hopper-meditations-woman-in-the-sun-i-2012-richard-tuschmanHopper Meditations

Queridas Senhoras,

a Marta faz anos hoje e já nos presenteou com um  maravilhoso texto que muito me emocionou. Em jeito de homenagem, aqui vai uma espécie de “best of” da Marta, um “Marta de A a Z”. É uma lista, como agora se usa, de fácil leitura para não cansar. Mas como bem sabemos não lhe falta conteúdo. É um “Kit Marta”, um “Marta de bolso”, um “Marta responde”… enfim, acho que já deu para perceber. Pronto, fiquem com “O Melhor de Marta”.

Atenção
Beleza
Cartas (e aqui)

Envelhecer
Feedly
Gramática
Herberto Hopper  (e aqui)

Islândia
Jón Kalman Stefánsson  (e aqui)
Keeping Things Whole
Lentidão

Memórias  (e aqui)
Neuman, Andrés
Orgulho
Penelope Fitzgerald

Philip Barrow
Quarenta anos
Reler
Respirar

Sublinhar
Turner
Ursula K. Le Guin

Violência doméstica (e aqui)

Wolf, Virgínia
Xerox
Yves Simon
Zen

Obrigada querida Marta!

E Muitos Parabéns pelos teus magníficos 42 anos!

Beijinhos a todas,

Céu

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A viagem

por , em 23/5/15

041.tifEdward Hopper, Approaching a City, 1946

Queridas Senhoras,

é uma da manhã. Há exactamente 42 anos, nasci para o mundo, numa maternidade que já não existe, de uma mãe que já não existe. Os aniversários são-me sempre agridoces, mas ainda assim nunca me esqueço de que há que celebrar estar viva.

Hoje, enquanto comprava um fogão, uma cama e um ferro de engomar, entoava silenciosamente um trecho de um poema de David Whyte: You are not leaving./ Even as the light fades quickly now,/ you are arriving. E a seguir o meu cérebro fazia, claro, uma ligação imediata: É sempre sem aviso que chegas. Fui agora buscar o livro de José Jorge Letria (O Desencantador de Serpentes) que inclui um poema que me marcou desde que o li pela primeira vez, em 1993, porque aquela sou eu:

Apesar da Viagem

É sempre sem aviso que chegas. Telefonas-me
do café da esquina para dizeres que vais
subir. Trazes um disco para ouvirmos
juntos. Conheço os teus gosto irregulares,
as tuas referências musicais, os adjectivos
com que fustigas tudo o que te desagrada.
Dá-me trabalho descobrir de onde vens.
Há sempre uma cidade, um estúpido drama
caseiro por detrás de cada uma das tuas
chegadas. A porta abre-se e tu entras
e vens desarmada de argumentos, com a voz
enrouquecida do tabaco e da insónia.
Podíamos consumir as palavras todas
de repente ou sentarmo-nos numa esplanada
à espera de que o sol nos caísse na mesa.
Mas ficamos assim presos à rotação do disco,
enquanto as formigas tomam de assalto
o açúcar na borda do pires e o homem da luz
enfia debaixo da porta a conta do mês.
Como estás bonita apesar da viagem.

42 anos é uma bela idade para uma chegada. E como estou bonita apesar da viagem.

Beijinhos muito grandes a todas,

Marta

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O meu futebol

por , em 18/5/15

catchumbo

Queridas Senhoras,

desafiada pela Céu a escrever sobre futebol, deixo-vos uma retrospectiva de mais de 30 anos. O meu pai não teve o filho que tanto queria, mas em contrapartida, nasceu-lhe uma Maria-rapaz que usava vestidinhos aos folhos e que o acompanhava aos jogos da bola no campo. Isto ainda antes dos seis.

Lá para os sete/oito anos, pedi como prenda uma bola de “catchumbo” e os rapazes da minha rua vergaram-se perante mim. Era eu quem escolhia as equipas e a posição no jogo e como devem calcular, nunca mais fui à baliza. (Não, não era gorda).

Aos 16, conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida num jogo de futebol. Estávamos no Estádio Nacional, no campo jogava o Sporting e Porto. Os motivos que levaram uma adepta do Benfica a este jogo davam tema para outro post.

Depois, quando pensei enveredar pelo jornalismo, era o desportivo que mais me convencia. A Bola e o Record iam lá sempre parar a casa, por via do meu pai ou avô, e a minha sala era sempre disponibilizada para assistirmos aos jogos entre amigas. Na altura víamos as partidas enquanto comíamos pipocas caseiras recheadas com mel. A cerveja viria mais tarde.

Comecei a desinteressar-me por futebol assim que me apercebi dos “jogos” por detrás deste jogo, as negociatas e os escândalos, enfim.

O Benfica ganhou o 34º campeonato e o meu pai benfiquista estava comigo, aqui em Lausanne. Só que os portistas cá de casa recusaram-se a vir festejar connosco, mesmo depois de lhes ter avivado a memória das inúmeras vezes que os acompanhei quando a alegria das vitórias lhes sorriu a eles.

O assunto não demorou muito tempo a ser discutido, porque as autoridades suíças trataram de avisar que aqui, neste território, o ruído era proibido na praça pública. E assim festejaram os benfiquistas, com umas cinco buzinadelas e uns 10 gritos, uma horita, vá, até às 10 da noite em ponto. Uma loucura!

Beijos a todas,

Paula

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bg

Queridas Senhoras,

o meu interesse por futebol é nulo e quase lendário. A Senhora Paula poderá comprovar que são anos e anos de profunda indiferença, o que me deixa irremediavelmente de fora das mais óbvias alusões e piadas que preenchem o dia-a-dia do nosso futebolístico país.

Não se trata de uma indiferença militante, propositada ou estudada. É assim desde sempre, simplesmente. É claro que não sou indiferente ao futebol nos seus aspectos sociológicos e humanos, por exemplo. Mas, por favor, não me perguntem o nome de treinadores, não me peçam para identificar jogadores.

“Ah mas quando é Portugal a jogar interessas-te, não é?” Epá, não. Posso ser levemente contagiada por alguma fúria lusitana que se alevante numa competição internacional mas não mais do que isso.

Viver tão alheada deste mundo e, em dias como o de hoje, perceber que se fala do mesmo em todo o lado, pode ser curioso. E é com uma curiosidade algo científica que não deixo de me espantar pelo espaço que o futebol ocupa nas conversas e na vida de tanta gente.

Posto isto, e como sei que há pouca gente a partilhar do meu desinteresse, desafio a Senhora Paula a contar-nos, no post de amanhã, como é que a vitória do Benfica foi vivida lá por Lausanne.

Beijinhos a todas,

Céu

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Sentido único

por , em 15/5/15

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Queridas Senhoras,

alguém viu ontem a estreia de Wayward Pines no canal Fox? Um artigo na revista Time Out chamou-me a atenção, depois percebi que a série estava a ser anunciada e falada em todo o lado como um grande acontecimento (como fazem agora os canais com estas estreias mundiais esmagadoras: 126 países viram o primeiro episódio).

Do que li, chamaram-me a atenção alguns elementos que me levaram a ficar acordada para assistir ao primeiro episódio: reminiscências e influências de Twin Peaks, realização M. Night Shyamalan e algumas caras conhecidas do cinema (Matt Dillon, Juliette Lewis, entre outros) a acrescentar valor.

Não me arrependi de ter ficado acordada mas não sei o que esperar dos próximos episódios. É que parece que já ficámos a saber tudo. Conhecemos bem este universo, os ambientes de cidade fictícia habitada por gente estranha (expectável mas sempre deliciosa a apresentação da galeria de personagens, cada um mais apanhadinho que o outro. A enfermeira Pam – Melissa Leo – é um clássico instantâneo. Podemos ter pesadelos com aquela bata branca de seringa em riste).

Mas como dizia, já vimos muitos filmes e bastante TV desta, com criaturas normalizadas ao jeito das Stepford Wives, os cenários à Truman Show (não há grilos verdadeiros, são gravadores espalhados), as vilas afastadas e isoladas de tudo que escondem um segredo (o próprio M. Night Shyamalan tem um filme chamado The Village).

No primeiro episódio, tal como nós, o agente especial Ethan Burke (Matt Dillon) fica a saber tudo: que foi parar a uma cidadezinha sinistra, cheia de gente doida, de onde não o vão deixar sair tão cedo (naturalmente, alias, a cidade não tem saída: a estrada anda em círculos).

Portanto o que segue? Qual o caminho que a série irá tomar?

(Está visto que não li os resumos dos próximos episódios.)

Beijinhos a todas,
Céu

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O garfo-estátua do Alimentarium, no lago Léman, em Vevey.

O garfo-estátua do Alimentarium, no lago Léman, em Vevey.

Queridas Senhoras,

o Carnaval é quando o Homem quiser e aqui em Lausanne os homens quiseram que fosse nesta altura. De 8 a 10 de Maio esta cidade transformou-se numa feira popular a céu aberto com divertimentos que eu já não via desde os tempos em que, nas férias grandes, ia aos bailes das paróquias.

O tiro ao alvo para ganhar um peluche é um clássico, o dos murros para averiguar a força também, mas o que mais gente acolhia à volta era a barra. Homens suspensos pelos braços tentavam chegar à marca dos dois minutos. Um ecrã bem visível cronometrava os segundos e cada vez que caía um, havia um amigo disponível a suplantá-lo. Bom para o negócio.

Quanto aos comes e bebes, contei a barraquinha dos chineses com noodles a preço de feira (ironia), a dos brasileiros com águas de coco, caipirinhas e afins e, claro, a bela da bifana da barraquinha portuguesa, onde o dono tanto olhava para a carne temperada como para a “febra” que passava em frente.

E os suíços, onde é que andavam eles? Uma criança que poderia passar por suíça tentava pescar os peixinhos de plástico que “nadavam” num rio artificial mas, quando a banda começou a tocar, tapou os ouvidos e pediu à mãe para ir embora.

- O ponto alto disto é o cortejo!

Acho que prefiro não ver. Foi aí que decidi passar a tarde em Vevey. Esta pacata cidade suíça com cerca de 20 mil habitantes foi a morada de Charlie Chaplin nos últimos 20 anos da sua vida. E lá está a estátua a perguntar aos mais incautos o que fará tal figura dos filmes mudos em terras suíças. Para a Primavera do ano que vem, está prevista a abertura de um museu dedicado ao artista.

E o que faz um garfo gigante espetado no lago? Esta estátua indica que se está na presença do Alimentarium, um museu dedicado à alimentação dirigido por uma fundação da gigante Nestlé, empresa alicerçada em Vevey em 1867. Elogio das marcas da casa à parte, foi aqui que fiquei a saber que o biberão não é uma coisa dos nossos tempos e que há 10 mil anos já havia utensílios destes.

À saída, o cheirinho a barbecue invadia a marginal. Famílias inteiras montam o seu acampamento em relvados e jardins públicos e fazem os seus grelhados com toda a comodidade, como se estivessem num parque de campismo. Vi de tudo, grelhadores portáteis a gás, a carvão, eu sei lá. Entretanto com tanta espera, havia quem fosse tomar uma banhoca no lago Léman.

E os suíços, onde é que andavam eles? Esses, muito provavelmente, estavam a aproveitar o bom tempo no meio do lago, mas a bordo dos seus veleiros.

Beijos a todas,

Paula

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Questionário ‘Ter 40′