Double date

por , em 26/6/16

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Queridas Senhoras,

a cultura americana é-nos tão familiar como pipocas no cinema. Podemos amar ou odiar mas crescemos com essas referências, com os filmes de cowboys, o Vietname, o sonho americano, the american way of life, Seinfeld, O Sexo e a Cidade, Nova Iorque de todas as formas e feitios.

Teatro americano dos anos sessenta, mesmo sem saber ao que vamos, soa a coisa familiar, conhecida. America, Suitamérica (encenação de Rui Mendes para o Teatro dos Aloés) justapõe duas peças dessa época, cada uma interpretada por um casal. A estrutura é muito simples, colocando homem e mulher à conversa numa prosaica sala de estar com sofás e TV. A premissa de cada história é também muito simples, tudo se desenrola à volta de um único acontecimento.

Na primeira história (Ana Bento e João de Brito interpretam) uma rapariga vai visitar o rapaz que atropelou mortalmente o namorado. Chega cheia de raiva, apelidando-o de assassino, mas progressivamente os dois vão-se aproximando a despeito do que os afasta. A rapariga sente-se perdida sem um namorado, diz que “uma mulher sozinha não pode fazer quase nada, acompanhada é diferente.” O rapaz, um estudante que descarrega carne de madrugada para pagar as contas, sente-se excluído quer pelos rudes companheiros de trabalho, quer pelos colegas de escola. Juntos, tentam encontrar pontos comuns ainda que não estejam sequer de acordo quanto à altura mais bela do dia. Ele diz que é o amanhecer quando passeia no cais depois de acartar com as peças de carne. Ela diz que que é o anoitecer, o único momento em que a paz está garantida.

Na segunda história temos um casal muito diferente (brilhantes Jorge Silva e Sofia de Portugal), marido e mulher confortavelmente instalados a assistir um filme na TV. O marido fica com um pé dormente, coisa que acontece a toda a gente, só que em vez de passar quando ele tenta repetidamente acordar o pé, a coisa alastra até à paralisia total. A mulher, que começa por reagir com indiferença, vai-se adaptando rapidamente assim que percebe a gravidade da situação. Está disposta a fazer tudo por ele e só lamenta que não tenham feito amor uma última vez. Tão felizes que eles eram e não sabiam.

America, Suitamérica termina hoje as apresentações nos Recreios da Amadora, seguindo depois para o Cineteatro D. João V, na Damaia ( 29 de Junho a 3 de Julho).

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Redondamente curiosa

por , em 23/6/16

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Queridas Senhoras,

estou aqui em pulgas*. Quero lembrar-me de determinadas frases e expressões mas não me ocorre nada. Eu explico: pus-me a ler o livro de crónicas Caviar é uma ova do brasileiro Gregorio Duvivier, esse cara, o do Porta dos Fundos. (Aproveito para comentar que acho o nosso RAP bastante melhor: mais culto, mais certeiro, mais consistente, com um domínio da língua superior, a raiar a genialidade).

Mas as crónicas do GD também são porreiras, viciantes até. Leio uma a seguir a outra na expectativa de descobrir pequenas pérolas. Opa. Cliquem aqui e façam scroll down até ao texto Abraço caudaloso. Fiquei vidrada nessa crónica. O negócio é o seguinte: encontrar palavras que praticamente só têm uma utilização, andam sempre a par com outra. Exemplos: erro crasso, árvore frondosa, perdidamente apaixonado, rio caudaloso. Como GD fala, esta é uma relação aberta. Mas só para um dos lados. Erro anda com muitas outras palavras mas crasso é fiel.

O jogo proposto é dar mais liberdade a essas palavras que não têm olhos para nenhuma outra. Daí o abraço caudaloso, o perdidamente inseparáveis, o encontro frondoso.

No outro dia a Marta partilhava no facebook que o filho estava feliz da vida porque tinha usado a palavra ‘praticamente’ pela primeira vez. E com propriedade, claro, uma excelente aplicação do termo como, aliás, seria de esperar. Será que o jovem linguista não pode ajudar na questão em apreço*?

Quero encontrar outros exemplos como os acima citados, sei que existem e tenho-os algures na cabeça mas ando às cegas* e não tenho sequer pistas de pesquisa. Consegui desencantar apenas este exemplo: redondamente enganado.

E mais??

Obrigada!

Beijinhos a todas,

Céu

*estar em pulgas, andar às cegas ou questão em apreço acho que não valem… Quero bons exemplos, não há cá batotas!

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Diz que estas sandálias são um dos must-have da estação. Adivinhem quem é que não vai ajudar a esgotar o stock?

 

Queridas Senhoras,

no início de cada estação fica muito evidente o que se usa na estação. Há um exacerbar de tendências e modas. Geralmente não reparo muito no que se usa (é normal só dar por ela seis meses depois, comentar com as minhas colegas mais novas* e receber um revirar de olhos em resposta). Mas na viragem de época e sobretudo agora que o calor nos explode na pele, é impossível não notar que as pessoas se atiraram em força às frescas indumentárias estivais.

Foi assim que, por estes dias, comecei a aperceber-me como as sandálias me irritam. Particularmente aquelas de tacões enormes, altos e largos, mas um bocado as sandálias todas. E as unhas dos pés pintadas por todo o lado. E as tatuagens. E as calças rasgadas nos joelhos (sim, já me disseram que esta moda tem anos mas antes não estava constantemente a ver fendas de joelhos como acontece agora). E depois tive este pensamento original (#sqn): acho que a roupa sexy não é nada sexy. Calções curtos, vestidos justos, tops, macacão-calção (isto parece um palavrão, seu macacão-calção!), sandálias, tatuagens no tornozelo, anéis nos dedos dos pés. Não é sexy! Não estou suficientemente atenta à moda Homem para arranjar equivalentes masculinos mas certamente que usar aquelas t-shirts justas com os músculos a pedir socorro por baixo, não é sexy! O que é demasiado óbvio, evidente, gritante, não entusiasma lá muito, parece-me.

E o que é que eu percebo disto? Nada, têm razão. Mas já estamos na silly season por isso deixem andar.

Há uma coisa que acho sexy. Duas, vá. Uma são aquelas blusas que se usam descaídas de um lado, com o ombro à mostra. Um só ombro descoberto acho que é uma visão bonita, sensual. E gosto de fatos de banho retro.

E não gosto de calças com padrões ou estampados ou lá o que é!

Mas adoro aqueles tecidos fluidos, leves, esvoaçantes.

Abomino corsários!

Pronto, ok, quem é que quer saber?

Foi só um desabafo.

Do que gosto mesmo é daquela corzinha de Verão. Aí está o que fica bem com qualquer trapinho.

Beijinhos a todas!

Céu

 

*Este post vai dedicado à Ana Marta Monte e à Mafalda Jesus, as minhas estagiárias predilectas (e excelentes fashion advisers).

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Sexo para todos

por , em 13/6/16

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Queridas Senhoras,

julgo que não há memória deste blogue chamar o sexo para a capa pelo que não podemos ser acusadas de usar truques baixos para vender posts. Além disso, isto é um blogue familiar, lido inclusive por crianças (pelo menos uma, a minha filha!) pelo que também não receiem que este texto vá contra os princípios do decoro ou ultrapasse os limites da decência.

Está em cartaz um filmezinho  descrito como “comédia erótica”, o que à partida não augura nada de bom. A comédia já é um caso sério ainda para mais de contornos erótico-sexuais. O termo remete-me para cenas tão embaraçosas como a série Com jeito vai, no original Carry On (se não se lembram, melhor para vocês), piadas escabrosas de filmes de adolescentes de American Pye para baixo e, de forma vaga, uns filmes hippies dos anos 70 passados em praias e colónias de nudistas (???).

Foi, pois, bastante desconfiada e céptica quanto às potencialidades de uma comédia erótico-sexual que me dirigi à sala de cinema (coisa cada vez mais rara) para assistir a um obscuro filme espanhol intitulado Kiki, El Amor se Hace (em português, Desejos, o Amor Faz-se), de Paco Léon.

Como é quase impossível ver filmes espanhóis sem pensar em Almodôvar, essa é a primeira referência que salta à vista, nesta trama de casais às voltas com as suas dificuldades sexuais num Verão quente e festivo.

Em concreto, o tema do filme são as parafilias sexuais o que acentua o perigo de tudo descambar depressa numa idiotice pegada. A surpresa é que a coisa se aguenta e chega a ter grandes momentos.

O enredo trata desde os casos mais comezinhos aos mais estranhos, isto se aferirmos os comportamentos por uma pretensa normalidade e respectivos desvios à norma.

Temos o clássico casal a braços com a monotonia sexual que consulta um terapeuta para procurar pistas de salvação (ele diz que ela não sabe fazer fellatios, ela diz que ele é uma “máquina com pila” para quem os preliminares são território desconhecido). Uma senhora casada tenta engravidar há dois anos, fazendo sexo em todas as datas certas (e algumas extra) terminando sempre com as pernas para cima. Até que descobre que ter orgasmos ajuda e o que a ajuda a ela é ver o marido chorar. Outro homem casado põe gotas no chá da mulher para ela dormir que nem uma pedra e ele poder desfrutar dela durante a noite (sim, isto está a ficar estranho; aliás, este caso é bastante estúpido porque implica sexo sem consentimento e sem conhecimento, fugindo à regra de um enredo que se mantém num registo são e divertido). Há ainda uma moça solteira, surda, com um fétiche por tecidos bons; uma rapariga que vende cuecas usadas (as suas) para ter dinheiro de bolso; uma moça casadoira com um historial de parafilias na família que sente extremo prazer em situações de perigo e cuja irmã é doida por plantas. Etc. Etc.

O filme cuida bem de toda esta gente, das suas taras e manias, e segura as pontas do bom gosto e do bom senso, nunca resvalando para a idiotice mas naturalmente tocando em assuntos de natureza mais escabrosa ou escatológica que me reprimo de mencionar aqui (em nome do tal decoro e ressalvando a possibilidade de a Alice chegar mesmo a ler isto e de eu ficar com muito para explicar). Sem surpresas, tudo acaba bem até porque esta é uma película estival, alegre e bem-disposta.

Se não chegarem a ver o filme, arranjem maneira de ver o gag mais hilariante: uma chamada erótica intermediada em linguagem gestual.

Beijinhos a todas!

Céu

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O nosso tempo

por , em 4/6/16

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                            O cartaz é “bué” moderno. Para quem ainda diz “bué”, claro.

 

Queridas Senhoras,

os clássicos encontros de antigos colegas, sobretudo em datas redondas ou comemorativas, deixam-me sempre melancólica. É coisa para durar o dia seguinte e o outro ainda. E nem tudo se deve aos copos a mais. Fico pensativa e sentimental mas não penso muito sobre isso. Não gosto de aprofundar porque me sinto assim. Sei bem o que é mas fico com um nó na garganta se o verbalizar, mesmo que seja só para mim.

Os encontros de antigos colegas, as datas redondas, fazem-me perceber que a vida é mesmo isto. Não estamos só a treinar, a ver no que dá. Já cá estamos, chegámos ao futuro e é o que temos. A leve melancolia que trago desses encontros tem a ver com tudo o que se passou connosco ao longo dos anos, o que vivemos, o que imaginamos, o que pressentimos. É uma coisa que paira por entre os sorrisos, os copos e as conversas de reencontro. E volta comigo para casa.

Fomos traídos, fomos despedidos, fomos magoados, perdemos amigos, perdermos avós, pais, pessoas queridas. Adoecemos, acompanhámos doenças, quisémos desisitir, abandonar, largar tudo. Arrependemo-nos, chorámos, tivemos crises e depressões. E, no entanto, não volto para casa deprimida, é só uma leve melancolia.

Ainda nascem bebés e nada é tão esperançoso como isso. Escrevem-se livros, largam-se empregos, muda-se de casa, fazem-se novos amigos, tiram-se novos cursos, começa-se uma nova vida. E tudo pode ainda recomeçar, há segundas e terceiras oportunidades, e afinal a vida não é “só “ isto. É a mistura de todas as mágoas, todas as esperanças, aquilo que esperamos e o que não estamos à espera.

Isto ainda não acabou, malta. Saibamos nós estar vivos, despertos e alerta para tudo o que a vida ainda nos reserva.

E para concluir com outro cliché sentimentalão: o nosso tempo é agora!

 

Beijinhos a todas!

Céu

 

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Queridas Senhoras,

vivemos numa sociedade muito idadista, somos obcecados com a idade e isso começa logo de pequenino. Controlamos as crianças com tabelas, padrões, rankings, queremos saber a toda a hora se estão dentro dos parâmetros, se cumprem as competências da idade. É sabido como os pais se ufanam em comparações, ai o meu já se vira, já se senta, já anda, corre, cavalga, já salta de paraquedas (o sketch definitivo aqui).

A dada altura, começa o “já não tens idade para isso”. Neste Dia Mundial da Criança, gostaria de partilhar um convosco um livro que celebra magnificamente a Infância. Ofereci esse livro ao Tomé e como a Catarina disse repetidamente que era maravilhoso, pedi-lho emprestado e li-o de um fôlego. A Catarina comentou que é tão bom que apetece citá-lo inteiro. É verdade e por isso recomendo a leitura urgente. Em qualquer idade. O Rapaz dos Sapatos Prateados de Álvaro Magalhães, fala de Poesia, de Filosofia, de Deus, da Vida, da Morte. Assim mesmo, os grandes enigmas todos em maiúsculas. Fala de como tratamos as crianças e de como tratamos os velhos. E do que está no meio, a coisa mais chata e sem graça do mundo: ser adulto.

“Fosse como fosse, fiquei a saber que, segundo as regras da casa, havia uma idade para deixar de brincar. Era aos 9 anos em que, pelos vistos, existe um letreiro que diz: FIM DA INFÂNCIA
Subi para o meu quarto e sentei-me na cama a olhar os presentes. Excetuando o do avô, cada um deles me dizia: «Cresce e faz-te à vida, pá! Já não és uma criança.»

Ora de um modo ou de outro, todos os dias me roubavam um pedaço de inocência, me contavam uma história de desencantar. Não há Pai Natal. Não há fadas nem duendes. Nada disso é real. É tudo treta, imaginação! E então, e então? Claro que há fadas, duendes, Pai Natal, mesmo que tudo isso seja imaginação. Olhem para os livros, os filmes, ouçam as histórias que as mães estão, neste momento, a contar aos filhos e que estes, por sua vez, contarão aos seus. Poderão dizer que nada disso existe? Só não existe o que ainda não foi imaginado. Um sonho, um devaneio, uma fantasia, uma imaginação: tudo isso é tão real como o que acontece quando estamos acordados, só que se trata de uma realidade diferente. Há muitas realidades. Mas a maioria das pessoas só reconhece uma. Por isso lhe chamam A Realidade. E o que é isso, A Realidade? Lojas, empresas, juros, apresentações em Powerpoint, reuniões, apólices de seguro, planos de reforma, trabalho por objetivos? Porque será toda essa tralha mais verdadeira do que aquilo que está dentro das nossas cabeças?

Estava visto que a minha família, talvez o mundo inteiro, queria empurrar-me à força para fora da infância. Parecia que eu estava a estorvar o andamento das coisas e o mundo parava se eu continuasse a brincar com os Gormiti e a imaginar coisas estranhas sentado no parapeito da janela.

Sei como as coisas são: empurram-me para a saída porque, um dia, lhe fizeram a eles o mesmo. É assim que o mundo funciona. (…)

Agora pergunto: um homem feito o que anda cá a fazer? Todos o empurram, também para a saída. De quê? Da vida. E lá vai ele, também a correr, não se sabe para onde, talvez para lado nenhum. Sim, tudo isto é feito a correr. As crianças correm para a adolescência, os adolescentes correm para a vida adulta, e nem uns nem outros param para simplesmente ser. Estão sempre em trânsito, a caminho do que vão ser, e nunca chegam a ser aquilo que são.

Nessa noite, a pensar em tudo isto, tentei escrever um poema incipiente que começava assim:

Que pena que todas estas flores
tenham de ser cortadas
que pena ver todas essas fogueiras
tão rapidamente apagadas…!”

in O Rapaz dos Sapatos Prateados, pp. 42-45

 
Beijinhos a todas!

Céu

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Questionário ‘Ter 40′