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Queridas Senhoras,

já vos devo ter dito que não é assim tão imediato encontrar suíços na Suíça, certo? Vejam só esta pequena amostra. No meu prédio com 10 apartamentos há gregos, senegaleses, chineses, polacos, checos e portugueses, entre outras nacionalidades que ainda não consegui descortinar.

A chinesa tem uma pequena com menos de dois anos que sempre que passa por mim diz “boujour” e “merci”. Os polacos gostam muito de jantar na varanda e a primeira coisa a vir para a mesa é a “garrafa de água” que é como quem diz, a vodka. O vizinho português traz-me o jornal de Portugal e empresta-me copos e pratos nos jantares que dou para mais de seis pessoas, o limite da minha baixela. E para acabar as apresentações, resta dizer que o concierge é equatoriano.

No prédio da frente a procissão de nacionalidades continua. Mas ressalto o casal do rés-do-chão, ela oriental, que passam os finais de tarde entretidos os dois com jogos de tabuleiro. Quando levam alguém lá a casa e está bom tempo, tiram o sofá e a televisão da sala e trazem-nos para o jardim, literalmente para a relva. Ali é que eles se sentem melhor.

No outro dia, quando uns amigos portugueses me vieram visitar, metemos conversa com um grupo de três senhores que se costumam encontrar nas garagens ora de uns, ora de outros. O que nos chamou a atenção foi o português meio esquisito deles. Se calhar estão cá há tantos anos que já não se lembram bem de certas palavras, pensámos.

- Os senhores são portugueses?
- Quase, somos galegos.

E pronto, foi o suficiente para ficarmos à conversa enquanto um deles tratava do barbecue. É preciso dizer que estes vizinhos, que vieram para a Suíça na década de 60 do século passado, são os reis das churrascadas aqui no bairro. Para mim é uma alegria cada vez que o cheiro a carvão queimado me entra pela janela da sala. Sabe-me logo a Verão.

Explicava um que no prédio dele só há duas casas compradas, a dele e a de um suíço, o resto é tudo alugado a estrangeiros. Ele até tinha tentado fazer amizade com um mexicano mas passados seis meses foi-se logo embora.

Mas para vos mostrar como ele domina bem a vizinhança preciso contar-vos que, aqui há uns dias, estava eu a chegar a casa carregada de sacos ainda me pus a tentar abrir o correio e o portão. Então ele, lá de cima do prédio em frente diz-me assim:

- Tente a seguinte chave %&#$.

E foi desta forma que fiquei a saber qual o código do meu prédio.

Beijos a todas,

Paula

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Lady sings the blues

por , em 17/7/15

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Queridas Senhoras,

passaram hoje 56 anos sobre a morte de Billie Holiday, e este ano, a 7 de Abril, assinalou-se o centenário do seu nascimento. Todos nós temos pessoas destas nas nossas vidas, gente que nunca conhecemos mas cuja passagem pelo mundo, de uma maneira ou de noutra, nos salva. Billie Holiday é uma dessas pessoas para mim.

Já tenho a casa nova toda composta e a maior parte dos quadros pendurados, mas houve dois que se partiram no transporte e que ainda aguardam reparação: imaginem, uma reprodução do Nighthawks, de Hopper, e outra da imagem acima, que imortaliza uma jam session no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1944, com Lady Day ao centro. E esta faz-me muita falta, substituir aquele vidro está no topo das minha lista de prioridades, agora que já temos onde dormir e como cozinhar. É um quadro grande, 60 por 90 cm, enche-me a vista e a imaginação e, em certos dias, com a disposição certa e a música certa a tocar, sinto-me lá. Uma ilusão impagável.

Tenho outra reprodução que evoca esta minha heroína.

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Trata-se de uma ilustração de Paul Rogers, o artista que decidiu escolher de cada página do livro On the Road, de Jack Kerouac, uma inspiração para desenhar. A frase é retirada do livro e ocorreu-me de imediato hoje, quando encontrei este poema de Frank O’Hara, The Lady Day Died:

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn’t even look up my balance for once in her life
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from to 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing

Talvez um dia eu consiga, como Jack Kerouac e Frank O’Hara conseguiram, encontrar as palavras que traduzam a emoção que sinto quando Biilie Holiday, nalgumas versões de My Man, sobe aquilo que me parece ser uma oitava para cantar I’ll go away, e não é uma exclamação, é um lamento.

Ora bem, e para terminar comme il faut, vamos lá a um pezinho de dança:

Até porque hoje é sexta-feira!
Bom fim-de-semana a todas,

Marta

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Queridas Senhoras,

a Paula Silva tem na gaveta a ideia para uma peça de teatro que tem a ver com a interacção entre desconhecidos num determinado espaço. Obviamente, não vou revelar detalhes, seria uma inconfidência imperdoável. Mas a premissa de colocar desconhecidos à conversa é sedutora e cheia de possibilidades.

A peça Escrever, Falar (pelo Teatro dos Aloés, texto de Jacinto Lucas Pires,  em cena nos Recreios da Amadora, de quarta a sábado às 21h30, domingo, às 16h, até 26 de Julho) coloca duas personagens (dois homens) em palco num cenário absolutamente vazio. O que fazem esses dois homens? O que dizem um ao outro? Falam de si? Olham-se nos olhos?

É difícil sustentar o olhar de alguém. Quando por acaso cruzamos o olhar com alguém na rua, nos transportes, no trânsito, o instinto é desviar os olhos, fingirmo-nos de repente interessados noutra coisa. Os dois homens serão capazes de se olhar, de se aproximar? De se tocar? Se um tropeçar e cair, o outro ajuda-o a levantar-se?

Se falarem, irão além da conversa de circunstância? As frases feitas sustentam muita da nossa comunicação diária e são a salvação de situações incómodas. Evitamos o silêncio e preenchemo-lo com palavras inócuas, pré-fabricadas. E o calor que está hoje? Estava-se bem é na praia. Só se for dentro de água.

Dois homens encontram-se e ensaiam tentativas de uma conversa, entre banalidades e confissões. São possibilidades, encenações, projecções.

Não se sabe se chegam a trocar uma palavra.

Beijinhos a todas,

Céu

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Aqui na imagem, digna de uma oficina automóvel que se preze, esta bela senhora foi apanhada a tirar as ervas que estavam já muito crescidas da zona do ferro velho. A imagem capturada mostra o momento em que foi surpreendida.

Aqui na imagem, digna de uma oficina automóvel que se preze, esta bela senhora foi apanhada a tirar as ervas que estavam já muito crescidas da zona do ferro velho. A imagem capturada mostra o momento em que foi surpreendida.

Queridas Senhoras,

a semana que passou foi profícua em idas a oficinas. Primeiro foi o “controle technique” em França, o correspondente à inspecção em Portugal. Logo aqui tive a primeira prova de fogo: fazer conversa de circunstância sobre o estado do tempo, em francês. Isto se quis que me levassem à entrada do armazém da inspecção, coisa que o GPS deveria ter feito, mas não fez.

Num daqueles dias que fazia 30 e muitos graus à sombra, uma senhora aguardava debaixo de um telheiro de uma igreja. “Isto é um bom augúrio”, pensei. E foi mesmo. Ela ia lá para aquelas bandas mas estava à espera de um colega de trabalho que a costuma apanhar ali.

- Ele vem-me buscar em cinco minutos. Se quiser esperar é só seguir-me e nós levamo-la lá.

E depois é o que se sabe. Que este tempo não era costume, que isto é uma onda de calor, venha para a sombra, vou só ali ao carro buscar uma garrafa de água e já venho, se do país de onde vinha se é costume fazer calor assim, faz sim, e mais até, só que nós lá temos ares condicionados, pois nós aqui preocupamo-nos mais com o frio do que com o calor que é mais raro, não se preocupe ele já deve estar a vir, não é costume ele atrasar-se tanto, olha afinal já lá vem.

Depois foi a vez do inspector. A meio do exame à viatura foi-me buscar à sala de espera. Em França não temos que mexer uma palha nem perguntar aos berros: “já posso parar de acelerar?” Havia um pequeno problema e tinha que ver o jogo dos botões superiores do não sei quê do amortecedor. Escreva aí no papel qual é o problema. E ele escreveu.

De regresso à Suíça, na hora de optar por um mecânico, a primeira escolha foi um português. Já ia preparada caso ele me estendesse o braço para o típico aperto de mão. Mas nada, em troca só veio uma enxurrada de perguntas/problema.

- O carro passou com estes faróis assim?
- E o motor, xiii, este motor precisava de um banho.
- Já foi tratar de mudar a matrícula do carro? O carro não pode andar aqui assim.
- E você, já tem papéis?

Então e sobre o problema que o carro tem?

- Bom, isso vou ter de ver. Eles lá na inspecção dizem que é uma coisa mas pode ser que seja outra. Eles dizem que é em cima mas e se é em baixo? Está a ver? Eu primeiro tenho de o ter cá para ver como é que é.

E assim saí de uma oficina portuguesa a 2000 km de casa a pensar como é que me tinha entendido tão bem com um técnico que falava francês e em contrapartida, tão mal com outro que falava a mesma língua que eu. É a Improbabilidade da Comunicação, já dizia o outro…

Beijos a todas,

Paula

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A sul do Tejo

por , em 12/7/15

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Queridas Senhoras,

passo a vida a dizer que ir à outra margem do Tejo é dos passeios mais giros que podemos fazer. Claro que o tempo passa e o passeio chega a ser adiado durante anos (!).

Mas hoje foi o dia. A logística: deixar o carro no Cais do Sodré e apanhar o barco para Cacilhas. O bilhete de ida e volta custa 2.90€. As crianças a partir dos 6 anos pagam o mesmo. O terminal está cheio de gente, incluindo bastantes turistas estrangeiros. A fila para os comboios da linha de Cascais é maior, claro, mas nota-se que muita gente já procura a outra margem. (Vinha um artigo na revista do Expresso sobre uma nova vaga de franceses que compram casa em Lisboa. Gostam dos bairros antigos, das casas na Graça com vista para o Tejo, mas a surpresa é que já procuram também na margem sul. Pudera!)

Cacilhas tem tido destaque na imprensa por causa de uma “movida” recente, com novos restaurantes, bares, lojas, que se concentram na Rua Cândido dos Reis. Felizmente, os novos sítios não abafaram os antigos, não está tudo cheio de hamburguerias e lojinhas, há um equilíbrio natural.

Depois da visita à Fragata D. Fernando II e D. Glória (grátis no 1º domingo do mês, 4€ adultos, 2€ crianças a partir dos 6 anos), almoçamos sardinhas e carapaus no Escondidinho de Cacilhas, mesmo à beira do cais. Tudo impecável, preços razoáveis, esplanadas compostas mas não atulhadas. Cheira a assados no carvão por todo o lado. Não está calor em excesso. Está-se bem, muito bem.

Depois do almoço seguimos pelo Cais do Ginjal. Os velhinhos Atira-te ao Rio e Ponto Final ainda estão no mesmo sítio e parecem ter resistido bem ao tempo. As mesas de ambas as esplanadas, mesmo em cima do rio, estão todas ocupadas por gente com ar muito relaxado. Tudo ali apela à descontracção total.

Seguimos pelo bem cuidado Jardim do Rio até ao Museu Naval (fecha ao domingo). O Elevador da Boca do Vento, que faz a ligação entre o Ginjal e a zona superior de Almada Velha, está com alguns problemas de funcionamento. Voltamos para trás e subimos pelas escadas junto aos restaurantes. A escalada é valente mas constantemente recompensada pelas vistas fabulosas. Lisboa é um desenho perfeito do outro lado.

Uma vez lá em cima rumamos à Casa da Cerca que não conhecia mas sabia ser um sítio especial. É melhor do que imaginei. A vista, os jardins, a esplanada, o sossego. Tenho que realçar o sossego que hoje em dia valorizamos tanto. Para as características únicas do local está pouca gente, a sensação é de privilégio. A Casa da Cerca integra o jardim botânico Chão das Artes. Aqui há, acreditem ou não, camas de pano entre as árvores onde nos podemos estender e entrever o rio.

Depois de gozarmos tudo isto umas duas horas, saímos, passamos pelo Incrível Almadense, e procuramos o Jardim do Castelo onde existe um parque infantil e o restaurante Amarra Ó Tejo. Descemos depois pela Avenida Heliodoro Salgado em direcção ao centro de Almada para chegar novamente a Cacilhas, entrando pela tal Cândido dos Reis. Aqui fazemos uma paragem estratégica no Cova Funda para caracóis e imperiais.

O barco está quase a partir. Corram! Conseguimos apanhá-lo e 15 minutos depois estamos a atracar no Cais do Sodré.

Melhor é impossível.

Beijinhos a todas,

Céu

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-anna-karenina-

Queridas Senhoras,

tenho saudades das minhas conversas diárias com a Paula, a troca de impressões sobre o quotidiano, um artigo que li (os melhores costumava guardá-los para ela), um filme, uma série.

Aqui vai um possível diálogo se ela estivesse cá hoje (a Paula que me corrija se estiver errado):

(Céu) Viste a série que deu estes dois dias na RTP2, a Anna Karenina?

(Paula) Ui. Essa era a russa. Era como a outra.

(Céu) Quem? A Bovary?

(Paula) Pois, filha. Era outra doida.

(Céu) Sabes que a Anna Karenina é considerada uma das grandes heroínas femininas da literatura universal? E o livro é considerado por muitos o melhor romance de todos os tempos.

(Paula) É do Tolstoi, não é? Já leste?

(Céu) Nunca li. E nem conhecia bem a história. Agora com a série é que tive um cheirinho da grandeza da obra, daquela trama toda.

(Paula) Então? Ela é casada e mete-se com outro. E no fim mata-se ou como é que é?

(Céu) Sim, o resumo é esse. Mas a história é incrível, tem imensas personagens. O narrador é o Kostia, um que era para casar com uma moça de quem gostava desde miúdo mas que por sua vez está à espera que o Conde Vronsky, um super galã lá do sítio, a peça em casamento, num baile de gala, durante a valsa vienense. Só que nesse baile também está a Anna (que tinha vindo para salvar o casamento do irmão que tinha traído a mulher; o casamento é um dos grandes temas do livro, estás a ver? Às tantas um padre faz um grande discurso sobre o casamento, diz que é a prova mais dura da vida e tal). O Vronsky vê-a e fica doido. Quer porque quer dançar a valsa com ela. E a outra, a miúda, que se chamava Katarina (mas era conhecida por Kitty) apanha um desgosto daqueles. E antes do baile o Kostia tinha-a pedido em casamento mas ela tinha dito logo que não. Porque estava com ela fisgada, que o outro se ia declarar. Mas o outro está quieto, só tinha olhos para a Anna. Então a Kitty vai para a Alemanha, para um hospital militar, curar o desgosto e tratar feridos de guerra. E crescer e essas cenas. E o Kostia retira-se para a sua casa de campo onde se dedica à agricultura e anda a escrever um livro sobre isso, quer revolucionar a agricultura na Rússia. E tal.

(Paula) Então e a Karenina, pá?

(Céu) Epá nem queiras saber, acontece tanta coisa. Só vendo. E lendo. Vê a série, ainda dá para ver, tens lá gravada.

(Paula) Então e o livro, não vais ler?

(Céu) Epá vou. Tenho de o arranjar.

(Paula) Depois emprestas-me.

(Céu) Tá bem. (………) Então bora lá?

(Paula) Bora lá. Mais um bocadinho.

 

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Questionário ‘Ter 40′