Os mediadores

por , em 16/10/14

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Queridas Senhoras,

gosto muito das crónicas da Alexandra Lucas Coelho. Nunca li os livros mas acompanho os textos de domingo na revista do Público e também aqui. A Alexandra é uma das minhas mediadoras preferidas.

Nesta avalanche de factos, opiniões, comentadores, personalidades, figuras, casos e indignações diárias, torna-se fastidioso acompanhar os temas, as polémicas, seguir os opinadores. A compulsão da opinião a todo o momento. Gosto dos cronistas que mantêm uma certa distância em relação a tudo isso, que não vivem em função dos casos do dia. E gosto do ritmo de ler uma crónica semanal, refletida, bem escrita, extensa. Como as da Alexandra. (Outros exemplos: Pedro Mexia, António Guerreiro).

Trago aqui o caso da Alexandra porque sinto que ela é uma mediadora especialmente boa. Pela abrangência e relevância dos temas, pela profundidade, pela mundividência, pela ligação entre tópicos, por uma ausência de vaidade. Dou atenção e valor ao que ela escreve, fico genuinamente interessada. Sinto que se ela escolheu falar de um determinado tema é porque o assunto é mesmo relevante. Percebo que ela escreve bastante sobre o seu universo particular (o que a rodeia, os seus amigos) mas fazendo sempre a ponte para o geral. O que podemos extrair como “lições”.

Hoje li esta crónica e dei por mim interessadíssima na questão das alterações climáticas, um tema acerca do qual mantenho uma vaga preocupação. Leiam a forma como ela explica, com o caso concreto do seu amigo e vizinho Zé (o agricultor biológico que lê Agamben e de Espinoza), o que se está a passar com a azeitona no Alentejo.

Sei que ela escreve muitas vezes sobre artistas seus amigos ou conhecidos. Mas declara logo que o são por isso nunca me passa a ideia de estar a “promover” gratuitamente a sua rede de contactos. Serve-se desses exemplos para ilustrar casos mais gerais.

E apesar da complexidade de muitos dos seus escritos, de mil referências que não identifico, a ideia que passa é sempre de simplicidade, de humildade, a tal ausência de vaidade. É difícil fugir nem que seja a uma pequena vaidadezinha e desculpo isso em muita gente. Mas a Alexandra parece ter uma vaidade pura, honesta.

Olhem, utilizando a linguagem do Holden Caufield, acho que ela não é nada “phony.”

Beijinhos a todas,
Céu

P.S. Alguém já leu algum dos livros dela?

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Rol de livros

por , em 13/10/14

 

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Queridas Senhoras,

não sei se estão familiarizas com o site Leitura@Gulbenkian. Já me tinha deparado por diversas vezes com este site mas nunca tinha atentado nesta ferramenta: Rol de Livros.

Rol de Livros é o nome pelo qual se designa o vasto conjunto de recensões críticas sobre o que de mais relevante entre nós se edita desde os anos 60 do passado século, quer se trate de originais portugueses, quer de traduções. Actualizada mensalmente, esta rubrica inclui apreciações feitas por quarenta e seis personalidades, cujos nomes poderá encontrar no campo Autor Recenseador, na pesquisa.

Tem livros publicados entre 1960 e 2012. É um mundo. Descobri-a quando procurava informações sobre um livro que a Alice escolheu na biblioteca e estamos agora a ler: As Aventuras de Thore Isbiorn no País dos Esquimós. E dei com esta recensão com um formato deliciosamente vintage.  O recenseador dá apenas suficiente +. Mas nós estamos a gostar.

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Movida pela curiosidade procurei a ficha sobre As Aventuras de João Sem Medo, de que já falei aqui, e que considero o melhor livro que já li com os miúdos. Esta obra é objecto de várias recensões, a mais antiga datada de 1970 e a mais recente de 2010.

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Procurei ainda outro livro que lemos há não muito tempo e que incluo nessa lista particular de “livros para crianças que os adultos gostam de ler”. É o Dentes de Rato de Agustina Bessa-Luís do qual não esquecemos a imprevista personagem de Lourença. Lembrei-me desse livro hoje por causa desta entrevista.

E aqui está a recensão de Dentes de Rato:

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A ferramenta permite pesquisar por idades. Escolhendo a faixa etária 6-12 anos, obtenho uma lista com 966 resultados.

Já tenho com que me entreter.

Beijinhos a todas, tenham uma boa semana,

Céu

 

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Queridas Senhoras

ontem fui ver o thriller do momento: Gone Girl /Em Parte Incerta de David Fincher, adaptação do livro homónimo de Gillian Flynn (sobre o qual escrevi aqui) que também assina o argumento.

Isto sim, é um regresso ao cinema em condições. Depois de sete meses sem frequentar uma sala de cinema para ver um filme de adultos, foi Woody Allen quem me fez quebrar o jejum. Pela primeira vez sai desiludida de um filme dele. Na semana seguinte acato o conselho de uma amiga e vou ver a comédia francesa Que mal fiz eu a Deus? Que mal fiz eu para seguir conselhos destes…

E eis que, em pulgas para ver o resultado da transposição para o cinema de um livro tão empolgante e cinematográfico, tive realmente direito a uma rentrée como deve ser.

Sem querer desvendar absolutamente nada sobre a história, direi apenas que este é um thriller que nos enche por completo as medidas. Mesmo com a desvantagem de já conhecer o enredo (mas na expectativa de descobrir as diferenças), instalei-me confortavelmente para ser surpreendida, arrebatada, enganada, tudo ao mesmo tempo.

Quem não leu o livro, e gosta do género, tem aqui perto de três horas de puro prazer. Confesso que este é o género de filmes que me dá mais prazer assistir. As comédias podem ser forçadas e constrangedoras, os dramas difíceis e chorões, o terror tolo e despropositado. Mas um thriller eficaz, com tudo no sítio, ainda para mais tendo como pano de fundo o quotidiano, a intimidade (de uma família, de um casamento), que se vai desdobrando em revelações e perturbações, ah!, isso é do melhor que me podem dar. É o género que mais bem representa o lado de evasão do cinema, no sentido em que consigo de facto não pensar em mais nada. Deixo-me apenas envolver naquela trama, saboreando cada twist do enredo.

O paradigma é Hitchcock e sempre será. Mas de vez em quando, muito de vez em quando, aparece um filme tão “psicótico” que até o Mestre aprovaria.

Beijinhos a todas,

Céu

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Holden Caufield

por , em 3/10/14

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                                                                                                                                                   Imagem retirada daqui

Queridas Senhoras,

andei 40 anos sem saber quem era o Holden Caufield. É o narrador e personagem principal da celebrada obra de J.D. Salinger A Catcher in the Rye. É claro que do livro já tinha ouvido falar, e muito, desde sempre. Mas por uma razão ou outra, nunca o tinha lido. Nunca me veio parar às mãos, nunca o procurei activamente. Até que….

Até que este post da Maria do Rosário Pedreira me alertou de novo para a ausência desse livro na minha vida. E a minha irmã logo providenciou um exemplar, ainda por cima no original, para eu resolver isto de uma vez por todas. Em boa hora. Ainda bem que conheci o Holden antes da minha filha chegar à pré-adolescência. É que há-de ser um dos livros que lhe vou pôr nas mãos assim que ela tiver idade.

O Holden é um adolescente em dificuldades (passe a redundância) e ler esta história aos 40 anos teve um efeito engraçado: parece que me reconciliou e aproximou desse universo que fará, muito em breve, de novo parte da minha vida, mas agora do outro lado da barricada.

O Holden é todo um universo, toda uma filosofia, toda uma linguagem. Ler a edição original foi uma sorte e o melhor que me podia acontecer. A linguagem é muito simples, não oferece qualquer dificuldade. Porquê? Porque se trata do discurso directo do Holden, um rapaz de 16 anos, de boas famílias, que frequenta colégios caros, mas que escreve como fala, como um adolescente se expressa, isto é, com repetição de expressões (bordões) e nunca variando muito a estrutura das frases e o próprio vocabulário.

No universo Holden a palavra central é “phony” (falso, artificial). As escolas, os professores, os colegas, os adultos em geral, o mundo em geral é “phony”. Os actores, o cinema, o teatro, as conversas. Tudo é “phony”, em graus variados. Pode até ser só um bocadinho “phony” mas é difícil encontrar uma coisa, ou alguém, que seja… qual é o contrário de “phony” afinal? Acho que o Holden nunca explicita.  Sincero, honesto ou verdadeiro não são palavras que apareçam, pelo menos com muita frequência. Mas se querem saber quem é que não é “phony” eu digo-vos. É a Jane. A Jane é o grande amor não declarado do Holden. A quem ele passa o livro todo a dizer que vai ligar mas nunca está no “mood” certo para isso. A Jane é tão o contrário de “phony” que até a dar as mãos se nota.

I held hands with her all the time, for instance. That doesn’t sound like much, I realize, but she was terrific to hold hands with. […] We’d get into a goddam movie or something, and right away we’d start holding hands, and we wouldn’t quit till the movie was over. And without changing the position or making a big deal out of it. You never even worried, with Jane, whether your hand was sweaty or not. All you knew was, you were happy. You really were.

Há excertos, como este, absolutamente ternurentos. Noutros, temos a visão do Holden sobre a sexualidade. Ele tem um problema, sabem. Não consegue avançar muito com uma rapariga se não gostar realmente dela. E quando numa estação ou à porta de um cinema, ele vê uma multidão de raparigas, sabem o que é que o angustia (sim, porque ele fica muitas vezes angustiado por coisas assim, que vê ou ouve, que passam por ele)? Ele fica a pensar o que será feito daquelas raparigas. Com quem é que elas irão casar. Se calhar vão casar com tipos que até são porreiros mas que passam a vida a falar de carros, preocupados com carros. Tipos que se calhar não lêem um livro.

Podia continuar a falar-vos do Holden mas a única coisa de jeito que posso dizer é que, se ainda não o conhecem, corram. Não esperem mais.

Beijinhos a todas,

Céu

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Calita

  • O melhor e o pior

O melhor de ter 40 anos foi ter percebido que não era assim tão diferente de ter 20. Aos 40 anos podia ser mãe de um bebé e estar perdidamente apaixonada pelo pai dele.

O pior de ter 40 anos foi ter percebido que não era assim tão diferente de ter 20: Sei bem aquilo que não quero, mas não faço a mais pequena ideia daquilo que quero ao certo.

  • As surpresas e as desilusões

A grande surpresa é continuar a sentir-me a mesma miúda de 18/20 anos (ainda por cima estive a passar uns dias em casa da minha mãe e não podia sair à noite, porque “parece mal”).

A grande desilusão é não ter contribuído, ainda, com nada de importante para a humanidade.

  • As conquistas e as perdas

Cheguei aos 40 anos com bastantes perdas pelo caminho. O meu pai, que morreu quando eu tinha 13 anos, as muitas viagens por concretizar, os amigos que ficaram pelo caminho, o jornalismo arrumado numa gaveta, a auto-estima que foi sendo apedrejada.

Quanto às conquistas, acho que a principal foi ter feito, até aqui, o caminho que escolhi para mim. Deparei-me, muitas vezes, com obstáculos que pareceram intransponíveis, mas fiz o que tinha a fazer.

  • O que mudaria, se pudesse, mas não posso; e o que mudaria, se pudesse, e posso

Gostava de mudar de cidade e ir viver para o Porto, mas não é viável. Não gosto de dizer que não posso, porque acredito mesmo que querer é poder.

Aquilo que posso mudar e não mudo passa por criar novas rotinas mais interessantes, mas assim de repente não me apetece.

  • O meu grau de satisfação com a minha rotina diária, de 0 a 10

Eu diria que deve andar pelos 3. Tenho uma rotina diária bastante deprimente, na minha perspectiva.

  • Recados para mim aos 20

Miúda, tens um corpo fantástico. A sério, um corpo fantástico. Dá-lhe uso.

  • Votos para mim aos 50

Amor, uma cabana e uma garrafeira espectacular.

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Obrigada, Calita.

Para participar no nosso questionário ‘Ter 40′, basta enviar as respostas por email. Saibam mais aqui. Até já.

Marta

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15 km

por , em 28/9/14

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Queridas Senhoras,

 

Fiz a minha primeira corrida de 15 km.

Uau! Fogo! Não foi fácil. Estava bastante nervosa. Segue-se o relato fiel.

O dia anterior

No sábado de manhã fui correr. Fiz um treino mais curto do que o habitual ao fim-de-semana mas decidi correr na mesma, apesar da prova no dia seguinte. Não tinha corrido na sexta e fazia-me impressão estar dois dias parada e depois atacar os 15 km assim a frio. Corri cerca de 6 km.

Por volta da hora de almoço comecei a ficar ansiosa com a chuva e a trovoada que vieram em força. Comecei a fazer cenários sobre correr naquelas condições e a achar que seria de loucos (apesar de normalmente correr à chuva embora não com trovões!).

Passei a tarde calmamente por casa. Jantei frango com massa por causa dos hidratos de carbono. Não prescindi de acompanhar a refeição com um copo de vinho (há limites para as restrições).

Deitei-me cedo e dormi bem, cerca de 8 horas. Durante a noite acordei e, com os nervos, bebi um copo de leite e comi uma bolacha. Não havia de ser por falta de forças que a coisa ia correr mal.

O dia da prova

Antes da prova

Acordo antes das 8 horas. Preparo o meu pequeno-almoço de papas de aveia com mel e canela e meia banana às rodelas. Preparo um delicioso chá preto com maracujá (oferta de umas queridas amigas) que bebo a seguir às papas. Tomo banho para ir bem fresca. Equipo-me e saio de casa com bastante tempo, para uma manhã clara e luminosa. Está um belo dia para correr 15 km, isso não há dúvida.

Chego ao local com cerca de 20 minutos de antecedência. Começo a aquecer. Encontro um senhor que, por coincidência, acompanhou as minhas primeiras corridas, há dois anos e meio, e me deu na altura alguns conselhos úteis que nunca esqueci e continuo a aplicar. Correr com os braços descontraídos, sem tensão, elevar bem os joelhos, manter a respiração regular. Aproveito para lhe agradecer essa orientação inicial que me ajudou a chegar aqui. De resto, o senhor não vai correr hoje. Não encontro mais ninguém conhecido. Estou por minha conta.

A prova

A prova é constituída por uma primeira volta de 5,5 km. Ao fim dessa distância regressamos ao ponto de partida para percorrer a segunda volta, de 9,5 km. Arranco dentro do meu ritmo habitual, não muito acelerado, e procuro desfrutar da manhã clara, da brisa fresca, do ambiente festivo e da possibilidade de correr no meio da estrada.

Essa primeira volta não corre mal mas é bastante dura. Há pelo menos duas subidas, uma das quais bastante íngreme. Quando estou nessa fase, alguém se dirige a mim e pergunta se estou inscrita nos 5,5 km ou nos 15 km. Digo que estou nos 15 km e ele: “ui, está lixada, sabe que tem de passar aqui outra vez?” Obrigadinha opá.

Quando completo a primeira volta estou bastante desmoralizada. Aquele esforço todo e só corri 5,5 km. Não acho que não seja capaz de chegar ao fim mas sinto que não vou aguentar as subidas todas, que terei de andar nalgumas partes, e que irei demorar para aí duas horas. Paciência.

Havia um objectivo meio irreal que era tentar manter a média de 5 km em cada meia hora e acabar a prova em hora e meia. Depois da exigência daquela primeira volta ponho de lado essa miragem

As coisas começam a mudar aos 10 km. De repente, vejo que estou na marca dos 10 km, olho para o relógio e verifico que estou com um pouco menos de uma hora de corrida. Olá! Tu queres ver que é possível? É possível não só acabar isto sem ficar de rastos como conseguir um tempo jeitoso?

As subidas matam-me, é verdade, mas aproveito as descidas para descontrair, ganhar fôlego e imaginar-me orgulhosamente a chegar à meta às 11h30. Nunca paro de correr.

Vejo a marca dos 11 km e lá vou eu, sem abrandar o ritmo. Aí penso “falam 4 km, isso não é nada, é um treino fraquinho para mim, bora lá”. Vejo os 12 km, continuo. Aos 13 km começo a sentir uma espécie de agonia. “Acalma-te, isso é psicológico”. Apesar do mau-estar, o relógio diz-me que vou conseguir fazer a tal hora e meia. Isto se não tiver que parar para vomitar ou coisa do género.

Ao longo do percurso são distribuídas garrafas de água. Posso ter bebido água a mais, daí a má disposição. Lembro-me vagamente do tal senhor me dizer, antes do início da corrida, por entre a música alta, que devia aproveitar a água para retemperar forças mas não beber muita para não ficar pesada ou inchada. Paciência, agora já está.

Passo a marca dos 14 km, faltam apenas 1000 metros, nada de nada, mas vou um bocado aflita. Nem sequer tento um sprint final para ganhar uns segundos mas suporto o ritmo. Corto a meta e basicamente atiro-me para o chão. Mas depois fico logo bem, acho que o mau-estar se deveu sobretudo à tensão da corrida.

Conclusão

A prova foi violenta! A sério, acho que consegui porque estava num dia bom. As pernas lá foram obedecendo, não sei como naquelas subidas diabólicas. Não desgostei de participar mas não me estou a ver a ficar fã deste tipo de eventos. Para mim correr é um momento individual, de libertação de energia e tensões. Por outro lado, esta foi apenas a segunda prova em que participei (a primeira foram os 9 km do Corre Jamor em 2012) e a dureza deixou-me de pé atrás. Tenho de experimentar uma daquelas corridas para meninos, à beira-mar, com a brisa marítima a refrescar o corpo e a mente.

 

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Questionário ‘Ter 40′