Taksi to Taksim

por , em 20/4/15

Taksi to TaksimQueridas Senhoras,

cheguei ontem de Istambul, uma cidade vibrante com mais de 14 milhões de pessoas. Portugal inteiro e mais uns quantos visitantes cabiam nesta cidade, a mais populosa da Europa. Imaginem umas cinco ruas Augusta cheias de gente e com o comércio aberto à meia-noite. Assim era ao pé do hotel onde estávamos hospedados. Eu já me dava por contente se às 8 da noite o supermercado em Lausanne ainda estivesse aberto…

A viagem de Genebra para Istambul correu bem, embora um voo proveniente de Istambul com destino à Suíça tivesse sido desviado nesses dias devido a uma ameaça de bomba. A terceira num mês, aliás.

No meu voo viajavam muitas crianças. Uma que seguia imediatamente atrás de mim simpatizou demasiado com o meu cabelo e sempre que apanhava a mãe distraída lá ia um puxão. Será que a fixação dele teve a ver com o facto de quase nunca conseguir ver o cabelo da mãe que está sempre tapado por um lenço?

Comentava o Paulo que no voo que ele apanhou uma criança estava a chorar e que uma suíça travou-se de razões com uma turca porque esta última não conseguia fazer calar a criança. Ora, toda a gente sabe que na Suíça nem os cães ladram nem as crianças fazem birra, por isso a suíça tinha muito que ensinar.

Uma vez em Istambul, tratei logo de procurar um restaurante de peixe. Eu e a minha adoração por peixe… Pesquisámos na internet um artigo com o sugestivo nome de “Os 10 melhores sítios para comer peixe em Istanbul”. Pareciam saber da pesca. Dirigimo-nos a um taxista e perguntámos de sabia onde ficava aquele restaurante. Disse que sim. Perguntámos quantos quilómetros, respondeu 10. Para nosso azar, estas eram, muito provavelmente, as únicas palavras que sabia dizer em inglês.

Seguiram-se, imaginem, uma hora e meia a andar de táxi por túneis, vias rápidas, pontes com o taxista sempre ao telefone. Eu cheguei a pensar que já estava na Ásia! Perguntávamos o que se passava, só conseguíamos perceber que eram problemas com a morada. Ele parava o táxi e falava com os conterrâneos para saber onde era. E mesmo assim não dava com o restaurante. Já muito fartos mandámo-lo parar no meio do nada, pagámos 80 liras (24€) e saímos. Para regressar ao centro foram mais 75 liras (22,50€) e outra hora perdida. O preço de um bom jantar em Portugal.

Depois do jantar e já muito “queimados” com os taxistas, hesitámos em regressar à Praça Taksim (hotel) de táxi, mas já era tão tarde… Abordámos o único taxista na rua que nos deu como estimativa menos de 5 km, na verdade era só subir uma avenida. E assim foi. Esfregámos as mãos de contentes, mas depois tivemos de as separar para ir ao fundo das calças buscar mais 50 liras! (15 euros).

- Isto em Portugal não aconteceria. Uns mais do que outros mas os taxistas até se safam com o inglês. E depois já todos têm GPS.
- Então porque é que eu paguei 25€ do aeroporto ao Parque das Nações, dizia um amigo nosso estrangeiro?
- Sabem um sítio onde isto seguramente não aconteceria?

Suspense

Era na Suíça.

Ah, nada como invocar os suíços para acabar de imediato com uma conversa.

Beijos a todas,

Paula

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Queridas Senhoras,

o parlamento debate hoje as medidas de incentivo à natalidade. Podem saber mais sobre o assunto aqui.

Ouvi a notícia de manhã na rádio e fiquei de imediato alerta. As relações entre a vida profissional e a vida familiar e pessoal é um tema que nunca me deixa indiferente. Comecei logo a pensar em medidas de apoio à felicidade:

- Dar folga dos dias de aniversário: do próprio, do cônjuge, dos filhos. Pelo menos dois à escolha mas tantos quanto o número de filhos. Quem não tem filhos pode optar pelo dia de aniversário dos sobrinhos, afilhados ou outra criança com significado especial na sua vida. Podem ir buscá-los à escola mais cedo ou inclusive baldarem-se os dois para o jardim ou para a praia.

- Instituir um fim-de-semana prolongado por mês, sempre que o calendário não providencie um.

- Folga surpresa: de repente, é decretada uma tarde livre! Todos sabemos a onda de bem-estar que nos atinge quando nos descobrimos livres sem esperar. O tempo subitamente vazio de obrigações é um balão colorido que pode esvoaçar para qualquer lado ao sabor do vento.

- Tempo para workshops ou cursos de formação à escolha. Jardinagem ou literatura, programação ou tricot. Pós-graduações, mestrados, aperfeiçoamentos, especializações ou generalizações. Aprender! Estudar! Há muita conversa fiada sobre a aprendizagem ao longo da vida mas, com um trabalho a tempo inteiro, é dificílimo conciliar horários para frequentar um curso. Os cursos online são uma possibilidade mas também para esses é preciso tempo livre.

- Trabalhar a partir de casa durante um período combinado (sei que algumas destas medidas já existem mas não estão generalizadas). Alternar períodos de trabalho no escritório e em casa parece-me uma medida útil e inteligente. Por vezes estamos fartos da rotina do escritório e quebrá-la com a organização do tempo à nossa maneira, em casa, longe do toque dos telefones e do ruído laboral, pode ser um bálsamo. A sabática doméstica pode servir também para valorizarmos o que de estimulante existe no local de trabalho: o convívio, partilha, a troca de ideias, os benefícios do espírito de comunidade e de cultura empresarial.

- Premiar com dias de férias extra. Por um esforço especial num projecto exigente, um bom desempenho, um negócio fechado, por ser bom colega, por isto, por aquilo, porque sim! Porque precisamos de férias, de tempo para viver, para estar com os filhos, para namorar, para manter as amizades vivas, para ajudar os outros, para ter tempo para os outros, para passear e viajar.

Beijinhos a todas,

Céu

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O estigma do emigrante

por , em 13/4/15
Flon, a zona chique de Lausanne onde ocorreu o acidente

Flon, a zona chique de Lausanne

Queridas Senhoras,

acabo de chegar de Portugal, razão pela qual não vos dei notícias da Suíça durante duas semanas. Não vou perder tempo a contar o regresso, vou-vos apenas contar a reacção de algumas pessoas ao meu regresso e a tentativa forçada de encontrarem diferenças.

- Roupa nova?
- Não. Na verdade estes trapos eram do tempo da minha avó…

- Já de sandálias? É mesmo à imigra.
- Então mas não estão 30 graus?

- Deixa-me adivinhar, já compraram carro novo na Suíça e vieram com a bomba “ao Portugal” estas férias…
- Não, viemos de avião e não comprámos carro na Suíça…

Mas já que vos falo em emigrantes, tenho outra história para vos contar. No dia em que regressei à Suíça, já quase a chegar a casa na zona do Flon, tive um acidente de carro. Nada de grave, só um raspão e a chatice de perder 2h30 em conversa da treta. Vou tentar resumir-vos o acontecimento em flashes.

Ao ultrapassarem-nos numa via com traço contínuo uma família insuspeita foi embater no carro onde seguia. Tentaram fugir mas o sinal do final da avenida ficou vermelho. Então saíram do carro a gesticular e aos berros como se a culpa fosse nossa.

Não nos demos por culpados e chamámos a polícia. Como a polícia não vinha, o motorista do trolley (autocarro) ordenou que encostássemos os carros ao passeio para os transportes públicos passarem.

Veio a polícia. Como os carros não estavam no exacto local do acidente aconselhou-nos a dividirmos a culpa e irmos todos para casa que dava menos trabalho a todos. Por termos chamado a polícia e termos estado a interromper o trânsito (que acabámos por não interromper porque nos mandaram tirar os carros), lá vai multa.

Como os dois envolvidos não chegaram a acordo e eram os dois estrangeiros, um israelita que só fala inglês e os equatorianos que falavam espanhol e francês, a polícia tomou depoimentos em separado (uma senhora só fazia perguntas aos hispânicos, o senhor encarregou-se do israelita) e proibiu-os de falarem um com o outro uma vez que se poderia perder alguma coisa na tradução. Agora só com os tradutores ao serviço do tribunal. Moral da história: ao que parece, se fôssemos todos suíços tudo seria mais fácil…

Beijos a todas,

Paula

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Queridas Senhoras,

em Novembro (o tempo passa, chiça) a Marta falou aqui de A Livraria de Penelope Fitzgerald. Como manifestei interesse (coisa nada rara quando se trata de sugestões da Marta), pouco depois recebi o livrinho pelo correio, dando seguimento ao nosso já lendário intercâmbio. O livro ficou pacientemente à espera na mesa-de-cabeceira.

Não é que não tivesse vontade de o ler mas tinha outras coisas em mãos. E achei que o livrinho se deixaria ler bem em qualquer altura. Pequeno, discreto, foi ficando ali, com a sua capa muito digna e composta. Entretanto descobri a Elena Ferrante, li A Amiga Genial, sobre o qual escrevi para a Maria Capaz, e depois ainda, da mesma autora, Crónicas do Mal de Amor.

Quando fui de férias, na Páscoa, não me ocorreu levá-lo. Para quê sujeitar um volume tão singelo e elegante aos percalços da viagem? A leitura seria sôfrega, não demoraria dois dias. De modo que levei o bem mais substancial Origens, de Amin Maalouf.

Até que, na semana passada, peguei nele. Estava tão sereno como antes. E há qualquer coisa de reconfortante num livro que espera por nós, indiferente às pressas e às pressões. Nos meses em que A Livraria esteve na minha mesa-de-cabeceira, eu continuei a correr desenfreadamente como de costume (e até corri uma meia-maratona pelo meio). Por ironia, passei até a ser mais vigiada e controlada. Por um relógio de ponto, para ser precisa. Que detecta “anomalias” no meu horário e regista que trabalhei apenas “7 e 59 minutos” em vez de oito horas.

Ligo e desligo o relógio de ponto todos os dias. Mas eu própria não consigo desligar. É essa a verdadeira anomalia. O Kelio (é assim que se chama o relógio de ponto, juro) não tem provavelmente noção disto. O Kelio não espera por mim. Tal como o comboio parte sem mim, sempre que me atraso, por mais que corra para apanhá-lo. Nem a aula de yoga deixa de começar a horas. Os miúdos têm que estar na cama o mais tardar às dez da noite. E é a essa hora que começa também a minha série.

Só os livros não têm hora marcada. E ainda menos os que estão fora do circuito, das novidades, daquilo que é suposto andar a ler. Se calhar foi por isso que A Livraria me soube tão, mas tão bem.

Obrigada, Marta.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

cheguei há pouco da primeira sessão do recém-criado Clube Literário da Amadora na Biblioteca Municipal Piteira Santos. O início foi auspicioso, com a presença do escritor Valério Romão, acompanhado pelo seu editor João Paulo Cotrim da Abysmo.

A primeira coisa que Valério disse foi “obrigada por estarem aqui, num dia de semana”. Disse, mais à frente, que a escrita é uma maratona solitária. E depois o editor acrescentou que a leitura também pode ser solitária.

Que escritores e leitores se juntem numa improvável terça-feira à noite, numa biblioteca da Amadora, parece quase um acto subversivo, de resistência. Driblar o cansaço, as horas de trabalho, os transportes, o jantar e a louça por lavar para ir ouvir falar de literatura.

- “Vão-te contar uma história?!”

Foi o que a Alice perguntou quando expliquei que ia sair depois de jantar para ir à biblioteca ouvir um escritor.

Digo sempre que é um privilégio ter bons eventos culturais à porta de casa, seja uma peça de teatro nos Recreios da Amadora, um concerto no Parque, o festival anual de BD ou espectáculos infantis. Custa-me imaginar que uma companhia de teatro, um escritor ou outro criador vai estar a falar para uma plateia às moscas. No caso dos escritores, especialmente, estes encontros saem-lhes do pelo, por assim dizer. É divulgação, sim, mas muitas vezes para meia-dúzia de gatos pingados.

O livro em destaque foi o mais recente do autor, intitulado Da Família. Também se falou de outros - Autismo, O da Joana, Facas. Não li nenhum. Tinha ouvido falar de quase todos e lido alguns excertos. Sabia que a escrita era forte, intensa, arrasadora.

Na sessão houve uma pequena dramatização do conto A avó foi sendo esquecida, um dos 11 que compõem o livro escolhido. A família e os médicos dizem que a avó já não tem remédio, está por meses. O neto é o único que não desiste dela.

Chegando a casa, largava a mochila no quarto, metia um papo-seco com manteiga à boca e ia para o quarto da avó, de onde só saía com ela pelo braço, em direcção à casa de banho, à porta da qual ficava especado, como a guarda real do palácio, à espera de ela sair, certificando-me de que se tinha vestido adequadamente e de que lavara as mãos e, se necessário, voltava ao lavatório, onde, debaixo de uma água fria de inverno, as nossas mãos assimétricas encontravam no lavar e no ser lavado o espaço de uma rígida troca de afectos, e eu nem ousava sorrir, malgrado a felicidade sentida por poder cuidar, e até bastante razoavelmente, de alguém que não eu, e a minha avó, fendia na compreensão da empatia mais primitiva, esquecera-se da anatomia de um sorriso e o mais perto de um sorriso que lhe via acontecer no rosto traduzia-se em ela não desviar o seu olhar do meu, e falávamos de coisas indizíveis.
(…)
Aconteceu por diversas vezes deixar-me dormir no sofá, no conforto do colo da avó, e para tanto a minha mãe, como a restante família não suspeitarem de que a avó mantinha em segredo uma lucidez escondida de todos.
Da Família, pp 57-66

(Naturalmente, vieram-me as lágrimas aos olhos.)

Obrigada ao Valério Romão e longa vida ao Clube Literário da Amadora. Que este tenha sido o primeiro de muitos encontros subversivos.

Beijinhos a todas,

Céu

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Férias

por , em 5/4/15

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Queridas Senhoras,

uma semana de férias com sabor a Verão foi aquilo a que tivemos direito. Tirando o enfado de fazer e desfazer malas, a canseira de arrumar e limpar, a costumeira sensação de nunca termos descanso, na verdade foi uma semana bastante descansada, no sentido mais produtivo do termo.

Corrida
A corrida matinal ganha outro impulso com a brisa marítima. Saio para correr todos os dias por volta das oito (ou antes, quando consigo), regresso uma hora e pouco depois e arrancamos para a praia. À beira-mar não resisto a uma caminhada que por vezes se transforma na segunda corrida do dia. Pelo puro prazer de correr mesmo junto ao mar, de sentir as gotas de água salgada colando-se ao rosto com o vento. Caminhar ou correr numa espécie de hipnose, absorvendo o mar e o vento, o mar e o vento. [Não perceber porque passo tanto tempo longe do mar e do vento.] Entrar pela enésima vez em fantasias de ter uma vida mais livre, mais solta, mais próxima do mar e do vento.

Comida
Evitar os pratos do dia-a-dia, comer o que não é costume ou é raro. Raro para quem, como nós, nunca se dá ao trabalho de efectivamente cozinhar. Lulas recheadas. Favas à algarvia com peixe frito. Feijoada de marisco. Posta de cherne grelhado. Pernil assado. Começar sempre com uma bela sopa. Juliana, feijão, espinafres. (Para mim não cola a ideia de que com calor não se come sopa. Defendo a sopa acima de todos os pratos!).
Pecado: comer folar quente aos pedaços, pelo caminho, e chegar a casa com apenas metade.

Livros
Ou tenho muita sorte ou são as férias que tornam as leituras especialmente boas. Origens, do libanês Amin Maalouf, é o livro que me acompanha ao longo da semana. Caiu-me nas mãos via Calita e fez-me uma companhia tão boa que nem vos digo. Desconhecia a obra e o autor (é para isso que servem os bons blogues), a descoberta foi total, em todos os sentidos. O autor mergulha nas suas origens familiares para nos contar a história aventurosa dos seus antepassados e de um território de difícil apreensão: o Médio-Oriente.
Acabo as mais de 400 páginas e ainda me sobra tempo. Folheio e leio algumas partes de My Age of Anxiety mas na realidade não quero afligir-me. Pego num pequeno livro de poemas de Jorge Luís Borges, Os Conjurados, e leio no prólogo, escrito aos 85 anos (um ano antes da sua morte), “Não se passa um dia que não estejamos, um instante, no paraíso.”

Notícias
Não vejo TV, não consulto o facebook. Não por nenhuma convicção especial mas porque nas férias gosto de cortar com alguns hábitos (tem a ver com alimentação também: não quero mais do mesmo).
Morre o Manoel de Oliveira e apetece-me ler tudo o que sai nos jornais. Na realidade, pouco melhor conheço os seus filmes do que conhecia a poesia de Herberto. Mas sinto-os como uma omnipresença e quando leio que “a voz off do narrador de Vale Abraão” é qualquer coisa de prodigioso (“o que de mais belo ouvimos nos últimos 20 anos”), ouço essa voz, tenho essas imagens comigo. Previsivelmente, fico com muita vontade de ver todos os filmes, colmatar todas as falhas, ler toda a poesia. [Voltar a fantasiar com uma vida livre, solta, com muitos livros, filmes e corridas junto ao mar. Uma sucessão de instantes. Mas quando é que vou crescer? Lá para os 85?]

Como foi a vossa semana? O que contam?

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′