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Queridas Senhoras,

se o Senhoras da Nossa Idade resolver inaugurar uma rubrica de Sugestões de presentes de Natal, deixem-me começar por recomendar o livro-disco Mão Verde. A música é de Pedro Geraldes (Linda Martini) e as letras de Ana Matos Fernandes, mais conhecida por Capicua.

A Alice recebeu-o pelo aniversário e entrou logo no nosso esquema de leituras diárias. Neste caso leitura-escuta. Um poema-música por dia. Aconteceram várias coisas engraçadas e dignas de nota. Desde logo, os miúdos não se contentaram com uma faixa por dia. Queriam mais. Depois, quiseram repetir várias vezes as faixas preferidas. Aprenderam os refrãos, e parte do resto das letras, com muita facilidade.

Como diz a apresentação, Mão Verde é um disco-livro ecologista, que fala da terra, das plantas, dos animais, de reciclagem, de alimentação consciente, de aquecimento global… O nome vem da expressão francesa “avoir la main verte” que significa ter jeito para cuidar da terra.

Mas os poemas extravasam o âmbito puramente ambientalista. Partindo da ligação à terra, discutem-se preconceitos, questões de identidade, de género e até filosóficas. Veja-se o caso d’ A fábula não moralista (todos se aninham e fazem o ninho, tocam-se e fazem a toca) ou do Quente&frio em que o aquecimento global é pretexto para considerações sobre a passagem do tempo, o Verão que é tão curto para uns e longo para outros.

Sugeri à Alice e ao João que treinassem uma das músicas que mais gostassem para apresentar na Noite de Natal. Vai ser o Confio(Des)confio. Foram eles que escolheram mas à partida eu também confio em quem canta:

Desconfia de quem diz que cor-de-rosa é para meninas
Que os rapazes nunca choram e não brincam às casinhas

confio

 

 

Beijinhos a todas,

Céu

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Tragédia a Vermelho

por , em 5/12/16

 

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                                                                                                                                                                                               ”Vermelho” – Foto de Ivan Abujamra

 

Queridas senhoras,

cheguei ao Brasil no exacto dia da queda do avião que transportava a equipa de futebol do Chapecoense. Soube da triste notícia assim que as portas se abriram para a sala de espera do aeroporto e uma mulher correu para o marido, assim suponho eu, de braços abertos a dizer “ainda bem que o avião que caiu não era o teu.” Tremi.

Houve uma altura que as “cartas” com o selo do Brasil traziam notícias mais alegres e tinham o dedo da Mariana. Não quero fazer aqui o papel de desmancha-prazeres. Mudemos já de assunto, então, não sem antes perguntar-te, a ti Mariana, como te está a correr tudo no México.

Aqui por São Paulo vive-se o Natal de t-shirt e chinelo no pé. Mas isso tu já sabes, né? Fui ver a árvore de Natal ao Parque Ibirapuera e não deixa de ser estranho, para quem estava o ano passado a olhar para um sapin de noel na Suíça, olhar para uma outra no Brasil, com os mesmíssimos símbolos (flocos de neve, ursos brancos) quando os termómetros indicam 30 graus.

O Mercadão foi onde me fui abastecer da fruta mais exótica que já provei e também a mais cara: 50 euros por pouco mais de um quilo. Eu sei, eu sei, há quem gaste tudo em droga, não é Céu, mas eu prefiro uma boa peça de fruta: mangostão, dragon fruit, jabuticaba, açaí, caju (fresco não é o seco), goiaba, coco, acerola, carambola, eu sei lá. Tudo simplesmente maravilhoso.

As conversas com os paulistas é que não deixam de ser estranhas. Já passei por espanhola (eles percebem melhor o castelhano da América do Sul do que o português) e houve até quem me respondesse em inglês para eu perceber melhor… É nestas alturas que dou graças a horas e horas de novelas da Globo.

Paulista: Você entende tudo o que eu falo?
Eu: Tudinho, ué.

Aproveitei a oportunidade para ir ao cinema, ver o que não passa em Portugal. Elis, o filme, foi a minha escolha. Gosto de E. Regina mas pouco sabia da sua biografia. De certeza que tu, Marta, com a tua cultura musical sabias mais deste tema que eu. Vou agora dedicar-me a ler as letras das suas músicas à luz do que foi a sua vida. Seguramente terão outro significado.

No teatro a opção foi a peça Vermelho de John Logan que também já esteve em cena em Lisboa. Na altura deixei passar. Agora não. António Fagundes (sim o das novelas) é Mark Rothko (1903) e o seu assistente é interpretado pelo filho.

- O que é que você vê ali?
- Vermelho.
- Você quer dizer escarlate? Você quer dizer carmesim? Você quer dizer ameixa-amora-magenta-borgonha-carmin-coral? Qualquer coisa menos “vermelho”. O que é “vermelho?”

Esta é a história de um pintor russo que teve uma das encomendas mais caras da história da Arte contemporânea (cerca de 2 milhões de euros nos dias de hoje) mas que desistiu dela, devolvendo todo o dinheiro, após ter ido visitar o local onde ficariam as suas obras.

O homem, que passava dias e dias a olhar para as telas, definindo distância de leitura da tela e intensidade da luz do espaço, desistiu bruscamente da ideia de ter as suas pinturas num dos restaurantes mais caros do mundo, o Four Seasons, de Nova Iorque, após lá ter ido jantar.

O que mais o desiludiu não foi não conseguir decifrar os pratos do menu com nomes pomposos, não foi o facto de as pessoas estarem mais preocupadas em ouvir as conversas das mesas ao lado, não foi o ver e ser visto, foi só e tão simplesmente a falta de contemplação. O mesmo desgosto que lhe dava quem comprava as suas obras cheias de cor para condizer com o sofá ou o tapete da sala.

Suicidou-se em 1970. Se, hipoteticamente, tivesse nascido décadas depois e ainda fosse vivo não lhe agradaria nada saber que, segundo os últimos dados do Louvre, em média um visitante daquele museu passa apenas 7 segundos diante de uma obra. O tempo de tirar uma selfie, vá.

Ter-se-ia suicidado na mesma.

Beijos a todas,

Paula

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Uma espécie de opúsculo

por , em 29/11/16

2ef0636670e1132d43e6f5a7a6d1a52e-bigbookQueridas Senhoras,

em primeira mão para o Senhoras da Nossa Idade, trago o review do novo livro de Ricardo Araújo Pereira, A doença, o sofrimento e a morte entram num bar – Uma espécie de manual de escrita humorística.

Não contem comigo para dizer mal do RAP mas chamar livro a estas 118 páginas muito bem encadernadas, com a chancela da super cool Tinta da China, é talvez exagerado. O livrinho é mais um opúsculo, vá, um artigo de imprensa extenso que poderia perfeitamente figurar numa daquelas revistas literárias de intelectuais.

Posto isto, repito, não contem comigo para dizer mal do RAP. O rapaz precisa de ter obra nova à venda no Natal e em vez de compilar mais um volume de crónicas ou mixórdias, enveredou pelo ensaio sobre o humor. E enveredou muito bem. Mas pouco. Muito pouco, há que convir. Duas horas bastam para ler o livrete com calma. São muitas as citações, algumas extensas e paginadas com largueza.

Mas não contem comigo para dizer mal do RAP. Antes 100 páginas de boa prosa “araujiana”, com abundância de referências, da antiguidade clássica a Seinfeld, do que 300 de tanta xaropada que para aí ainda. Mas, ainda assim, é pouco, muito pouco. Uma pessoa começa a tomar-lhe o gosto e aquilo chega logo ao fim. Os exemplos e citações são úteis, cultos e curiosos. Mas ocupam um terço de um livrinho já de si avaro nas páginas.

Porém, não contem comigo para dizer mal do RAP. Até porque, em poucas palavras (muito poucas!), com a erudição que lhe conhecemos, ele convoca uma série de autores e textos, estabelece relações entre eles, ilustra, elucida, revela, desvenda os mistérios do humor. Elenca (sim, ele também faz isso) os recursos mais frequentes e eficazes da matéria humorística. A imitação, a repetição, o exagero, a contradição, a deslocação.

Para compor o ramalhete, há um preâmbulo (reparem, não é um reles prefácio, é coisa muito mais fina) e uma conclusão. E um índice remissivo. O que se torna involuntariamente cómico porque um índice deste género é normalmente incluído em livros mais volumosos. E, no entanto, é notável a quantidade de autores e textos que RAP logrou (sim, ele também logra coisas) integrar na sua singela obra. De personagens bíblicas a Kramer (Seinfeld), d´Os Maias a Quentin Tarantino, passando pelos inevitáveis Monty Phyton, Woody Allen, Larry David e tantos outros, estamos perante um verdadeiro compêndio (mini-compêndio, pronto) de figuras, reais e ficcionais, ligadas ao humor.

Por tudo isto, queridas Senhoras, reitero: não contem comigo para dizer mal do RAP!

Beijinhos a todas,

Céu

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Sim oh sopas

por , em 22/11/16

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Queridas Senhoras,

não há como uma sopa para consolar o estômago. É a verdadeira e autêntica comida de conforto. A sopa é um porto de abrigo quando chegamos exaustos e não apetece fazer nada. Uma sopa não se nega a ninguém e se estamos em baixo e alguém sugere “come ao menos uma sopinha”, aceitamos de bom grado. Muitas vezes declaramos “ai, só quero uma sopinha” ainda que seja um eufemismo para “arranja-também-um-pãozinho-um-queijinho-umas-azeitoninhas-e-aquele-paiozinho-se-tiveres-um-copinho-de-vinho-e-não-preciso-de-mais-nada”. É só mesmo a sopinha.

Tudo começa na tigela, redonda, funda, acolhedora, a sugerir um abraço fumegante. Prolonga-se na colher lisa e macia, sem arestas, a fazer festas na língua. O caldo e os restantes ingredientes adaptam-se com facilidade ao formato e regalam-nos em cada colherada.

Gosto de todas as sopas portuguesas, da canja ao caldo verde, do mais básico creme de legumes à valente sopa do cozido. Espinafres e grão, feijão verde, branco, encarnado, brócolos, todas as couves, acelgas e mariquices dessas. Nomeiem uma sopa que não seja boa! Sopa de peixe, sopa da pedra, as sopas dos restaurantes vegetarianos que levam sempre aipo. Ou lá o que é.

Mas hoje queria fazer o elogio daquelas sopas orientais que estão na moda, o ramen e o pho. Vêm em grandes tigelas aconchegantes onde cabe o caldo aromático, a massa, os vegetais, as ervas e ainda a carne, para quem preferir esta versão. Este género de sopa constitui uma refeição completa, como aliás acontece com algumas sopas portuguesas carregadinhas de nutrientes. Dispensa inclusive a bebida por causa do caldo.

Experimentei hoje uma sopa destas no novíssimo Happy Noodles (Av. 5 de Outubro, 279, em frente à antiga Feira Popular, Entrecampos) e voltei a maravilhar-me com este achado que é colocar uma refeição inteira numa malga de sopa. Massa, legumes bons de trincar, meio ovo cozido, um caldo quente e aromático, aquele calorzinho que se espalha de imediato pelo peito enquanto as mãos afagam a tigela e aquecem também.

E então? Vai uma sopinha?

 

Onde comer as sopas orientais da moda:

 Happy Noodles

Kokoro Ramen Bar

Koppu – Ramen Concept Food

Pho-Pu

Ramen Break

 

Beijinhos a todas,

Céu

 

 

 

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A banalidade do mal

por , em 20/11/16

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Queridas Senhoras,

ando já há vários dias para escrever-vos sobre este livro, mas é-me difícil. Acho que nunca tinha encontrado o mal tão despudoradamente grafado, banalizado, numa história que é, afinal, de amor e reparação. Um assombro de mestria narrativa, de polifonia, de profundo conhecimento das mais insuspeitas fragilidades do ser humano.

Tudo gira em torno de um violino.

Pousou a mão sobre o estojo, mas o raio da velha recuou um passo; o que é que ela julga, esta cabrona. Incapaz de arrancar o estojo à velha, que se abraçara a ele, Sturmbannführer Voigt tirou a pistola, apontou para a nuca puída e cinzenta e apertou o gatilho. Quase não se ouviu o som do disparo, abafado pelos prantos em redor. E a grande porca esguichou o estojo do violino.
(…)
- Ou mo vende por esta quantia ou… Bom, as autoridades terão todo o interesse em saber que o doutor Aribert Voigt, o Sturmbannfürer Voigt, está vivo, escondido a um quilómetro de distância da cidade do Vaticano, provavelmente graças à cumplicidade de alguém que mexe os cordelinhos no Vaticano. E que, além disso, quer fazer negócio com um violino rapinado em Auschwitz.
(…)
Esta foi a tese de doutoramento de Fèliz Ardévol em compra e venda de objectos.

Mas o protagonista é Adrià Ardévol, o filho que já só conheceu o pai como um culto e reputadíssimo negociante de antiguidades. Adrià é uma criança, um jovem, um adulto, um velho precocemente senilizado pela doença. Repartido entre a obsessão do pai com as línguas e a da mãe com a música, cresceu ao abandono numa casa grande demais em espaço, em riqueza, em segredos, mas parca em afectos. E, claro, atribui a culpa a si mesmo.

Tenho toda a minha infância em casa gravada na cabeça como diapositivos de quadros de Hopper, com a mesma solidão peganhenta e misteriosa.
(…)
Até ontem à noite, passeando pelas ruas molhadas de Vallcarca, nunca tinha percebido que tinha sido um erro imperdoável nascer naquela família.

Por causa daquele violino, o pai de Adrià vendeu a alma ao diabo. Por causa daquele violino, Adrià cresceu a acreditar que fora responsável pelo assassinato do pai. Por causa daquele violino, Adrià perdeu o grande amor da sua vida por duas vezes. A mesma mulher, duas vezes.

Por causa daquele violino, Adrià pôs em causa todo o sentido da sua vida.

E lembro-me sobretudo de que após duas ou três aulas começou a rondar-me pela cabeça uma questão que nunca consegui resolver: ao intérprete de música, só se lhe exige perfeição. Pode ser um miserável como pessoa, mas tem que ser perfeito na execução.
(…)
Por vezes penso no poder da arte e do estudo da arte e assusto-me. Por vezes, não compreendo por que razão a humanidade anda à turra e à maça com tantas coisas que há para fazer. Por vezes, penso que somos mais malvados que poetas e que, portanto, não há solução para nós.
(…)
Não é que eu tenha medo: é que eu não quero procurar a perfeição. Não quero uma profissão que não admita o erro nem a hesitação.
(…)
Na minha idade, começava a aprender que o entusiasmo com que fazemos as coisas é mais importante do que as coisas em si. É o que nos torna pessoas.

Acaba por escolher a escrita.

E se Hopper dizia que pintava porque não conseguia expressar o que queria com palavras, eu escrevo com palavras porque, embora veja as coisas, sou incapaz de as pintar. Mas vejo sempre, como ele, através de janelas ou de portas mal fechadas. E o que não sabia fiquei a saber. E o que não sei invento e também é verdade.

Mas a verdade é que nem uma vida inteira de busca pela compreensão e pela expiação lhe trouxe paz.

Perdi o gás. Não sei onde reside o mal e não sei explicar a minha perplexidade agnóstica. Insisto em procurar o lugar onde reside o mal e sei que não se encontra no interior de uma pessoa. Estará no interior de muitas pessoas? Será o mal fruto de uma vontade humana perversa?

Para Hannah Arendt, o mal estava precisamente na ausência de vontade humana. Tão banal quanto isso.

E se virarmos isto de pernas para o ar e procurarmos o bem? Responderíamos às duas questões, assumindo como razoável que um estará na ausência do outro.

Mas responderíamos alguma vez?

Um abraço,

Marta

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I wanna hurry home to you

por , em 19/11/16

dance

Queridas Senhoras,

hoje apetece-me contar-vos uma história antiga. Enfim, tem uns aninhos, aconteceu em Agosto de 2007. Foi assim que o conheci.

Pressenti-o muito antes de o ver. Dirigira-me àquela loja para estar rodeada de coisas bonitas, de coisas que me despertassem a atenção, mas ele despertou-me a atenção muito antes de o ver. Tão bonito.
Dizia-me, à medida que eu me aproximava dele, “vem dançar comigo”, e eu respondia-lhe, a medo, “dançar contigo, aqui?”, e ele continuava, “dança comigo, tu queres dançar comigo, não queres?”, e eu respondia-lhe, envergonhada, “sim, quero, mas eu mal te conheço…”, e ele retorquia, “então fica aqui comigo, dança comigo e já ficarás a conhecer-me um pouco melhor”, mas eu não fui capaz, “não sou capaz”, e ele sussurrou-me ao ouvido, “então leva-me contigo, leva-me para casa e poderemos dançar juntos sempre que quisermos”.
Ainda hesitei. Dei duas ou três voltas à loja mas acabava sempre por voltar ali. Pensei, “a última vez que levei um estranho para casa também o conheci numa loja igual a esta, também me convidou para dançar, e a verdade é que nunca me arrependi de ter decidido comprar o Tigermilk dos Belle & Sebastian…”
Agarrei no Boxer dos The National e fui a correr para casa.

I wanna hurry home to you
put on a slow, dumb show for you
and crack you up
so you can put a blue ribbon on my brain
god I’m very, very frightening
I’ll overdo it

Bom fim-de-semana

Marta

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Questionário ‘Ter 40′