Eu sou librocubicularista

por , em 17/12/14

librocubicularist

E vocês?

Beijinhos,

Marta

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Aqui e agora

por , em 14/12/14

boyhood

Queridas Senhoras,

hoje queria ter vido ver Boyhood ao cinema. Mas o filme tem três horas e não estava em exibição em nenhuma das salas mais perto de casa. Ainda por cima os miúdos insistiam em jogar Monopólio. E não me sentia com coragem (muito menos depois de Coraline) para os abandonar por uma longa, egoísta e solitária sessão de cinema.

De forma que jogámos Monopólio e depois vi o filme em casa, numa daquelas cópias pirata. O que eu queria era ter ido para a sala de cinema sentir aquelas emoções todas de um grande filme sobre a vida, a passagem do tempo, tudo isso que a esta hora já todos sabemos por causa da unanimidade que o filme tem gerado.

Mas reunir as condições para isso não é fácil, especialmente quando são necessárias mais de três horas, contando as deslocações, para me ir ali emocionar. De modo que vi o filme no sofá. Uma das primeiras cenas mostra a mãe a discutir com um namorado porque ela falhou um compromisso que tinham para sair e o gajo ficou chateado. E ela diz que adoraria poder ir ao cinema, a um bar, sair e divertir-se. Mas que tem dois filhos e a vida dela é essa. Foi filha, agora é mãe.

Ainda bem que não fui ao cinema. Porque mesmo tendo ficado em casa foi uma confusão, o filme acabou tardíssimo. A certa altura, o João veio enroscar-se entre mim e o pai e adormeceu. A uma hora sem jeito nenhum, quase em cima do jantar. Que estava a ficar atrasadíssimo.

Quando o filme acabou, fui a correr apanhar a roupa que estava pendurada na corda. Era noite cerrada e a roupa estava a apanhar humidade. Se há coisa que eu não perdoo é deixar o raio da roupa na corda. Não passo a ferro mas lavar, estender, apanhar, dobrar e arrumar os trapos é a minha religião, um ritual diário. E o João a dormir. Como estava tudo atrasado, e o jogo do Benfica a começar, foi deixá-lo dormir e esperar que isso não traga problemas à noite.

Este fim-de-semana não era para ser nada de especial. Tinha um jantar de amigas mas foi cancelado. Noutros tempos teria ficado mais aborrecida, agora sei que é aproveitar o que há. E até calhou bem pois uma das amigas, a S., vocês já a conhecem, veio cá a casa no sábado e trouxe o A. para brincar com o João. E fizemos castanhas assadas. E estavam boas como tudo! Descascavam-se bem e só havia três ou quatro podres. E até tinha um Moscatel de Setúbal que vi no Lidl por cinco euros e comprei a pensar “isto vai saber-me bem com castanhas assadas.” E soube pela vida! E depois à noite vimos a Coraline e foi basicamente um dia perfeito.

E hoje jogámos ao Monopólio e vi o Boyhood. Emocionei-me apesar de estar na minha sala e não no cinema. Só fui interrompida uma vez se não contarmos com a altura em que o João começou a ressonar baixinho.

No final do filme, quando o rapaz sai de casa para ir para a faculdade, a mãe desaba num pranto e pergunta “então mas afinal é só isto?!”

Parece que sim.

Beijinhos a todas,

Céu

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Ritual de passagem

por , em 14/12/14

 

Coraline-007

Queridas Senhoras,

ontem à noite tivemos uma sessão de cinema caseira em família. O filme, Coraline e a Porta Secreta, há muito que era falado cá em casa mas só o João o tinha visto. A Alice diz que é terror infantil e, como ela sublinha, é dos mesmos criadores do Paranorman e do Monstros das Caixas.

O filme é um pequeno prodígio, infinitamente superior a tantas patacoadas delicodoces ou tontas que se fazem para o público infantil. A estética, desde logo, é um primor a fazer lembrar Tim Burton. A premissa da história, essa, é das mais fascinantes de toda a ficção e do nosso imaginário em geral: a possibilidade da existência de um universo paralelo ao qual se acede através de um mecanismo de passagem – uma porta escondida, um alçapão, um espelho.

Coraline, uma menina que terá à volta de uns 10 anos, muda-se com os pais para um grande casarão misterioso ironicamente chamado palácio cor-de-rosa. Os pais não lhe dão muita atenção, ocupados que estão com os seus afazeres, repelindo muitas vezes as suas tentativas de aproximação de forma algo brusca (sim, reconhecemo-nos).

Em deambulações pela casa nova, Coraline descobre uma pequena porta escondida. Encontram a chave mas a porta está emparedada. Só que durante a noite… A onírica passagem irá conduzir a nossa heroína até um universo aparentemente em tudo igual ao seu – a mesma casa, os mesmos pais – só que em bom, em melhor.

Se no mundo real a mãe se mantém afastada do fogão (“o pai cozinha, eu limpo, tu sais do caminho” – e há que tirar o chapéu a esta simples e eficaz divisão de tarefas), a sua segunda mãe afadiga-se em redor dos tachos e Coraline, pouco habituada a mesas apetitosas, deixa-se deslumbrar pelos cozinhados fumegantes e pelos bolos enormes. Mas por pouco tempo.

Depressa Coraline percebe que a vida neste mundo superficialmente perfeito tem um preço muito alto. O símbolo desse preço são os olhos de botões. Os olhos foram removidos e botões foram cosidos em seu lugar. Ora se os olhos são o espelho da alma, não é difícil concluir que este é um mundo sem alma. Sem vida.

Além de um amigo humano (um rapaz que no mundo real fala um pouco de mais e no falso não tem voz), Coraline terá outro aliado inestimável que a ajudará a abrir os olhos. E a impedir que os mesmos sejam substituídos por botões. Esse aliado é um gato, pois claro. O omnisciente gato que aqui tem muito mais para oferecer do que um sorriso enigmático. Uma das minhas cenas preferidas é um passeio de Coraline com o gato até à fronteira do falso mundo. Para lá dessa fronteira não há nada, eles caminham no vazio. Tal como Truman quando chega ao limite do cenário em que viveu toda a sua controlada existência.

Como Alice, Coraline atravessa portas, passagens secretas, mundos comunicantes. E nesse périplo irá crescer. A porta secreta é também um ritual de passagem, uma despedida da infância. Porque o que imaginávamos ser um mundo perfeito pode afinal revelar-se uma prisão, um tédio, um círculo fechado, um beco sem saída. E as imperfeições, se calhar, são o melhor que temos.

Beijinhos a todas,

Céu

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Duas medidas

por , em 13/12/14

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Queridas Senhoras,

Como se chama um homem conhecido por ter muitas namoradas?
Mulherengo.
E uma mulher?
Galdéria.

Como se chama um homem que dá pouca atenção aos filhos?
Ocupado.
E uma mulher?
Desnaturada.

Como se chama um homem que não arruma a casa nem tem paciência para cozinhar?
Solteiro.
E uma mulher?
Desleixada.

Como se chama um homem solteiro e com dinheiro?
Bom partido.
E uma mulher?
Encalhada, viciada em trabalho.

Como se chama um homem que gosta muito de sair e conviver com os amigos?
Bom vivant.
E uma mulher?
Doidivanas.

Como se chama um homem assertivo, que faz valer os seus pontos de vista?
Decidido.
E uma mulher?
Mandona.

Como se chama um homem de 50 anos que arranja uma namorada 20 anos mais nova?
Esperto.
E uma mulher?
Assanhada.

 

A nossa linguagem está viciada. A nossa cultura está viciada.

 

Beijinhos a todas,
Céu

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vol

Queridas Senhoras,

ontem foi assim, perante uma turma de 9º ano:

“Algum de vocês tem o hábito de escrever num diário? Esperem, eu sei que isto não se pergunta a ninguém, muito menos em público. Algum de vocês conhece alguém que tenha o hábito de escrever num diário? Mesmo que não seja no formato tradicional. Por exemplo, escrevem nalgum blogue ou publicam frequentemente pormenores do vosso dia-a-dia nas redes sociais?

Então e porque é que acham que o fazem?

Eu aprendi com o Holden que nós mantemos registos da nossa vida, nos mais variados formatos, para, passado algum tempo e ganho algum distanciamento sobre os acontecimentos, podermos construir uma narrativa que nos reconcilie com o passado. «Nunca contem nada a ninguém. Se contam, acabam por ter saudades de toda a gente.» É assim que termina este livro, À Espera do Centeio, narrado por um rapaz de 16 anos em plena crise existencial. Quem é Holden Caulfield e o que quer ele da vida? Vou tentar responder-vos a estas duas questões mas não vos prometo que o consiga fazer.”

Não terá sido assim palavra-por-palavra, estou a basear-me apenas na memória e das minhas notas. Seguram-se 40 minutos de leituras, interpretações, perguntas, respostas e descobertas. No final, eu sabia muito mais sobre os miúdos de 14/15 anos de hoje, e eles sabiam muito mais sobre o Holden Caulfield. Aplaudiram. Eu corei. Um deles veio contar-me que a irmã já lhe falara neste livro e que agora iria mesmo lê-lo. E outro abordou-me para me dizer que tinha gostado muito de me ouvir.

É oficial: sou Voluntária de Leitura e estou a adorar.

Beijinhos a todas,

Marta

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Piropos

por , em 8/12/14

Piropo1

Queridas Senhoras,

uma amiga comentava com muita graça, quando lhe perguntei como é que ela reagia aos piropos na rua (se replicava ou ficava calada), “Quais piropos, filha? Há pra aí 10 anos que não ouço um piropo!”

De facto, quando ando “à civil”, também não se metem comigo, é muito raro (excepto quando saio à noite com amigas; há qualquer coisa num grupo de mulheres, de qualquer idade, que faz os homens comportarem-se como energúmenos).

É quando ando fardada de desportista, em correrias pelos parques da cidade, que elas mordem. É verdade que anda meio mundo a fazer o mesmo mas, pelo menos de onde eu venho, 90% são homens. Uma mulher a correr ainda é um alvo em movimento.

Há uma grande variedade de abordagens, é claro, e nem todas são impróprias. Ao longo do tempo, fui aprendendo a distingui-las. Há o simples “bom dia” de cortesia entre corredores, ao qual respondo em geral com simpatia e agrado. (Estou naturalmente a falar de desconhecidos e não das pessoas que acabam por se tornar familiares nos circuitos habituais).

Depois vêm os incentivos a resvalar para o engraçadinho: “Força!”, “É assim mesmo!”, “Vamos embora!”, “Vá lá, vá lá!” e por aí fora. Dependendo da boa disposição, este género de cumprimentos merece-me um obrigada!, um polegar levantado ou um sorriso amarelo.

Já na linha vermelha vêm então os ditos piropos e entre estes um subtipo que, sinceramente, pensava que tinha caído em desuso. Mas acaba de me acontecer. É muito anos 90, vão reconhecer a pinta: os tipos que passam por nós num carro, normalmente cheio de amigos, e lançam uma bojarda qualquer: ”ANDAS A CORRER, AMOR?”

A sério? Uau. Melhor do que isso só aquelas almas que metem a cabeça pela janela e lançam um grito, um urro repentino, enquanto o amigalhaço aproxima o carro do passeio, para nos assustar. É confrangedor.

No grau zero da estupidez estão os comentários ordinários. São muito raros mas ainda há dias me aconteceu. Um homem com idade para ser avô dos meus filhos passou por mim a rir e disse uma ordinarice qualquer. Pois toda a gente que passava por ali ficou a saber do sucedido. Fiz questão de perguntar alto e bom som se ele não tinha vergonha e enquanto esteve no meu campo de visão não deixei de lhe chamar ordinário aos berros.

A minha opinião sobre isto: não sou eu que tenho de me sentir incomodada por ter sido perturbada; é o tipo que tem de perceber que para a próxima é melhor passar calado.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′