Mal-empregado

por , em 1/5/16

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Queridas Senhoras,

neste Dia da Mãe e do Trabalhador, apresento-vos Thierry, o desempregado, protagonista do filme A Lei do Mercado, de Stéphane Brizé, que oportunamente estreou esta semana (devem ser as leis do mercado).

Um filme seco, esquemático, num registo quase documental, que se desenvolve por quadros. Thierry no centro de emprego. Thierry numa reunião com os antigos colegas da fábrica que fez um despedimento colectivo. Thierry em aulas de formação que trabalham a linguagem corporal e a atitude. Thierry numa entrevista de emprego via skype. Thierry a pedir um empréstimo ao banco. Thierry com a mulher nas aulas de dança. Thierry a dar banho e a vestir o filho deficiente. Thierry a negociar um preço abaixo do valor de mercado para vender a caravana onde passa férias. Thierry a limpar o topo dos armários da cozinha.

Thierry já passou dos cinquenta, está desempregado há vários meses e o subsídio vai baixar. Ao técnico do centro de emprego ele sugere que não mandem as pessoas fazer cursos de formação inúteis. “Tratem bem as pessoas”, diz ele. E pergunta como é que poderá viver com 500 euros.

Thierry consegue um emprego como segurança num hipermercado. Tem de fazer a vigilância para detectar eventuais roubos, quer por parte dos clientes, quer dos funcionários. Um velhote é apanhado com carne no bolso. É conduzido pela segurança ao cubículo de paredes brancas onde estas questões são tratadas. Basta pagar e a coisa fica por ali. Mas o velho não tem dinheiro para pagar a carne. Comam menos bifes, já dizia a outra.

O hipermercado, esse local de fantásticas promoções, onde todos nos dirigimos com os cupões de desconto à mão e aguardamos ordeiramente na fila para aproveitar os fabulosos preços baixos. Conseguidos à custa do esmagamento dos produtores, logo dos trabalhadores, logo dos consumidores que somos nós todos. [ Fantásticas promoções, imbatíveis, só hoje, 1º de Maio, no Pingo Doce.]

Thierry nunca aparece a beber uma cerveja, a coçar os tomates, a ter um gesto de enfado ou desistência. Via skype dizem-lhe que o CV podia estar mais bem redigido e que as hipóteses de conseguir o emprego são ínfimas. Há muita gente a dizer-lhe “vou ser directo”.

Costuma dizer-se que os mercados não têm rosto. Se tivessem, não conseguiriam olhar de frente homens e mulheres como Thierry.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

em primeiro lugar, as minhas desculpas pela ausência mas a minha vida deu outra vez uma volta. A aventura suíça chegou ao fim, regressei a Lisboa em Março e comecei a trabalhar a tempo inteiro, antes mesmo da chegada das minhas 30 caixas.

A casa parece que encolheu e por muito que me livre de coisas que percebi já não terem utilidade, o espaço é cada vez menor. Quanto ao tempo, também ele acaba por ser pouco para se regressar a um quotidiano que se tinha deixado meses atrás. O trânsito, os transportes públicos, os horários, entrar no ritmo tem o que se lhe diga.

Se estivesse na Suíça, no próximo fim-de-semana a cidade onde vivia iria festejar o Carnaval. Na Suíça, Carnaval é quando um Homem quiser. Se é verdade que as cidades católicas seguem o calendário litúrgico para bater certo com a quarta-feira de cinzas, que encerra o regabofe, e a Quaresma, período de suposta penitência até à Páscoa, não menos verdade é que nos cantões protestantes os festejos acontecem mais tarde.

Na católica Lucerna, por exemplo, o Carnaval já lá vai e começa sempre às cinco da manhã (leram bem!). Nessa madrugada o barulho é tanto que não há quem durma. A Guggenmusik – banda que quanto mais desafinada tocar, melhor – não pode faltar e, no final, há batalha de… laranjas. Depois deste momento de farra é hora de trabalhar. A festa continua à tarde, num cortejo pelas ruas da cidade e continua noite dentro já com o apoio das típicas salsichas e das tortas de queijo. Estamos na parte alemã, não convém esquecer.

Já a protestante Basileia, onde também se fala alemão, começa o seu Carnaval uma semana depois e também de madrugada, às quatro da manhã, altura em que se apagam as luzes da cidade. Diferentes grupos desfilam então pela cidade num barulho ensurdecedor. Trazem máscaras iluminadas, extravagantes e até assustadoras e tocam pífaros e tambores. O espectáculo termina já a manhã vai alta e os restaurantes começarem a abrir portas para servir uma sopa de farinha. Sim, não faltam os carros alegóricos, sátira política e confetis pelo ar.

Em Lausanne, na parte francesa mas igualmente protestante, o Carnaval tem pouco de Carnaval, tal como nós o conhecemos. Gente mascarada vê-se pouco, há bandas de música que tocam pelas ruas, cortejos de ranchos folclóricos e outras associações da Ilha de Páscoa, por exemplo, mas geralmente tudo ligado a associações de emigrantes. Aqui não desfilam suíços. Essa espécie de rara aparição pode ser encontrada, qui ça, na “Feira Popular” com divertimentos e barraquinhas de comes e bebes de cozinhas do mundo, a par do fondue e da raclette, claro. Para dar ao dente há noodles, arroz frito, pizzas e vá, a barraquinha da típica bifana com a bandeira de Portugal para o caso de haver dúvidas.  Aqui fica o programa, caso queiram lá ir…

Beijos a todas,

Paula

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Que força é essa

por , em 24/4/16

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Queridas Senhoras,

não me ocorre melhor forma de celebrar o 25 de Abril do que num concerto do Sérgio Godinho na Amadora. Ontem, nos Recreios, o espectador mais novo tinha 3 anos (o meu sobrinho) e a mais velha já devia ter passado os 90. A família estava toda reunida. Julgo que é a isto que se chama transversal.

O desinteresse e a alienação podem estar instalados mas não está tudo perdido. O brilhozinho dos olhos não vem só do novo iPhone ou da vitória do clube do coração. A canção de intervenção ainda causa arrepios. A mim, causa. Se a música de protesto está ultrapassada, então eu também estou.

Paz. Pão. Habitação. Saúde. Educação.

A paz está sob ameaça; o pão está caro e tem sal a mais; há casas vazias e muitos a viver na rua; a saúde é para quem a pode pagar; e a educação, bem, os licenciados e mestres a trabalhar em call centers são o novo paradigma. Mas já têm um sindicato.

O primeiro dia do resto da minha vida já lá vai mas os meus filhos têm a deles inteirinha pela frente. Garantias não têm nenhumas. Mas vão a manifestações desde pequeninos e sabem a história do 25 de Abril de trás para a frente. Os pais das crianças de hoje já nasceram depois do 25 de Abril, a história já é contada em terceira mão. Convém continuar a contá-la. E a cantar.

Quando se juntam todos, netos, pais e avós, isso tem um significado. Cantam a uma só voz:

A Liberdade está a passar por aqui.

Beijinhos a todas!

Céu

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A sabática de Eva

por , em 22/4/16

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Queridas Senhoras,

quem nunca quis puxar os lençóis bem para cima e ficar assim por tempo indefinido? Eva Beaver, uma bela mulher de 50 anos, se bem pensou, melhor o fez. No dia em que os seus gémeos de 17 anos, Brian Junior e Brianne, partem para a universidade, com os seus cérebrozinhos de génios matemáticos e o egocentrismo de quem se julga destinado a grandiosos feitos, Eva mete-se na cama. E de lá não sai.

Depois de dezassete longos anos a cuidar dos seus dois prodígios meio sociopatas, hackers frequentadores da dark net, e de um marido astrónomo (trabalho fundamental para a humanidade, não pode perder tempo com miudezas!), a tratar de limpezas, roupas, compras, doenças, escolas, férias, Natais, Thanksgiving Days…, Eva resolve, finalmente, descansar.

The Woman Who Went to Bed for a Year (tradução portuguesa A Mulher que Decidiu Passar um Ano na Cama, da Presença) é a história do que acontece quando alguém de quem se espera que “funcione” normalmente, avaria de repente. Sue Townsend (1946-2014), essa mesmo, publicou este livro em 2012, e aqui vamos encontrar o tom cáustico, as situações delirantes, a raiar o absurdo, que tão bem conhecemos dos diários do adolescente mais famoso de sempre. Adrian Mole, esse ícone dos anos 80 e 90, não é estranho a este ambiente de uma família “normal”, mãe, pai, dois filhos, duas avós, vizinhos e companhia. Só que de “normal” têm todos muito pouco. Cambada de weirdos.

A atitude radical e passiva de Eva desencadeia todo o tipo de estranhas reacções e comportamentos. Se no seio familiar receiam doença mental e querem que ela seja vista pelo médico, no exterior, à medida que a notícia se espalha, cresce um fenómeno de culto, com a ajuda das redes sociais, à volta da Woman in Bed. Vêm fanáticos de todo o lado, dispostos a tudo para conseguirem dez minutos com Eva. Esperam dela o mesmo que procuram nos livros de auto-ajuda ou nos artigos de revista que ensinam a ser feliz em dez passos (mais não). Acreditam que Eva tem a solução mágica para os seus problemas sentimentais, familiares, profissionais, para os seus medos e angústias, crimes e escapadelas. (Até que descobrem que Eva é uma mulher “normal”, com pés de galinha, despenteada e ainda por cima com o cabelo a ficar grisalho. E aí partem para outra.)

Sue Townsend traça um apurado retrato cómico-trágico da vida familiar, das relações entre marido e mulher (e a amante, que entretanto se muda para o jardim de Eva), da solidão em que vivemos, das tentativas que fazemos para ser aceites e para alcançar essa equação perfeita: amar e ser amados.

O amor é complicado, há coisas mais simples. Kindness vem a ser uma palavra-chave nesta história. A gentileza de segurar uma porta, não para uma senhora passar, mas para qualquer pessoa passar.

Tratar sempre toda a gente com gentileza. Já imaginaram a revolução que isso faria no mundo ou, mais simplesmente, na vida de todos os dias?

Beijinhos a todas!

Céu

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Pequenas humilhações

por , em 21/4/16

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Queridas Senhoras,

- Sabes o que é que tu és? Começa por f.

- Falhado?

Ooooooooooo. Estava nos mimos com o João quando ele se sai com esta. Falhado??? Onde raio é que ele foi buscar esta palavra. Quer dizer, nós lemos muitos livros, eles têm um vocabulário excelente mas há palavras que soam estranhas ditas por uma criança de seis anos (o que ele é, é “fofo”, já agora).

Claro que me fez confusão aquela palavra por causa da carga que lhe está associada, não necessária e totalmente negativa. Falhado é toda uma categoria, é um sub-género literário e cinematográfico. Os losers são anti-heróis clássicos. Mas acho que não era bem a isso que o João se estava a referir.

Quando tentei sacar-lhe mais informação, ele balbuciou qualquer coisa sobre ter falhado na escola. Disse que todos os dias da semana estavam a correr mal (!), que amanhã era quinta e lá íamos nós outra vez, como se estivesse à espera de mais azares. Como um autêntico loser.

Indaguei mais um pouco e lá se descaiu que há um miúdo que lhe dá pontapés na mochila e tal. Isso e mais os falhanços nas contas ou nas leituras.

Nestas situações, naqueles três segundos que tenho para pensar, esqueço de repente tudo o que dizem os manuais, os blogues e as minhas amigas entendidas em parentalidade. Viajo dos 6 aos 40 anos e recordo as micro-agressões, as pequenas humilhações, as piadinhas. E, estupidamente, fico meio paralisada a tentar articular duas ou três frases feitas – não temos que acertar sempre, não podemos ser bons em tudo, é a errar que se aprende.

Mas o que está na minha cabeça é: como é mesmo que nos defendemos?

Catarina, ajuda-me!

Ao longo da vida todos somos vítimas ou perpetradores de humilhações quotidianas, ninguém está a salvo. É fácil cair no bullying. Às vezes, só para conseguir uma boa piada, para fazer os outros rir, magoamos alguém, tal e qual fazem os meninos de seis anos. Já repararam como isso é recorrente, entre colegas, amigos, familiares? Até o Presidente da República o faz.

Por isso, como é mesmo que nos protegemos dos ataques? Como é que nos estruturamos desde pequenos para aturar os bullies desta vida, que vamos encontrar na escola, no trabalho, por aí.

Catarina, help!

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

estão sempre a abrir sítios novos na cidade. Eu sei porque vejo nas revistas, recebo informação e também porque ando nas ruas e vejo aqueles lettrings quase sempre iguais que os sítios novos têm (não sei se encomendam todos ao mesmo designer especialista em sítios novos).

Às vezes, ando pelas ruas propositadamente à procura dos sítios novos, os cafés, os restaurantes, os bares, os hostels, as galerias, as barbearias revivalistas com nomes catchy e conceitos “diferentes” embora os lettrings sejam todos muito parecidos. Mas enquanto tento localizar os sítios novos, saltam-me à vista os sítios velhos. Os vidros sujos, as montras tapadas com cartão ou papel de jornais que até podem já não existir, as grades descidas a meio do dia, a ementa dos pratos de um dia já longínquo.

Há Cozido.

Há Caracóis.

Os sítios novos têm flores à porta, escrevem o menu a giz numa ardósia, têm esplanadas giras, pátios e terraços. Os sítios velhos, aqueles que são só velhos e não históricos, não têm nomes originais mas o que está inscrito nos toldos encardidos e esfiapados inspira confiança, soa familiar.

Flor do Bairro, Adega do João, Salão Lena.

Os sítios novos aparecem todos os dias nas revistas, nos sites e nos suplementos de lifestyle. Os sítios com 100 anos também têm destaque garantido, a imprensa adora lojas centenárias. Mas os sítios que são só velhos, que fecham as portas por falta de clientes, acumulação de pó e dívidas, também deixam saudades.

Estrela da Avenida, Retiro do Largo, Barbearia Lemos.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′