e penso que é suficiente. Prefiro correr um bocado todos os dias do que uma grande distância uma ou duas vezes por semana. Adaptem o percurso e a duração da corrida às vossas circunstâncias.

Companhia
- Se gostam de correr acompanhadas e se têm facilidade em arranjar companhia, força. Duas amigas podem juntar-se e puxar uma pela outra. No entanto, o mais provável é que seja difícil conciliar horários, vontades, etc. E é claro que não ter companhia não pode ser desculpa. Para muita gente (não é o meu caso), a música é indispensável e boa parceira.

 
DEPOIS

Alongamentos
- É essencial estirar os músculos depois da corrida e é um momento que adoro. Aqueles 5/10 minutos a seguir são profundamente recompensadores. A energia a circular pelo corpo é super revigorante. Costumo alongar bem as pernas, os braços e fazer torções e retroflexões para descomprimir a zona lombar (este palavreado vem do ioga, cujos movimentos incorporo nesta fase).

O que comer depois do treino
- A seguir à corrida tomo o pequeno-almoço como normalmente (em geral iogurte natural e torrada). Não ingiro qualquer suplemento nem nenhum reforço especial por andar a correr. Habituei-me foi a comer uma banana por dia porque realmente é uma fruta muito prática e saciante. De resto como sopa ao almoço e jantar, três ou quatro peças de fruta por dia e tremoços ao lanche. Quando me lembro, como os benditos frutos secos mas é menos prático e mais caro do que os tremoços.

O resto do dia
- Sinto-me sempre melhor nos dias que corro do que nos outros. Sei que nem sempre é possível, mas sou cada vez mais adepta de fazer exercício todos os dias. O dia corre melhor, a cabeça está mais fresca, o corpo responde melhor às solicitações e à noite o sono é mais profundo. Contudo, penso que quem corre ao final do dia pode experimentar dificuldade em adormecer.

Hábito
O objectivo deve ser fazer da corrida um hábito, algo que não se questiona. Faz-se e pronto. Para que se torne um hábito só temos que nunca desistir. É um dia a seguir ao outro e quando damos por nós já se entranhou.

Vamos lá?

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

partilho convosco a mensagem deste Dia Internacional do Livro Infantil. Trata-se de uma Carta às crianças de todo o mundo, escrita pela autora irlandesa Siobhán Parkinson e traduzida para português por Maria Carlos Loureiro, da  Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas.

«Os leitores perguntam muitas vezes aos escritores como é que escrevem as suas histórias – de onde vêm as ideias? Da minha imaginação, responde o escritor. Ah, sim, dizem os leitores. Mas onde fica a imaginação, de que é que ela é feita, e será que todos temos uma?

Bem, diz o escritor, fica na minha cabeça, claro, e é feita de imagens e palavras e memórias e vestígios de outras histórias e palavras e fragmentos de coisas e melodias e pensamentos e rostos e monstros e formas e palavras e movimentos e palavras e ondas e arabescos e paisagens e palavras e perfumes e sentimentos e cores e ritmos e pequenos cliques e flashes e sabores e explosões de energia e enigmas e brisas e palavras. E fica tudo a girar lá dentro e a cantar e a parecer um caleidoscópio e a flutuar e a pousar e a pensar e a arranhar a cabeça.

Claro que todos temos uma imaginação: se assim não fosse, não seríamos capazes de sonhar. Contudo, nem todas as imaginações são feitas das mesmas coisas. A imaginação dos cozinheiros tem sobretudo paladares, e a dos artistas mais cores e formas. Mas a imaginação dos escritores está cheia de palavras.

E nos leitores e ouvintes das histórias, as imaginações fazem-se com palavras também. A imaginação do escritor trabalha e gira e molda ideias e sons e vozes e personagens e acontecimentos numa história, e a história é apenas feita de palavras, batalhões de rabiscos que marcham ao longo das páginas. E depois chega o leitor e os rabiscos ganham vida. Ficam na página, parecem ainda rabiscos, mas também brincam na imaginação do leitor, e o leitor começa igualmente a desenhar e a rodar as palavras de modo a que a história se crie agora na sua cabeça, tal como tinha acontecido na cabeça do escritor.

É por isso que o leitor é tão importante para a história como o escritor. Há apenas um escritor para cada história, mas há centenas ou milhares ou mesmo milhões de leitores, na própria língua do escritor ou traduzida para muitas línguas. Sem o escritor, a história nunca teria nascido; mas sem os milhares de leitores em todo o mundo, a história não viveria todas as vidas que pode viver.

Cada leitor de uma história tem alguma coisa em comum com os outros leitores da mesma história. Separadamente, mas também em conjunto, eles recriam a história do escritor com a sua própria imaginação: um ato ao mesmo tempo privado e público, individual e coletivo, íntimo e internacional. Isto deve ser o aquilo que o ser humano faz melhor.

Continua a ler!»

Este ano sinto esta data de uma forma diferente. Depois das experiências que já fiz na área da escrita para miúdos, pequenas edições de autor com as maravilhosas ilustrações da Mariana Rebocho, decidi concorrer ao Prémio de Literatura Infantil Pingo Doce. A história está alinhavada, agora faltam os acabamentos. O processo em si está a ser uma descoberta, um experiência estimulante (um pouco alucinante até). Logo, só o processo em si já está a valer a pena.

Beijinhos a todas e boas leituras aí em casa.

Marta

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Um cabaz e uma panela

por , em 1/4/14

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Queridas Senhoras,

gostaria de partilhar convosco duas alterações importantes na minha busca por uma alimentação mais saudável e equilibrada.

A primeira é que passei a encomendar todas as semanas um colorido cabaz biológico de frutas e legumes. Há várias empresas a fornecer este serviço, a minha escolha recaiu sobre a Pede Salsa. Há já algum tempo que a tinha debaixo de olho depois de ter sido seduzida pela imagem daqueles viçosos cabazes que alguém partilhou no facebook.

Incentivada por uma amiga que recebe os cabazes da Quinta do Arneiro, decidi experimentar. Optei pela Pede Salsa também porque foi a única que encontrei com um cabaz pequeno a 10 euros. Outras empresas têm encomendas mínimas de 15 ou 20 euros. O cabaz S da Pede Salsa pesa 4,5 kg e inclui sete variedades de produtos, entre frutas e legumes. Não me dá para a semana toda mas dá para confeccionar uma boa sopa (e meia, talvez) e fornece-me fruta para três dias. Sou péssima em contas e contabilização de gastos mas julgo que sai um pouco mais caro do que o equivalente não biológico, da mercearia ou do supermercado. Mas penso que a diferença compensa. Pelo sabor, pelo lado prático da entrega e por providenciar variedade de semana para semana.

A liberdade de escolha é uma coisa muito boa mas não ter de escolher, às vezes, também sabe muito bem. Tenho, e frequento, várias mercearias ao pé de minha casa. À porta do trabalho tenho um supermercado biológico, para além do “melhor supermercado da Grande Lisboa”, segundo várias opiniões, onde nunca vou porque me chateia e porque é caro (El Corte Inglés). Pois apesar desta vasta selecção à minha disposição estou a habituar-me muito bem às escolhas que a Pede Salsa faz por mim, já vai para cinco semanas.

Já usei vários legumes que não costumava consumir em casa (por falta de hábito, rotina) e a diversidade que eles me sugerem leva-me a diversificar ainda mais quando vou às compras. Tento seguir a regra de quanto mais colorido melhor e adquirir vegetais de todas as cores, para consumir crus e cozidos.

E assim chegamos à segunda alteração importante. A minha querida colega e amiga Paula deu-me (dada, assim mesmo de generosidade), uma panela de bambu para cozer a vapor.

bambu

Eu já cozia legumes a vapor de vez em quando, de forma improvisada, quando tinha pachorra. Agora, com aquela pequena e genial invenção, ganhei um incentivo extra para acompanhar mais vezes as refeições com legumes cozidos. Que preparo para o jantar e para a marmita do dia seguinte. Outras vezes, claro, acompanho com uma bela salada.

Na senda de uma cozinha mais fresca e saudável falta-me agora a história dos sumos detox. Ainda não tenho uma máquina para transformar a couve, a abóbora e o aipo naqueles sumos maravilha do Instagram.

Mas eu chego lá :)

Beijinhos a todas,
Céu

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Sob sigilo

por , em 31/3/14

 

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Queridas Senhoras,

hesitei em escrever sobre este assunto. Por causa do sigilo e assim. Porque tem a ver com trabalho e, segundo consta em pelo menos 33752 artigos sobre estas questões, as “entidades empregadoras” e/ou os “potenciais empregadores” andam a esmiuçar as redes sociais, os blogues e os nossos perfis em tudo o que (virtualmente) mexe.

Mas como seria demasiado optimista achar que tanta gente (e gente importante, com responsabilidades, com centenas de linkedins para analisar) anda a perder tempo aqui no nosso cantinho, vou arriscar.

A semana passada fui a uma entrevista de emprego. Houve de facto alguém que viu o meu CV (entre as centenas que chegam em resposta a todos os anúncios, segundo os boatos que correm) e achou que valia a pena falar comigo, apesar da minha desastrosa data de nascimento: 1974.

A verdade é que há 20 anos que não era chamada para uma entrevista (estou a exagerar mas não muito). De vez em quando respondo a um anúncio ou outro, que me parece potencialmente interessante mas NUNCA sou chamada. Dizem-me que acontece muito, mesmo que o candidato tenha a idade ideal, que anda ali entre os 28 e os 32, mais coisa menos coisa.

A sério, fiquei contentíssima por ter sido chamada, foi como se uma porta encerrada a ferros se tivesse entreaberto. E depois pus-me a pensar como é ridículo achar (os próprios, as empresas, a sociedade em geral) que 40 anos é muita idade para contratar alguém.

Tenho muito mais energia agora do que aos 20 anos. Aos 20 anos ia à faculdade umas horas e depois ia para casa estirar-me no sofá. E se fosse preciso andava cansada. (Se pudesse, eu com 40 anos estava agora a abanar o meu eu de 20). Agora faço meia dúzia de coisas ao mesmo tempo e cerca de três dúzias por dia. NA-BOA.

Portanto, fisicamente sinto-me melhor. Sou muito mais despachada e tenho uma maior capacidade de resolver problemas.

Expliquem-me outra vez: qual é mesmo a razão para as empresas não contratarem pessoas acima dos 40 anos (ou até 35)?

Ah, por acaso até já tenho os filhos crescidinhos, não requerem as atenções constantes dos bebés, e entretanto ainda ganhei, graças a eles, um treino de gestão de tarefas de fazer inveja a muitos programas de trainees. Que vou aperfeiçoando diariamente, sempre com novos desafios e a aquisição de novas competências (ex. resolução de puzzles).

Expliquem-me outra vez: qual é mesmo a razão para as empresas não contratarem pessoas acima dos 40 anos (ou até 35)?

Uma das razões que se costuma apontar é que pessoas mais velhas têm expectativas de salários mais altos. Ok. Naturalmente só mudaria de emprego se me oferecessem um salário de dois mil euros, mais seguro de saúde, entre outras regalias. Ah! Ah! Ah! Acreditaram? Estamos em Portugal e a minha área é a das ditas ciências sociais e humanas. Estamos a falar de um universo em que mil euros é considerado um bom salário.

Portanto também não é isso. Sinceramente não tenho perspectivas nem expectativas de alguma vez vir a auferir um grande salário. Não tenho jeitinho nenhum para ganhar dinheiro. Mas acho que tenho jeito para trabalhar. Gosto genuinamente de estar envolvida no trabalho, de participar em novos projectos e até, imagine-se o cliché, de aceitar novos desafios.

Não vou dizer que me sinto como se tivesse 20 anos porque nessa idade era o raio de uma miúda preguiçosa que passava demasiado tempo estirada no sofá. Aos 30 já fazia qualquer coisa mas ainda estava muito mal habituadinha. Agora é que estou no ponto.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Queridas Senhoras,

hoje comecei o dia com este vídeo. Devo dizer-vos que já foi há umas horas e ainda estou a recuperar o equilíbrio. Vou recomendar-vos que o vejam primeiro e que só depois, se vos apetecer, continuem a ler este post, que falará sobre a amizade, sobre algumas das minhas recordações da infância e sobre uma combinação de rum e coca-cola muito especial.

Céu, podes ver sem som, só perdes a canção de fundo (I’d Do Anything for Love (But I Won’t Do That), dos Meatloaf).

A perda do cabelo terá, possivelmente, sido aquilo que mais me impressionou no processo da doença da minha mãe. Melhor dizendo, aquilo que verdadeiramente me impressionou em primeiro lugar. Depois disso houve, claro, outras imagens que me marcaram. Durante a ‘primária’ assisti ao desaparecimento lento e muito doído daquela mulher que eu tanto admirava (era tão linda!) e temia (era tão exigente!). Bem, mas no dia em que fui visitar a minha mãe ao hospital onde fora operada, encontrei-a tão pequenina e frágil, sem cabelo (costumava vê-la de turbante ou cabeleira), que sonhei com uma colega da escola (a Gaby) exactamente na mesma cama de hospital, só que sem cabeça.

As amigas da minha mãe foram uma companhia, um conforto, um carinho inomináveis nos últimos anos da sua vida. Sempre soube isto e outra das memórias que guardo intacta é a do dia em que duas delas me levaram a despedir-me, porque estava na hora. Nunca soube como é possível perceber isso, mas elas perceberam-no e eu, com nove anos, entrei no quarto e dei-lhe um beijinho. Claro que só mais tarde percebi exactamente a dimensão daquele beijinho.

Terá sido há cerca de três anos, num encontro cá em Coimbra, que fiquei a saber que ‘a bebida preferida da Marina era o rum-cola’. Eu, que bebo muito pouco, tenho sempre em casa uma garrafa do melhor Havana Club que consigo encontrar, e nos tempos (do século passado) em que ainda não nos chegava cá esse néctar de Cuba (os mesmos tempos em que eu bebia muito mais) íamos à sede da JCP, em Santos, bebê-lo clandestinamente.  Por isso, sorri e soube que hei-de ter sempre, mas sempre, uma garrafa de Havana Club em casa.

Mas as revelações não ficaram por aqui. Num gesto muito controverso para alguns, as amigas da minha mãe deram-lhe a beber um rum-cola nos seus últimos momentos, quando ela já pouco comia ou bebia, quando já não falava. E ela bebeu-o com prazer.

A amizade pode ser um corte de cabelo extremo ou um rum-cola. Seja qual for a forma que tomar, não há nada neste mundo que se lhe compare.

Beijinhos a todas, com amizade.

Marta

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