Choose nostalgia

por , em 26/2/17

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Queridas Senhoras,

desculpem a heresia mas a verdade é que não me recordo muito bem do primeiro Trainspotting (1996). Tinha 21 anos, já não era nenhuma criança, mas não fiquei com grande memória, tirando a cara meio louca do querido Ewan McGregor e o Choose life.

Se calhar porque não era a minha cena. Não me identificava nem com o submundo dos agarrados marginais nem com a vida burguesa que Choose life caricaturava. No meu caso seria mais: Escolhe a vida. Escolhe uma casinha decrépita no campo, cria galinhas e planta a tua horta. Não aconteceu.

Vinte anos passaram e mesmo não tendo Trainspotting como uma referência fundamental da minha juventude, se há coisa que sou é nostálgica. Fazer turismo pela minha própria juventude, como diz Simon a Renton, é um dos meus passatempos preferidos. Ver o que foi feito do pessoal, saber o que ainda resta para quem tinha 20 anos há 20 anos.

E é um gozo, mesmo assim, reencontrar aquela malta de quem não me lembrava muito bem, excepto o simpático Renton/Ewan, que não envelheceu nada mal. E diverti-me apesar de reconhecer que T2 Trainspotting não é um grande filme (mas ainda se fazem grandes filmes?).

Diverti-me à grande quando Simon e Renton vão apresentar o seu projecto para a transformação do velho pub da família, na zona portuária de Leith, e metem lá os clichés hipsters todos, a requalificação, a treta comunitária, o raio da comida biológica. Reconhecemos tudo porque a cena é global. Podia ser em Xabregas. Fucking hipsters junkies, armados em empreendedores.

Diverti-me muitíssimo com Spud (Ewen Bremner), o único que ficou irremediavelmente agarrado, que não fez nada da puta da vida a não ser tentar ser um bom pai, falhar, e continuar a tentar até ao fim. E o filme ainda lhe dá a justiça poética de se tornar o narrador dos épicos falhanços daquela malta toda.

Por isso, sim, escolham ver T2 Trainspotting e tirem as vossas próprias conclusões. Se forem sensíveis a isso, há uma cena em que o Renton/Ewan ainda dança.

Beijinhos a todas,

Céu

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Manga curta

por , em 26/2/17

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Queridas Senhoras,

hoje, dia 26 de Fevereiro, corri de manga curta. Foi o primeiro dia do ano em que tive de atar a camisola à cintura e correr de braços ao léu. É muito bom, sim senhora, vem aí a Primavera e tal, só que nem dei conta de o Inverno passar. Quase não corri à chuva, luvas e gorro só levei uma vez. Portanto, basicamente, o Inverno são uns diazinhos de chuva que, por muito que aborreça não conseguir secar a roupa, passam tão rápido que não se dá por eles. Mais uns diazinhos de frio, ai que frio, ai que frio, e quando damos por ela também já foram.

Como é que é mesmo? Se o tempo passa rápido é porque estamos velhos, tristes ou felizes? Nunca sei. O tempo passa rápido porque os dias são chatos ou interessantes? Os meus dias são maravilhosamente iguais e não me aborrecem nada. Passo o máximo de tempo possível na rua, nos jardins, à janela, no quintal. A felicidade é sentir as diferenças de temperatura em cada dia, a intensidade da brisa, do vento, da chuva, o chilrear dos passarinhos. Hoje a brisa e os cheiros eram claramente primaveris, a passarada chilreava que era uma festa e algumas borboletas de cor clara passaram rente aos meus braços nus marcando a cadência da passada no chão da mata, ainda húmido das últimas chuvadas.

Os meus dias são deliciosamente iguais mas aflige-me que passem tão depressa. Já aqui o disse, não vou viver suficientes manhãs, manhãs maravilhosas de Primavera, Verão, Outono e Inverno. Por exemplo, hoje estava enevoado. Mas às tantas abriu o Sol. E no silêncio divino da manhã de domingo os raios trespassaram a folhagem, os passarinhos cantaram, etc. É sempre o mesmo e é lindo, lindo, lindo.

Choveu muito há umas semanas e a mata está profundamente fresca e irrigada. Mas há-de ser um instante até começar correr de calções e ter vontade de cortar o cabelo. Como sempre acontece no Verão.

Beijinhos a todas,

Céu

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O Cavaleiro Polaco, Rembrandt, 1655, The Frick Collection

Queridas Senhoras,

é certo que se nos alimentássemos apenas de poesia escrita em português, não morreríamos à fome. Mas este ano apetece-me celebrar o Dia Internacional da Língua Materna a pensar noutros paladares. Como o de uma coca-cola que me foi dada a saborear por Vasco Gato (as suas traduções são nutrientes essenciais).

Não que não pudéssemos desfrutar de Frank O’Hara na sua língua materna, mas o meu coração fala português e hoje é o meu coração que vos fala. Em português. Por causa da saudade.

BEBER UMA COCA-COLA CONTIGO

é ainda mais divertido do que ir a San Sebastián, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou ficar mal da barriga na Travessera de Gràcia em Barcelona
em parte por essa camisa laranja que te faz parecer um S. Sebastião melhor e mais feliz
em parte pela adoração que tenho por ti, em parte pela adoração que tens por iogurtes
em parte pelas fluorescentes tulipas cor-de-laranja em torno das bétulas
em parte pelo secretismo de que se revestem os nossos sorrisos junto de pessoas e estátuas
custa a crer estando contigo que haja algo tão quieto
tão solene tão desagradavelmente definitivo como estátuas quando diante delas
na morna claridade nova-iorquina das 4 da tarde vamos flutuando de cá para lá
entre um e outro como uma árvore a respirar através dos seus óculos

e a exposição de retratos não parece incluir rosto nenhum, apenas tinta
interrogas-te subitamente por que raio haveria alguém de os fazer

olho
para ti e preferiria olhar para ti do que para todos os retratos do mundo
à excepção porventura do Cavaleiro Polaco uma ou outra vez, que de todo o modo está no Frick
ao qual graças a deus ainda não foste, pelo que podemos ir juntos pela primeira vez
e a maravilha dos teus movimentos como que arruma a questão do Futurismo
tal como em casa nunca penso no Nu a Descer uma Escada nem
num ensaio num único desenho do Leonardo ou do Michelangelo que em tempos me tivesse deslumbrado
e de que vale aos Impressionistas toda a pesquisa a seu respeito
se nunca encontraram a pessoa certa para se pôr junto da árvore ao pôr-do-sol
ou já agora ao Marino Marini se não se esmerou tanto a escolher o cavaleiro
como a escolher o cavalo

parece que todos foram fintados por uma experiência maravilhosa
a qual no meu caso não cairá em saco roto, motivo pelo qual venho falar-te dela

Frank O’Hara
(tradução de Vasco Gato)

Beijinhos a todas,
Marta

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Na Póvoa de Santa Iria

por , em 19/2/17

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Queridas Senhoras,

depois do passeio a Alhandra, há pouco mais de um mês, fiquei com vontade de descobrir as restantes zonas ribeirinhas recentemente renovadas do concelho de Vila Franca de Xira. Uma pesquisa rápida conduziu-me à Povoa de Santa Iria e ao respectivo Parque Urbano e Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo.

Os dois parques estão ligados por trilhos pedonais e, tal como o Caminho Pedonal entre Alhandra e Vila Franca, constituem uma zona privilegiada de fruição do Tejo, estreitamente ligada à memória avieira, tranquila e bastante menos concorrida do que as congéneres lisboetas.

A zona foi requalificada em 2013 e já venceu pelo menos dois importantes prémios internacionais de Arquitectura na categoria de Espaço Público. A cerca de 20 minutos de Lisboa, merece seguramente uma visita demorada, com tempo para percorrer os vários trilhos, sendo um magnífico destino de passeio para os dias primaveris que já se fazem sentir.

Cada um dos parques é servido por um café-esplanada estrategicamente localizado – Guarda-Rios e Porto de Abrigo – onde apetece ficar em contemplação, a tomar balanço para a caminhada ou a recuperar no final do percurso.

Junto ao Porto de Abrigo, no Parque Urbano, funciona o núcleo museológico A Póvoa e o Rio que, em conjunto com a fileira de casinhas de madeira que guardavam os apetrechos de pesca, testemunham a história dos avieiros da Póvoa. Lá está também a Associação Cultural respectiva.

Desta vez fui de carro mas nunca é demais recordar que a Linha da Azambuja serve as estações de Sta. Iria, Póvoa, Alverca, Alhandra e Vila Franca, deixando o visitante praticamente à beira-rio.

Beijinhos a todas,

Céu

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Rissóis e trigonometria

por , em 19/2/17

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A cantilena do Teorema de Pitágoras – a mais persistente memória que restou das matemáticas escolares

 

Só então se deu conta de como eram escassas as competências que tinha adquirido na Universidade. Não havia vagas para bacharéis em estudos religiosos.
O Enredo Conjugal, Jeffrey Eugenides (pp.185) 

Queridas Senhoras,

de vez em quando, o MEC saca uma daquelas crónicas em que se resolve a partilhar com os leitores um segredo gastronómico bombástico, revelando onde se come o melhor pão, frango assado, rissol ou chamuça. Faz o elogio babado da cozinheira ou do cozinheiro, rende-lhe a devida e sentida homenagem e fica a rezar, pedindo que rezemos com ele, para que aquele bem sempre dure.

Sou muito sensível a estes textos, tenho um respeito imenso e reverencial por quem amassa e coze um pão magnífico ou faz uma fornada de rissóis de ir às lágrimas. É aquela admiração de quem é incapaz de fazer seja o que for com as mãos, o espanto perante o poder da criação, seja de comida, objectos ou arte. E também o poder de resolver problemas concretos, reparar máquinas, encontrar soluções.

Não sei fazer rissóis nem chamuças, não sei arranjar a máquina de lavar ou o esquentador, torradeiras são um mistério, montar móveis não contem comigo, carros desconheço em absoluto todo o seu funcionamento. Felizmente, o meu filho ensinou-me a usar o comando da TV. Não tenho receio de trabalho braçal, chamem-me para mudanças, subo e desço escadas, carrego caixas sem queixume. Tenho bom corpinho. Mas as mãozinhas são manápulas. Tudo o que exija técnica ou perícia é uma desgraça.

O mesmo se passa em relação a problemas matemáticos. A minha filha está no 6º ano e já não consigo acompanhar o que ela anda a estudar. Basicamente, tenho 42 anos e o que sei fazer é ler e escrever. A Alice veio mostrar-me o teste de Português e eu deliciada. Era sobre um excerto do Ulisses, obra que lemos há uns tempos cá em casa, e a sequência de perguntas e respostas causou-me verdadeiro prazer. Pensa, analisa, compara, sugere, caracteriza, reflecte, imagina, supõe. Que maravilha. De repente, tive inveja das belas aulas e matérias de Português e Filosofia que ela tem pela frente. Elabora, considera, esboça, denota, resume, explicita, define, explana, contrapõe, argumenta, discute.

Depois, a Alice perguntou se eu queria ver o teste de Matemática. E aí tive pena que o meu olhar já não consiga abarcar a beleza de uma equação, da decomposição de um número num produto de factores primos ou do apótema do pentágono.

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Imagem via www.rtp.pt

Queridas Senhoras,

Hoje celebra-se o amor e eu vou falar de Guerra.

A RTP 2 tem uma série, de curtos episódios semanais, intitulada “O Postal da Grande Guerra”. Esta rubrica apresenta, através de relatos ficcionados, situações que ocorreram durante a I Guerra Mundial.
Esta semana passou um episódio, em que participei no making of, intitulado “Serviço Postal de Campanha”. Este serviço, desempenhado por um grupo de funcionários dos Correios, na Flandres, foi essencial para manter a moral das tropas longe da Pátria.

Milhares de cartas circularam entre 1914 e 1918 e muitas foram de amor, sem dúvida. Por curiosidade, em finais do ano de 1917, o número de correspondência que circulava entre as tropas portuguesas e o correio local francês duplicou, consequência das ligações amorosas entre os militares portugueses e a população feminina francesa. O medo que se passasse informações confidenciais ao inimigo, através destes “enamoramentos”, levou a que muitas cartas ficassem retidas pelo serviço da Censura e nunca chegassem ao seu destino. Quantos corações destroçados…

Muitas outras, que tive o prazer de ler, como foi o caso de pedidos de casamento, onde se prometiam puros, ternos e ardentes amores foram a prova de que se a guerra foi um fracasso, o amor foi uma realidade.

Postal da Grande Guerra: Serviço Postal de Campanha

Beijinhos,

Patrícia

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Questionário ‘Ter 40′